Segundo canadiano detido pelas autoridades chinesas

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Esta detenção acontece poucos dias após a detenção de outro canadiano, o antigo diplomata Michael Kovrig, pelas autoridades de segurança de Pequim.
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A China confirma que está a investigar um segundo canadiano por “ameaças à segurança nacional”. Trata-se de Michael Sparov, um homem de negócios considerado muito próximo do líder norte-coreano, Kim Jong-un. Este é mais um desenvolvimento na disputa diplomática entre Pequim, Washington e Otava, iniciada há quase duas semanas com a detenção de uma alta-responsável da Huawei em Vancouver.

Michael Sparov “já fez ski com Kim Jong-un e já sentiu o chão a tremer devido a um teste nuclear na Coreia do Norte”, resume a agência Reuters. Sabe-se agora que o consultor foi detido na segunda-feira pelas autoridades chinesas, segundo confirmou o governo regional da província chinesa de Liaoning.

Michael Sparov, vive precisamente em Liaoning e trabalha para a International Crisis Group, uma organização não-governamental que não está registada nem autorizada a operar na China.

É conhecido sobretudo pela relação de proximidade com Kim Jong-un e teve um papel relevante quando facilitou a ida do jogador norte-americano de basquetebol, Dennis Rodman, à Coreia do Norte em 2013.  

Ainda em agosto último, o empresário esteve em Pyongyang, onde assistiu a uma das recorrentes paradas militares do regime eremita. 



Esta detenção acontece poucos dias após a detenção de outro canadiano, o antigo diplomata Michael Kovrig, pelas autoridades de segurança de Pequim. 

A investigação que incide sobre Sparov e Kovrig está relacionada com “atividades que colocam a segurança nacional da China em perigo”, segundo confirmou esta quinta-feira Lu Kang, porta-voz da diplomacia chinesa.  

Na quarta-feira, a ministra canadiana dos Negócios Estrangeiros, Chrystia Freeland, já tinha revelado que se suspeitava de uma segunda detenção de um cidadão canadiano na China.  

Entretanto, o Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros fez saber, através do porta-voz, Lu Kang, que a Embaixada canadiana na China já foi notificada de ambos os casos.

A diplomacia chinesa garante que os direitos legítimos dos dois detidos estão a ser cumpridos e que Pequim está “a agir de acordo com a lei”.  

Lu Kang recusou-se no entanto a esclarecer se estas detenções foram uma forma de retaliação por parte do Governo chinês contra a detenção de Meng Wanzhou, diretora financeira e vice-presidente da administração da Huawei.  

Meng Wanzhou, filha do fundador da gigante tecnológica, Ren Zhengfei, foi detida no início de dezembro quando fazia escala de um voo em Vancouver.  

As autoridades canadianas realizaram a detenção a pedido dos Estados Unidos com base numa alegada violação, por parte da empresa, das sanções impostas pelas autoridades norte-americanas contra o Irão entre 2009 e 2014.  

Na terça-feira, onze dias depois da detenção, um juiz canadiano ordenou a libertação de Meng Wanzhou sob pagamento de uma fiança de 10 milhões de dólares (cerca de 6,5 milhões de euros).  

Meng Wanzhou terá igualmente que entregar os dois passaportes, residir numa das propriedades que tem em Vancouver, usar uma pulseira eletrónica no tornozelo e pagar a uma empresa de segurança responsável por controlar os seus movimentos, limitados a uma parte da cidade de Vancouver.  

A responsável da Huawei deverá ficar nestas condições a aguardar o resultado do processo de extradição para os Estados Unidos pelas autoridades canadianas.  
Pressão sobre Otava

Ainda que o Governo chinês se recuse a fazer a ligação entre a detenção de Meng Wanzhou e a subsequente detenção dos dois canadianos, há quem considere que a relação entre os dois casos é óbvia, até porque a China prometeu “sérias consequências” ao Canadá, numa reação imediata à detenção da CFO da Huawei.  

“É óbrio que o Governo chinês quer pressionar ao máximo o Governo canadiano”, considerou Guy Saint-Jacques, antigo Embaixador do Canadá na China, em declarações à agência France Presse.  

O Canadá insiste, tal como fez após a detenção de Meng Wanzhou, que a decisão de extraditar a responsável para os Estados Unidos não cabe nem ao Governo canadiano nem ao Ministério da Justiça, mas ao sistema judicial.  

Com a situação num impasse, a imprensa estatal chinesa desafia o Canadá a rejeitar a “hegemonia” dos Estados Unidos e a tomar “decisões independentes”.  

O Global Times, diário de língua inglesa do grupo Diário do Povo - pertencente ao Partido Comunista Chinês – apela ao Canadá para que atue “como um país independente e soberano, e não como um Estado vassalo”.  

"O Canadá concedeu liberdade condicional a Meng Wanzhou, o que é positivo, mas ela merece total liberdade. Otava pode acabar agora mesmo com esta crise", pode ler-se no editorial da publicação online.

O Global Times refere ainda que caso o Canadá falhe na proteção e segurança dos cidadãos chineses no seu território e ignore os laços com a China então “deverá pagar por isso”.  

As autoridades norte-americanas têm 60 dias após a detenção de Meng Wanzhou para apresentar ao Canadá um pedido formal de extradição. Se isso não for feito, a empresária poderá sair em liberdade.

As tensões em volta deste caso elevam-se num momento de grande debilidade nas relações entre Estados Unidos e China, a braços com uma guerra comercial há vários meses. No exato dia da detenção de Meng Wanzhou, Donald Trump e Xi Jinping reuniram-se à margem da cimeira do G20, em Buenos Aires, a 1 de dezembro.  

Os dois Presidentes acordaram, nessa mesma data, o estabelecimento de uma trégua temporária de 90 dias à escalada de taxas alfandegárias, impostas pelos dois países de forma reciproca. O desenvolvimento no caso destas detenções poderá ser determinante na negociação comercial entre Washington e Pequim.

(com agências internacionais)

Tópicos:

Canadá, China, Estados Unidos, Huawei,

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