Reino Unido. Brexit e pandemia elevam risco de "crise económica sistémica"

por Joana Raposo Santos - RTP
Os esforços de combate à pandemia podem "danificar gravemente" a economia, alertou o Governo britânico. Toby Melville - Reuters

O Reino Unido enfrenta uma crescente probabilidade de "crise económica sistémica", numa altura em que completa a sua saída da União Europeia e continua a lutar contra a pandemia de Covid-19. O risco foi admitido pelo próprio Governo britânico num documento confidencial obtido pelo Guardian.

“O inverno de 2020 poderá ver uma combinação de inundações severas, de uma pandemia do vírus da gripe comum, de uma nova e crescente doença infeciosa e de ações industriais coordenadas, com o fim do período de transição do Brexit em pano de fundo”, alertou o Governo britânico no documento.

O documento, identificado como “sensível” e datado de setembro, apresenta aos responsáveis governamentais os possíveis impactos da última fase do Brexit, detalhando “os piores cenários” em 20 aspetos da vida nacional, desde os cuidados de saúde às viagens, ao policiamento ou ao combustível.

De modo a contextualizar estes possíveis cenários, os documentos narram o estado atual da nação, descrevendo um país com dificuldade em ultrapassar a crise que vive enquanto se prepara para entrar numa segunda trazida pela conclusão da saída do Reino Unido da União Europeia. Todos os departamentos do Governo são alertados para uma possível saída “sem acordo comercial”.

Segundo o texto, as cadeias de fornecimento britânicas e globais poderão ser interrompidas pelas “circunstâncias que ocorrerão em simultâneo no final do ano”.

Os stocks acumulados no final de 2019 diminuíram durante a pandemia de Covid-19 e não conseguem ser facilmente repostos. Apesar de não estar prevista uma escassez geral de alimentos, poderá haver falta de alguns bens e os preços poderão subir. Tal levará a que pessoas com baixos rendimentos fiquem em maior risco de insegurança alimentar caso o Brexit termine sem acordo comercial com a UE.
Risco de colapso da ordem pública
O documento avisa que o possível caos económico no Reino Unido pode aumentar o risco de colapso da ordem pública e de uma crise nacional de saúde mental, enquanto reduzirá as “alavancas financeiras” disponíveis para que o Governo possa responder a outros problemas.

Também as “tensões comunitárias” poderão aumentar devido ao Brexit. A polícia britânica detetou um aumento dos crimes de ódio relacionados com o Brexit em março de 2019 e no final desse ano – duas das alturas em que foram tomadas decisões importantes sobre o processo de saída, à semelhança do que irá acontecer em janeiro de 2021.

O Governo não quis comentar a informação presente no documento confidencial divulgado, mas referiu que o mesmo faz parte de um “planeamento intensivo” para apoiar os cidadãos na fase final do processo de saída do Reino Unido da União Europeia.

“Como Governo responsável, continuamos a fazer extensas preparações para um amplo leque de cenários, incluindo o pior cenário possível. Isto não é uma previsão do que vai acontecer, é apenas um cenário improvável. Reflete um Governo responsável a assegurar-se de que está pronto para todas as eventualidades”, declarou ao Guardian um porta-voz do Executivo britânico.

Os riscos apresentados no documento são divididos por cores (verde, amarelo e vermelho), conforme o grau de preocupação que representam. Os temas de risco elevado ou moderado incluem a desordem pública, o impacto em grupos de baixos rendimentos e quebras no fornecimento de comida e água.
Pandemia poderá agravar todos os problemas
Outro problema identificado como grave é a eventual quebra nas importações de medicamentos. “O pior cenário é de 60 a 80 por cento dos níveis atuais”, o que colocaria a segurança dos pacientes em risco, frisa o Governo. Este cenário é, porém, improvável, uma vez que em outubro o Executivo britânico anunciou contratos com ferries de quase 80 milhões de libras para assegurar que medicamentos e outros bens essenciais continuam a chegar ao Reino Unido.

Todos estes eventuais problemas serão agravados pelo facto de o Reino Unido, à semelhança do resto do mundo, atravessar uma pandemia que parece não dar tréguas. “A pandemia limitou e continuará a limitar a capacidade do setor da saúde de se preparar e de responder durante o período de transição” do Brexit, alerta o documento do Governo, que prevê dificuldades entre o final de novembro e abril do próximo ano.

O texto, escrito em setembro, identificava uma potencial subida do número de casos de infeção pelo novo coronavírus em outubro e novembro – algo que veio a concretizar-se, apesar de agora os casos estarem a diminuir novamente depois de o Governo de Boris Johnson ter decretado o confinamento nacional.

Os esforços de combate à pandemia podem “danificar gravemente” a economia, clarifica o documento. No caso de uma nova onda de casos de Covid-19 no país, “a recuperação será insignificante, a confiança dos consumidores e investidores continuará baixa a longo prazo e o comércio internacional será fortemente prejudicado”, alerta o documento.
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