Sudão. Primeiro-ministro em local desconhecido após recusar apoio a golpe de Estado

por Andreia Martins - RTP
Mohamed Nureldin Abdallah - Reuters

Vários membros do Governo sudanês e líderes partidários foram detidos esta segunda-feira numa iniciativa de golpe de Estado. O primeiro-ministro, Abdalla Hamdok, foi levado para um "local desconhecido" depois de ter sido pressionado pelos militares a emitir uma declaração de apoio ao golpe de Estado, adiantou o executivo. A notícia das detenções levou vários manifestantes pró-democracia às ruas da capital Cartum e há relatos de confrontos entre civis e militares. Pelo menos 12 pessoas ficaram feridas.

As forças militares detiveram o primeiro-ministro do Sudão esta segunda-feira, numa aparente tentativa de golpe de Estado que vem abalar a frágil transição democrática no país. Em 2019, uma revolta popular depôs o ditador Omar Hassan al-Bashir, que liderou no país durante três décadas.

O acordo alcançado há dois anos após a revolução previa uma partilha de poder entre grupos políticos e militares, com o objetivo de preparar a transição no país para um ato eleitoral até 2023. No entanto, a ameaça de um golpe de Estado pairava no país sobretudo nas últimas semanas, com tensões crescentes entre o Governo civil e os militares. Houve mesmo uma tentativa de golpe de Estado a 21 de setembro por parte de apoiantes de al-Bashir. 

Às primeiras horas da manhã, o Governo sudanês confirmava que as forças militares tinham o primeiro-ministro Abdullah Hamdok detido em prisão domiciliária e que estavam "a pressioná-lo a fazer uma declaração de apoio ao golpe".

Cerca de uma hora depois, uma publicação do Ministério da Cultura e Informação do Sudão avançava que os militares tinham levado o primeiro-ministro para um "local desconhecido", depois de Abdullah Hamdok ter recusado conceder o apoio ao golpe de Estado em curso.

Para além do primeiro-ministro, foram ainda detidos vários membros do Conselho de Soberania e Transição, que mediava a partilha de poder entre civis e militares desde 2019.

A Al Jazeera avança que foram detidos também o ministro da Indústria, Ibrahim al-Sheikh, e o governador de Cartum, Ayman Khalid, segundo as próprias famílias dos dois políticos. Por sua vez, a Associated Press adianta que também foram detidos o ministro da Informação, Hamza Baloul, o assessor de imprensa do primeiro-ministro, Faisal Mohammed Saled, e o porta-voz do Conselho de Soberania e Transição, Mohammed al-Fiky Suliman.

De acordo os responsáveis do Governo civil, as forças militares invadiram esta manhã a sede da rádio e televisão sudanesa em Omdurman, tendo detido vários funcionários. Não houve ainda qualquer declaração por parte dos militares, com a televisão estatal sudanesa emite por esta altura canções patrióticas e imagens do rio Nilo.

A notícia das detenções desta segunda-feira levou vários manifestantes às ruas da capital, Cartum. Em protesto, vários sudaneses pró-democracia queimaram pneus e apelaram à resistência perante o golpe.

De acordo com a agência Reuters, que cita a televisão al-Arabiya, pelo menos 12 manifestantes ficaram feridos após confrontos com militares sudaneses, isto quando os protestos pró-democracia se tentavam aproximar das instalações do Ministério da Defesa na capital.

Com a comunicação e acesso à internet em más condições, os militares estão também a bloquear várias estradas e pontes, sobretudo no acesso a Cartum, cidade onde se situam as instituições governamentais. O aeroporto de Cartum foi encerrado e os voos internacionais estão suspensos, avança a al-Arabiya.

A Associação Profissional do Sudão, um dos principais grupos políticos pró-democracia que reúne médicos, advogados e engenheiros, apelou esta segunda-feira à "resistência e desobediência civil em massa" por parte da população contra o golpe.

"A revolução é uma revolução do povo. O poder e a riqueza pertencem ao povo, não a um golpe militar", referem numa publicação no Facebook.

De acordo com a Al-Hadath, o chefe máximo do Conselho de Soberania e Transição, Abdel Fattah al-Burhan, deverá falar ao país nas próximas horas sobre os acontecimentos desta segunda-feira.

Volker Perthes, representante especial do secretário-geral das Nações Unidas para o Sudão, afirmou esta segunda-feira que está "profundamente preocupado" com os relatos de tentativas de golpe de Estado.

"As detenções que foram reportadas, do primeiro-ministro, responsáveis de Governo e políticos, são inaceitáveis", acrescentou em comunicado divulgado no Twitter
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