Sudão. Meia centena de mortes em confrontos tribais no Darfur

por RTP
Manifestação em Cartum, a 25 de novembro, um mês depois do golpe militar, Reuters

Pelo menos 48 pessoas morreram com ferimentos de bala num novo incidente de violência tribal, na província do Darfur Ocidental, confirmaram o governador da província e um sindicato de médicos. Esta é a segunda vez em três semanas que ocorre um episódio deste género.

“A violência começou com uma discussão” e foi aumentando de proporções, tendo morrido seis pessoas no sábado, descreve o governador Khamis Abdallah, citado pela AFP. “Depois, no domingo, mais de 40 pessoas foram mortas”, acrescenta. “Os confrontos de domingo duraram, sem interrupção, das cinco às 16 horas”, concluiu.

O sindicado pró-democracia Comité dos Médicos especifica que se tratou de um episódio que resultou em “48 mortes por arma de fogo” na região de Krink, a cerca de 80 quilómetros da capital do estado El Geneina.

Estiveram em confronto membros de tribos árabes e de tribos de etnias africanas. Os confrontos foram de tal intensidade que foram enviadas tropas do governo para o local.

Um outro confronto, a 17 de novembro, entre criadores de animais que se acusavam mutuamente do roubo de camelos resultou em 50 mortes e no incêndio de quase 600 habitações, refere a ONU. Estes confrontos obrigação à mudança de mais de 6.600 sudaneses, um terço dos quais para o Chade.

Os programas de ajuda humanitária têm acesso “restrito” ao Darfur Ocidental, apesar de a população precisar de “comida, abrigo, acesso a água e a serviços de saúde”, acrescenta a organização.

Novos protestos contra golpe militar

Milhares de sudaneses voltaram esta segunda-feira às ruas para protestar contra o golpe militar. Tal como noutros protestos, foram repelidos pela polícia, que usou gás lacrimogéneo quando a multidão se aproximada do palácio presidencial. 

A partir de diferentes bairros da capital, e de outras cidades do Sudão, gritavam "Não ao poder militar", "O povo escolheu os civis", "O exército pode-te trair, mas as ruas não te trairão jamais".

Desde o golpe militar de 25 de outubro, morreram 45 pessoas em todo o Sudão durante manifestações que foram reprimidas pelas forças de segurança. 

A 25 de outubro o general Abdel Fattah al-Burhane, chefe do exército, mandou prender a maior parte dos civis que integravam o governo do país. Cerca de um mês depois, acordou com o primeiro-ministro civil Abdallah Hamdok formar um novo governo composto por civis, mas isso ainda não aconteceu.

Os manifestantes criticam o acordo entre o general Burhane e o antigo primeiro-ministro, considerando-se defraudados por Hamdok. É "uma traição" e até um "retorno ao antigo regime militar islâmico" do ditador Omar al-Bashir, deposto em 2019 e sob o radar do Tribunal Penal Internacional que pretende julgá-lo por "genocídio" e crimes contra a humanidade durante a guerra no Darfur.
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