Parlamento de Hong Kong foi invadido porque Governo mostrou que manifestações não resultam

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A porta-voz da organização que tem liderado as manifestações em Hong Kong defendeu em entrevista à Lusa que a invasão do parlamento aconteceu porque o Governo passou a ideia de que as manifestações pacíficas não resultam.

"Há um graffiti na Assembleia Legislativa que resume a razão pela qual os jovens fizeram o que fizeram: Foram vocês que nos ensinaram que as demonstrações pacíficas não resultam", disse Bonnie Leung, vice-coordenadora da Frente Civil de Direitos Humanos, que integra 15 organizações não-governamentais e movimentos políticos.

Dois dos protestos, a 12 de junho e a 01 de julho, foram marcados por violentos confrontos entre manifestantes e a polícia, que chegou a usar balsas de borracha, gás pimenta e gás lacrimogéneo. A 01 de julho, os manifestantes invadiram mesmo o parlamento de Hong Kong.

"Obviamente Pequim e o Governo de Hong Kong querem que a população da nossa cidade e no mundo acreditem que aqueles jovens manifestantes foram indesculpavelmente violentos. Mas estou muito satisfeita e orgulhosa com o facto de que as pessoas de Hong Kong conseguirem descortinar essas táticas", sustentou a ativista.

"Dois milhões [de pessoas] estiveram nas ruas pacificamente e nem um vidro foi partido e as nossas reivindicações não foram atendidas", lembrou, para concluir: "O Governo não estava a ouvir".

Bonnie Leung disse compreender a razão pela qual "as pessoas podem não concordar com as ações dos jovens" e que o seu movimento também entende que não é necessário que estes coloquem em risco a sua própria segurança".

"Mas estamos solidários e preocupamo-nos com eles", afirmou, reafirmando que não são jovens violentos, mas que, em desespero, frisou, destruíram objetos "que simbolizam a tirania do Governo de Hong Kong", mas que se preocuparam em preservar documentos históricos, exemplificou.

Há mais de um mês que Hong Kong é palco de protestos maciços. O mais concorrido, segundo a organização, aconteceu a 16 de junho, quando cerca de dois milhões de pessoas (mais de um terço da população) saíram à rua para protestar contra a lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para jurisdições com as quais não existem acordos prévios, como é o caso da China.

A chefe do Governo da antiga colónia britânica, agora território administrado pela China, depois de pedir desculpa em duas ocasiões distintas, em junho, chegou mesmo a afirmar já este mês que a lei estava "morta".

Uma declaração que não conseguiu convencer os líderes dos protestos, que continuam a promover pequenas ações e manifestações na cidade e a exigir que o Governo responda a cinco reivindicações: retirada definitiva da lei da extradição, a libertação dos manifestantes detidos, que os protestos de 12 de junho e 01 de julho não sejam identificados como motins, um inquérito independente à violência policial e a demissão da chefe do Executivo, Carrie Lam.

Os defensores da lei argumentam que, caso se mantenha a impossibilidade de extraditar suspeitos de crimes para países como a China, tal poderá transformar Hong Kong num "refúgio para criminosos internacionais".

Já os manifestantes dizem temer que Hong Kong fique à mercê do sistema judicial chinês como qualquer outra cidade da China continental e de uma justiça politizada que não garanta a salvaguarda dos direitos humanos.

A transferência de Hong Kong e Macau para a República Popular da China, em 1997 e 1999, respetivamente, decorreu sob o princípio "um país, dois sistemas", precisamente o que os opositores às alterações da lei garantem estar agora em causa.

Para as duas regiões administrativas especiais da China foi acordado um período de 50 anos com elevado grau de autonomia, a nível executivo, legislativo e judiciário, sendo o Governo central chinês responsável pelas relações externas e defesa.

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