Pablo Iglesias aos apoiantes. "Teremos de ceder em muitas coisas"

por Graça Andrade Ramos - RTP
Pablo Iglesias, líder do Unidos Podemos, avisou os militantes dia 15 de novembro de 2019, que a participação no Governo liderado por Pedro Sanchez (PSOE), irá obrigar a "ceder em muitas coisas". Reuters

Garantir a vice-presidência do Governo espanhol tem o seu preço e Pablo Iglesias, do Unidas Podemos, avisou esta sexta-feira os militantes do partido que será necessário pagá-lo. "Teremos de ceder em muitas coisas", escreveu o líder numa carta aos apoiantes, rompendo o silêncio que mantinha desde terça-feira, quando foi anunciado o seu apoio ao Partido Socialista Operário Espanhol, de Pedro Sanchez.

Na missiva, Iglesias sublinha que vai integrar um executivo que irá "governar em minoria" e adverte os simpatizantes de que no caminho se irão defrontar "com muitos limites e contradições".

"Haverá quem invista muitos milhões de euros e muitas horas de televisão para tentar desmoralizar-nos, frustrar-nos e convencer-nos que não é possível", referiu, deixando um pedido. "Recordem-se que o céu se conquista com perseverança".

"Temos  por diante a tarefa histórica e emocionante de participar num Governo que equilibre a balança a favor da maioria", lembrou.

"Teremos de ceder em muitas coisas", avisa, reconhecendo que terá de renunciar a parte do seu programa já que, sobretudo em matéria económica, não comunga das mesmas ideias do primeiro-ministro e do PSOE.

Se, por um lado, Iglesias celebra desde logo o facto de se começar a "cumprir o objetivo" que levou ao nascimento do Podemos há cinco anos, por outro põe água na fervura do entusiasmo, referindo que integrar o Governo não será "tarefa fácil".

Ex-professor de ciências políticas, Pablo Iglesias mantém o tom otimista, apesar dos avisos. Acredita que, "combinando a experiência do PSOE e a coragem do Podemos", este executivo será "a melhor vacina contra a extrema direita".
O fator Vox
O Unidas Podemos perdeu nestas últimas eleições sete deputados e cedeu o terceiro lugar de partido mais votado ao Vox, que se assume frontalmente contra a maioria das suas ideias.

Também o PSOE caiu na votação.

Os socialistas contam agora com 120 deputados e o Podemos com 35, num total de 155 lugares, menos 10 do que os obtidos nas anteriores eleições de abril.

O acordo entre os dois principais rivais da esquerda espanhola espantou todos os analistas, até pela sua rapidez, já que, depois das eleições de abril, Sanchez recusou partilhar quaisquer postos no Governo que foi então convidado a formar."Nem conseguiria dormir à noite", se o Podemos entrasse no Governo, afirmou Sanchez numa entrevista, reconhecendo que impos esse veto.

O impasse acabou por tornar impossível ao líder socialista formar Governo, forçando a realização de novas eleições legislativas, as quartas em quatro anos, nas quais ambos, PSOE e Podemos, foram penalizados.

Agora, a sua aliança de princípio, para um Governo minoritário e conseguida após uma curta conversa de duas horas, fez levantar sobrancelhas.

"É uma verdadeira surpresa", comentou à Agência France Presse, Cristina Monge, professora de Política, na Universidade de Saragoça.

"A questão é, porque foram eles capazes de fazer em duas horas o que não souberam fazer em vários meses?"

A resposta é, considera, "a subida do Vox e a ausência de alternativas".

Negociações sob sigilo
Para os analistas, com a presença do Vox como terceira força na Assembleia, os conservadores do Partido Popular ficaram impossibilitados de deixar Sanchez governar em minoria - abstendo-se de um voto de confiança e através de acordos pontuais - sob pena de deixar aos ultra-nacionalistas a liderança da oposição.

Iglesias tem, para já, a promessa da vice-presidência, refere a imprensa, no acordo firmado terça-feira com Sanchez.

Os restantes lugares do novo executivo terão ainda de ser distribuídos e ignora-se o nível de cedência a que Sanchez estará disposto para evitar nova ida às urnas, na qual arrisca novo revés.

Iglesias indicou já, esta sexta-feira, que deixou cair várias exigências, sem contudo referir quais.

Especialmente complicado será o dossier da independência catalã, na qual PSOE e Unidas Podemos defendem posições diferentes.

Ao contrário das anteriores, resultantes da vitória de abril, estas negociações estão a decorrer sob o maior sigilo e sem fugas de informação à imprensa.

O acordo entre ambos os líderes promete "coesão" e "lealdade" no seio do executivo. Só que, para chegarem a ser investidos, especialmente antes do Natal, PSOE e Podemos terão ainda de convencer uma terceira força a apoiá-los, num Parlamento fragmentado, onde um voto de confiança poderá ser muito difícil de passar.
Reféns das minorias
Os socialistas estão a sondar os pequenos partidos, como o Ciudadanos, relegado para os grupos minoritários, e sem líder. Albert Rivera demitiu-se, após a estrondosa perda de votação nestas últimas eleições.

Beliscado pelas acusações duras que sofreu por parte de Sanchez durante a recente campanha, o Ciudadanos tem agora a oportunidade de se fazer valer.

Já se recusou a apoiar o rumo seguido pelo líder socialista, de um "Governno progressista", deixando em vez disso um apelo a outro "acordo moderado" ao centro, entre ele próprio, os socialistas e o Partido Popular.

"O Ciudadanos não pode apoiar o fato de Sanchez e Podemos terem as rédeas do governo espanhol", esclareceu o partido, sem deixar margem para dúvidas.

Se não conseguir os apoios que pretende, o executivo ficará dependente dos separatistas catalães, numa altura em que a Catalunha atravessa um período de alta tensão, causado pelas penas de prisão impostas, em meados de outubro, aos líderes da tentativa de secessão de 2017.

Os nacionalistas bascos do PNV, que conseguiram sete lugares, exprimiram até agora uma vontade de serem "construtivos".

Caso consigam resolver o imbróglio, Sanchez e Iglesias irão liderar o primeiro executivo espanhol resultante de uma coligação, desde o restabelecimento do processo democrático em 1975, após a morte de Franco.

A aliança entre o PSOE e o Unidas Podemos deverá pôr igualmente um ponto final na instabilidade e paralisia política em Espanha, que se arrasta desde 2015.
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