Nações Unidas admitem que Rússia tenha cometido crime de guerra na Síria

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A comissão de inquérito das Nações Unidas à situação na Síria denuncia que um ataque realizado pela aviação russa no fim de 2017 provocou pelo menos 84 mortos. O relatório da comissão aponta mesmo que este ataque “pode constituir um crime de guerra”. Também esta terça-feira, o jornal The Guardian avança que Moscovo é suspeita de usar bombas tecnologicamente ultrapassadas para tentar ocultar a sua responsabilidade na morte de civis.

Pela primeira vez, as Nações Unidas admitem que a Rússia poderá ter cometido um crime de guerra na Síria. O alerta surge no 15º relatório da comissão de inquérito ao conflito, documento que analisa os contornos da guerra síria.

Em causa está um ataque realizado pela aviação russa no fim de 2017 contra o mercado de Atareb, uma localidade que fica na parte ocidental da província de Alepo e que estava sob controlo dos rebeldes. O ataque provocou pelo menos 84 mortos, entre os quais seis mulheres e cinco crianças. Cerca de 150 pessoas ficaram feridas, revela ainda o relatório.

“As informações disponíveis indicam que os ataques foram realizados por um avião russo que utilizou armas não teleguiadas, nomeadamente armas termobáricas”, lê-se no documento. As armas termobáricas recorrem a oxigénio e provocam uma explosão muito mais intensa e duradoura do que as bombas convencionais.

A comissão independente, liderada pelo brasileiro Paulo Pinheiro, nota que nada indica que Moscovo tenha deliberadamente decidido atacar o mercado e os civis. “No entanto, a utilização de bombas não guiadas, nomeadamente armas termobáricas, numa zona densamente povoada de civis pode constituir um crime de guerra”, conclui o relatório citado esta terça-feira pela France Presse.

Também esta terça-feira, o jornal The Guardian avança que a Rússia é suspeita de utilizar armamento menos evoluído e menos preciso para ocultar a sua responsabilidade em eventuais crimes de guerra. O objetivo será responsabilizar o regime de Bashar al-Assad pelas mortes de civis que possam ser provocadas por ataques russos.

A notícia do jornal britânico baseia-se em fontes não identificadas das Nações Unidas. O documento denuncia o uso de bombas menos precisas e evoluídas que são mais parecidas com o tipo de armamento usado por Damasco, tornando mais difícil apurar responsáveis pelos ataques realizados. A fonte citada acredita que este esquema foi concertado entre Moscovo e Damasco para dificultar eventuais investigações.

O jornal The Guardian recorda que era já do conhecimento público que Moscovo usava armamento mais antigo e menos eficiente. No entanto, pensava-se que esta utilização era motivada por interesses económicos, uma vez que essas armas eram mais baratas, e não para tentar cobrir eventuais crimes de guerra cometidos pela Rússia.

Esta teoria não é, no entanto, defendida por todos os investigadores das Nações Unidas. Uma outra fonte da ONU defende que a utilização deste armamento mais obsoleto pode ser uma tática para assustar civis e pressionar as forças rebeldes.
Ataques norte-americanos
O relatório da comissão de inquérito denuncia também a realização de um ataque aéreo norte-americano em março de 2017. O ataque da coligação liderada pelos Estados Unidos atingiu uma escola onde se encontravam 200 pessoas, refere o relatório. Pelo menos 150 pessoas morreram.

A investigação das Nações Unidas conclui que a coligação poderia facilmente ter sido informada da presença de civis naquele local. Os investigadores sublinham ainda que nada permite concluir que se encontravam ali combatentes do autoproclamado Estado Islâmico.

“A coligação internacional deveria ter tomado conhecimento do tipo de alvo e não tomou todas as precauções possíveis para evitar ou reduzir as perdas humanas”, conclui a comissão. O organismo acusa assim a coligação de “violar o direito internacional” mas não evoca qualquer crime de guerra.
 
Este relatório das Nações Unidas é baseado em cerca de 500 entrevistas com vítimas ou testemunhas realizadas através das redes sociais. A equipa das Nações Unidas continua sem autorização de Damasco para realizar a investigação em território sírio.

O relatório denuncia ainda que o regime de Damasco tem continuado a realizar ataques químicos em território sírio. A comissão acusa o regime de ter realizado três ataques com gás de cloro em Ghouta Oriental no passado mês de julho e um outro em novembro. O governo de Bashar al-Assad tem insistentemente negado a realização de ataques químicos.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas vai reunir-se esta quarta-feira quando forem 15h00 em Lisboa. A reunião foi convocada a pedido do Reino Unido e de França e visa debater “a detioração da situação no terreno” e a “falta de aplicação” da trégua humanitária aprovada há um mês por unanimidade pelo conselho.

A situação no terreno permanece muito complicada. Na segunda-feira, 80 pessoas morreram naquele que foi o dia mais sangrento desde que foi decretado o cessar-fogo.


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