Polícia de Hong Kong criticada por detenção de menina de 12 anos

por RTP
Ação policial em Hong Kong para dispersar protestos pró-democráticos dia 06 de setembro de 2020 Reuters

De acordo com a mãe da criança detida, a filha tinha ido com o irmão mais velho comprar material para artes, este domingo, quando foi apanhada numa acção policial contra protestos de rua, os maiores em Hong Kong desde 1 de julho.

Foram também os primeiros desde a imposição por Pequim da nova lei de segurança na cidade, tendo sido marcados por uma coligação de grupos pró-democracia para assinalar o dia que deveria ter sido de eleições locais.

O adiamento destas por um ano mantém a governadora Carrie Lam e o seu gabinete nos cargos pelos próximos 12 meses.

Cerca de dois mil polícias tinham sido mobilizados desde a manhã de domingo para evitar as manifestações. Quase 300 pessoas foram detidas, a maioria por ajuntamentos ilegais.

Um vídeo, publicado nas redes sociais, mostra a rapariga a tentar escapar do cerco policial, sendo perseguida e deitada ao chão por um agente, ajudado por vários outros a mantê-la deitada. A violência deixou a criança arranhada e cheia de nódoas negras, sem contar com o impacto psicológico da brutalidade sofrida.

Tanto ela como o irmão já têm cadastro por ajuntamento ilegal.



A mãe da criança garantiu à imprensa local que vai fazer queixa e processar a polícia. A filha e o irmão, de 20 anos, tinham saído para comprar material, garantiu, e a rapariga só tentou fugir por estar assustada. Claudia Moo, uma deputada pró-democracia, citou o caso para demonstrar "como a polícia de Hong Kong está desnecessariamente tensa e de dedo no gatilho".

Horas após o incidente, a polícia de Hong Kong emitiu um comunicado a justificar as ações dos seus agentes. Referiu que ela correu "de forma suspeita" e foi retida com a "força mínima necessária".

"A polícia precoupa-se com os mais novos que participam em ajuntamentos ilegais. A sua presença nas cenas caóticas dos protestos também coloca em perigo a sua própria segurança", referiu no mesmo texto.

Num comunicado posterior convidou quem tenha razões de queixa da ação policial a dirigir-se a um gabinete específico.

"A polícia dá grande importância à integridade. Se qualquer pessoa considera que ela ou ele foi alvo de conduta repreensível por parte da polícia, ele ou ela pode apresentar queixa do Gabinete de Queixas Contra a Polícia. Será analisada de forma justa e imparcial, para estabelecer procedimentos", garantiu.
Repressão não detém manifestantes
Domingo à noite, o governo da cidade lamentou que as pessoas tivessem ignorado as ordens da polícia para não particpar em assembleias ilegais, colocando em risco os esforços de combate à pandemia de Covid-19 e em violação da lei nacional de segurança.

O "governo condena firmemente estas ações egoístas e criminosas", afirmou. "A polícia cumpriu os seus deveres e agiu de forma imediata e decisiva para deter os infratores".

Já o porta-voz do gabinete de ligação a Pequim, acusou os manifestantes de tentar "reiniciar a guerra" e de violar as proibições impostas pela pandemia, com "uma fria indiferença pelas vidas e pela saúde do público em geral".

O mesmo responsável frisouque, desde a implementação da lei, "Hong Kong mudou de forma positiva do caos para a governabilidade" e acrescentou que heverá "tolerãncia zero" para com quaisquer violações.

A lei da segurança nacional considera crimes atos de sedição, de secessão, de terrorismo e de conspiração com o exterior. Sob a pandemia, foram proibidos ajuntamentos de qualquer tipo, argumento utilizado pela polícia para dispersar eventuais protestos e manifestações e deter quem os incite.

A pandemia foi igualmente o pretexto para o adiamento das eleições
marcadas para o passado domingo. Carrie Lam, governadora da cidade, fez o anúncio em julho e foi acusada de usar a Covid-19 para silenciar a oposição.
Detidos e fugitivos
Muitos manifestantes apelaram este domingo à libertação de 12 pessoas detidas dia 23 de agosto pela guarda-costeira chinesa quando tentavam chegar numa lancha rápida a Taiwan, ou Ilha Formosa. Os seus advogados afirmaram à Agência France Presse que ainda puderam contactar com os seus clientes.Os 12 desapareceram sem deixar vestígios e sem que sequer as suas identidades fossem oficialmente reveladas.

Alguns jornais, incluindo um pró-Hong Kong, avançaram com alguns nomes e familiares de outros também se queixaram.

Algumas das pessoas a bordo da lancha seriam, de acordo com estas fontes, procuradas pelo seu envolvimento na crise política que agita Hong Kong desde 2019.

Este domingo, um outro ativista, Tam Tak-chi, foi detido num incidente separado por "proferir palavras sediciosas", de acordo com a polícia da cidade.

Vice-presidente de um partido democrata, o Poder do Povo, e ex-locutor de rádio, Tam foi preso pela força especial da polícia de Hong Kong mas acusado sob a lei comum e não sob a nova lei de segurança nacional. A investigação da polícia especial vai incidir sobre a suspeita de que Tam tenha violado o artigo 21 da lei de segurança, que criminaliza o "incitamento à sedição".

Até agora, em pouco mais de um mês, a lei de segurança levou à detenção de 25 pessoas. Nenhuma foi ainda acusada.

Nesse período, várias redações de jornais foram alvo de buscas, professores académicos foram removidos dos cargos e livros, geralmente considerados problemáticos, retirados das prateleiras ou modificados.

Nos restaurantes desapareceram as "paredes limão", onde as pessoas colavam pequenos papéis com mensagens pró-democracia.
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