Reino Unido. Polícia tratou como criminosas famílias cujas filhas foram traficadas pelo Estado Islâmico

por RTP
As famílias britânicas lamentam que as filhas e netos estejam a viver em condições perigosas nos campos de refugiados Reuters Arquivo

A polícia britânica tentou criminalizar as famílias cujas crianças foram traficadas para o Estado Islâmico na Síria, revelou o jornal The Guardian. Quatro famílias britânicas contaram, ao abrigo do anonimato, como foram tratadas como suspeitos e as suas filhas abandonadas nos campos de refugiados sírios.

Num relatório de Abril, a instituição de ajuda legal Reprieve referia que dois terços das mulheres britânicas detidas no nordeste da Síria foram traficadas para a região. Atraídas para a região após um envolvimento emocional através de sites de namoro, as mulheres eram confrontadas com a dura realidade do casamento forçado, da violação e da exploração sexual.

Uma mulher revelou que cooperou com a polícia quando a irmã desapareceu, mas mais tarde descobriu que os agentes não tinham qualquer interesse em localizá-la.

Achámos que a polícia estava ali para nos ajudar. Com o tempo, pudemos ver que a polícia e as autoridades não falavam connosco para nos ajudar, mas apenas para obter informações. Assim que conseguiram as informações, lavaram as mãos”, conta ao jornal.

Nunca nos ofereceram qualquer apoio. Sentir que era eu que tinha de lhes provar que era anti-terrorista. Senti que estava sempre sob suspeita”, acrescenta.

Uma forma de tratamento corroborado por outra testemunha. “Fui interrogada como se fosse suspeita e assim que decidiram que não era, não queriam ter nada a ver comigo. Tornou-se realmente muito difícil entrar em contacto com eles”, descreu a segunda testemunha.

Uma terceira testemunha contou que a polícia fez uma vistoria à habitação depois de terem pedido ajuda a rastrear uma filha desaparecida e lamentou a polícia a considerasse uma ameaça à segurança nacional. “[Ela] é tão frágil e foi abusada. Ela não é uma ameaça. Ela está realmente assustada e vulnerável”, contaram.

Outra família contou que a filha foi encarcerada assim que chegou à Síria. “Estava presa em todos os sentidos, numa gaiola desde o momento em que chegou", lamentaram.

Todas as famílias que prestaram depoimento mostraram-se zangadas sobre como o Governo do Reino Unido abandonou o princípio da inocência, uma decisão que na sua perspetiva comprometeu a posição internacional de Londres.

Normalmente são os governos ocidentais que falam sobre direitos humanos e tráfico. No entanto, quando a minha família que foi abusada e traficada, decidiram nem mesmo investigar o caso. São consideradas culpadas apenas por estarem na Síria”, criticou uma outra testemunha escutada no Parlamento britânico. Outras famílias também lamentam a perda de fé no país e nas instituições britânicas.

Relatório da Reprive

De acordo com a organização britânica de apoio legal, devem continuar na Síria e no Iraque cerca de 25 adultos e 35 crianças, de um total de 800 cidadãos britânicos que se deslocaram para a região. Mais de metade das crianças tem cinco anos ou menos.

Quarenta e cinco por cento destes cidadãos tinham menos de 18 anos quando viajaram para a Síria e 44 por cento das mulheres foram coagidas por um parceiro do sexo masculino.

Um dos casos mais conhecidos de crianças britânicas que se juntaram às fileiras do Estado Islâmico envolve três estudantes de Londres: Kadiza Sultana, de 16 anos, Amira Abase e Shamima Begum, de 15 anos. O advogado de Begum alega que há “provas contundentes” de que a rapariga foi traficada.

Begum é uma das 20 pessoas a quem o governo britânico retirou a cidadania e recusa repatriar. No entanto, foram processados apenas 40 dos 400 britânicos que voltaram ao Reino Unido após a viagem para a Síria ou para o Iraque para se juntarem a organizações terroristas.
 
"Condições deploráveis" e insegurança nos campos de refugiados

A diretora da Reprieve sublinha que as famílias que estão nos campos de refugiados foram “despojadas de todos os direitos, presumidas culpadas sem julgamento, submetidas à violência e abandonadas pelo governo”.

As famílias chamam a atenção para a falta de condições nos campos curdos, onde estão as crianças britânicas. A Organização Mundial da Saúde classificou as condições de “deploráveis e insuportáveis” nestes campos.

As crianças estão a crescer cercadas por ameaças de violência e perigos de coisas como incêndios frequentes em barracas”, além da falta de instalações médicas ou de educação, notaram os familiares.

De acordo com a Save the Children, durante os primeiros oito meses de 2021, morreram 163 pessoas no campo de al-Hol, na Síria, incluindo 62 crianças.

Pelo menos 81 assassinatos foram registados este ano. Em agosto do ano passado, oito crianças menores de cinco anos morreram numa única semana.
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