Primeiro ano de Scholz como chanceler alemão marcado por falhas na estratégia e comunicação

por Lusa
Benjamin Westhoff - Reuters

As falhas de comunicação e a falta de uma estratégia clara da Alemanha em relação à guerra na Ucrânia são os principais pontos que caracterizaram o primeiro ano de liderança de Olaf Scholz, segundo analistas ouvidos pela Lusa.

O SPD, Partido Social-Democrata alemão, com Olaf Scholz como candidato, venceu as eleições a 26 de setembro do ano passado com 25,7% dos votos. A União Democrata-Cristã (CDU) ficou atrás, por uma pequena margem, conquistando 24,1%, o pior resultado da sua história.

"A minha sensação, em geral, é de desapontamento com o governo e com a personalidade", começa por analisar Edgar Grande, diretor fundador do Centro de Investigação da Sociedade Civil, no Centro de Ciências Sociais de Berlim, destacando a "grande diferença" entre "palavras e atos".

"Tornou-se evidente que a coligação (formada pelo SPD, Liberais e Verdes) é muito heterogénea, e que é muito difícil chegar a consensos entre os três partidos em assuntos importantes, sobretudo em questões de política económica e fiscal, mas também na gestão da pandemia" de covid-19, acrescentou.

No final de agosto, uma sondagem divulgada pelo "Bild am Sonntag" e realizada pelo instituto INSA, dava conta de um recorde de insatisfação dos alemães com a atuação do chanceler e do governo. Os resultados mostravam que 62% dos inquiridos estavam descontentes com o trabalho de Olaf Scholz e apenas 25% o avaliavam positivamente.

"Esta insatisfação está ligada, em primeiro lugar, com as falhas de comunicação, ele não é um bom comunicador, e em segundo lugar, a uma estratégia pouca clara em relação à Ucrânia", apontou Martin Kessler, editor-chefe de política do jornal alemão Rheinische Post.

"Ele acha que não precisa de nenhum consultor, assessor, porque acredita que sabe melhor que ninguém como lidar com as coisas. É a sua atitude (...) Por exemplo, o nosso sistema de pensões, na Alemanha, é muito complexo. Ele diz que há apenas um punhado de pessoas que dominam este sistema, e ele é um deles. Isto reflete bem o que pensa dele mesmo", revelou.

Em relação à guerra na Ucrânia, Kessler acredita que o chanceler transmite a sensação "de que não tem uma estratégia clara", sublinhando, por um lado, a necessidade de ser cuidadoso, e por outro, entregando uma grande quantidade de armas apenas quando alvo de pressão por parte dos parceiros internacionais.

"Estas duas coisas juntas contribuem para um mau resultado", avaliou.

Para o politólogo e investigador Oscar Prust, da Universidade Martin-Luther de Halle, o chanceler encontra-se numa situação "muito complexa" de política que "não é carne, nem peixe".

"Por um lado, tenta trabalhar em conjunto com os parceiros europeus e da NATO para manter os carregamentos de armas para a Ucrânia e as sanções à Rússia no exterior. Por outro lado, e consequentemente, tem de equilibrar a política de alterações climáticas com a política social interna", explicou à agência Lusa.

"Se não houvesse guerra, ele teria provavelmente resultados muito melhores nas sondagens", defendeu Prust.

Lothar Probst, politólogo e professor emérito na Universidade de Bremen, lembra que, após 16 anos de governação de Angela Merkel, a eleição de Scholz, em setembro de 2021, e a sua nomeação como chanceler, em dezembro, desencadearam a expectativa de "um novo começo", até porque ele passou a representar uma nova coligação "semáforo".

"No entanto, muitos observadores negligenciaram desde o início que Scholz, e o seu próprio partido, só foram escolhidos por cerca de 25% dos eleitores (...) Então a agressão da Rússia contra a Ucrânia mudou toda a agenda e provocou uma reviravolta na posição a longo prazo da política externa e de segurança do SPD", evidenciou.

Probst recorda o "famoso" discurso de Scholz no parlamento alemão depois do início da guerra na Ucrânia, em fevereiro, mostrando que "parecia mudar o seu papel e despertar a expectativa de que ele lideraria a coligação nesta crise".

"Depois deste discurso histórico, porém, ele não foi capaz de comunicar com o público e de explicar a política da coligação. Em vez disso, Robert Habeck, dos Verdes, Vice-Chanceler, assumiu este papel e foi classificado pelos meios de comunicação social como o `chanceler secreto` da coligação. Scholz, pelo contrário, mostrou-se hesitante, cauteloso e reservado", constatou.

Para Edgar Grande tem sido transmitida uma imagem de "falta de liderança política", não sendo claro "o que o governo faz, por que razões o faz, e que resultados espera", tornando-se este problema ainda mais evidente quando o tema é a guerra na Ucrânia.

Ainda assim, Martin Kessler acredita que os seus vastos conhecimentos económicos e a capacidade rápida de aprender com as novas situações vão possivelmente ajudar o chanceler a resolver futuras situações e a consolidar a liderança já neste inverno.

pub