Tabaqueiras revêm objectivos. África pode tornar-se no grande centro da indústria do tabaco

Tabaqueiras revêm objectivos. África pode tornar-se no grande centro da indústria do tabaco

Durante décadas, o consumo de tabaco aumentou muito a nível global. Mas, de acordo com relatórios recentes, teve uma ligeira queda entre 2019 e 2021. Em algumas regiões do mundo onde o tabagismo era menor, como em África, está entretanto a aumentar - uma preocupação para os especialistas, visto que a indústria pode agora virar-se para estes novos mercados.

Inês Moreira Santos - RTP /
Francis Mascarenhas - Reuters

As taxas de tabagismo caíram globalmente pela primeira vez, de acordo com um novo relatório sobre o uso de tabaco de um grupo de saúde pública e investigadores norte-americanos. No entanto, os números do relatório Tobacco Atlas – descritos como um potencial ponto de inflexão pelos autores – também mascaram o número crescente de fumadores em algumas partes do mundo, como o aumento do uso de tabaco entre jovens adolescentes em metade dos países em estudo.

Estima-se que haja atualmente 1,1 mil milhões de fumadores em todo o mundo e mais 200 milhões de pessoas que usam outros produtos de tabaco, segundo o relatório do Vital Strategies e da equipa de Tobacconomics da Universidade de Illinois, em Chicago – o que representa um decréscimo nas taxas de tabagismo de 22,6 por cento em 2007 para 19,6 por cento em 2019.

No entanto, o crescimento populacional em África, no leste do Mediterrâneo e nas regiões do Pacífico Ocidental traduz-se também num número crescente de fumadores nessas regiões, segundo o relatório. Além disso, a prevalência está a aumentar em pelo menos dez países do continente africano.
“Epidemia do tabaco”
As campanhas a nível global contra a chamada “epidemia do tabaco” baseiam-se, essencialmente, no aumento de impostos sobre o tabaco, o limite à publicidade destes produtos, campanhas de informação e a proibição de fumar em locais públicos. E, como revelam os dados, estas medidas têm contribuído para a diminuição das taxas de tabagismos de forma geral, exceto em África, onde o declínio foi mínimo e a prevalência nos adultos aumentou em dez países, entre 1990 e 2019.

“Os impostos sobre o tabaco são a medida de controlo do tabaco mais eficaz, mas a menos implementada. Um aumento de impostos suficientemente grande aumentará os preços dos produtos de tabaco – tornando-os menos acessíveis – desencorajando a iniciação, incentivando o abandono e reduzindo o consumo”, lê-se no relatório da Tobacco Atlas.

Grandes aumentos de impostos e preços condicionam e impedem, muitas vezes, “o início do tabagismo, promovem a cessação e reduzem o consumo geral de tabaco”. E, ao reduzir o uso do tabaco assim como as doenças provocadas pelo seu consumo, “impostos mais elevados podem aliviar a carga sobre os sistemas de saúde”, uma vez que estes impostos podem até gerar novas receitas fiscais que podem ser usadas para financiar os sistemas públicos de saúde.

E os dados mostram que o aumento dos impostos e do preço dos produtos do tabaco contribuíram de facto para a diminuição do seu consumo. Contudo, esta é a medida menos utilizada pelos governos.
Gerações mais novas entre os mais fumadores
Segundo os investigadores, o progresso para diminuir o tabagismo está ameaçado pelo aumento das taxas de consumo entre adolescentes de 13 a 15 anos em muitos países e “pelas táticas da indústria do tabaco, como investir em países mais pobres com ambientes regulatórios fracos, promovendo novos produtos em mercados anteriormente inexplorados”.

“A indústria ainda está a atacar as economias emergentes, o que causará danos numa geração ou mais”, escreveu no relatório Jeffrey Drope, professor de saúde pública da Universidade de Illinois e autor do estudo.

Uma vez que a implementação de medidas é desigual, "os países mais ricos colhem os benefícios, enquanto a indústria continua a atacar as economias emergentes para atrair novas gerações aos seus produtos mortais".

O Tobacco Atlas destaca mesmo que "o uso de tabaco pelos jovens aumentou em 63 dos 135 países em estudo ​​e agora mais de 50 milhões de jovens entre os 13 e os 15 anos fumam cigarros ou usam produtos de tabaco".

"O controlo do tabaco deve ser uma prioridade", defendem os investigadores. "Os impostos sobre o tabaco reduzem as taxas de tabagismo, impedem os jovens de fumar e geram receita que pode ser usada para outras intervenções de saúde".

"Com fortes controles do tabaco, podemos progredir em direção a uma saúde melhor e criar um mundo onde todos sejam protegidos por sistemas de saúde pública equitativos e eficazes".
África como o cinzeiro do mundo

Embora, pela primeira vez, a prevalência global de tabagismo tenha diminuído globalmente, ainda há cerca de 1,1 mil milhões de fumadores no mundo, o que continua a ser um dos principais fatores de morte prematura e de doenças, além de uma preocupação no desenvolvimento contínuo das sociedades.

Anualmente, são consumidos quase cinco triliões de cigarros, o que contribui para mais de oito milhões de mortes e quase dois triliões em custos de saúde para os governos.

E, estando a perder consumidores nos países mais ricos, a indústria do tabaco investe nos mercados emergentes e países pobres.

"A indústria do tabaco é uma relíquia cujo crescimento ainda depende de conquistar crianças num dos produtos de consumo mais viciantes e prejudiciais já inventados", explicou Jeffrey Drope.

De acordo com as investigações, em vários desses países, incluindo Haiti e Mauritânia, o consumo de tabaco entre raparigas "é agora mais comum do que entre mulheres adultas", o que significa que o consumo de tabaco historicamente menor entre as mulheres em todo o mundo pode não se verificar num futuro próximo.

“Os líderes globais devem acelerar os esforços de controlo do tabaco para proteger a saúde da nossa geração mais jovem”, considerou Kelly Henning, que lidera o programa de Saúde Pública da Bloomberg Philanthropies e participou neste estudo. “O uso do tabaco é um importante fator de risco para as principais causas de morte do mundo, incluindo cancro, doenças cardíacas, doenças pulmonares e diabetes. Quanto mais rápido os países puderem regular o tabaco e impedir que os jovens comecem, mais vidas podem ser salvas".

À medida que os lucros desta indústria vão diminuindo nos países do Ocidente, o setor concentra-se nas comunidades africanas, e especialmente entre os jovens. Um dos argumentos dos produtores é que nestes países os impostos são menores, ignorando o facto de estas populações muitas vezes terem menos posses económicas ou acesso a cuidados de saúde de qualidade.

Outro dos argumentos para investir nos mercados africanos é o facto de, em grande parte, o tabaco ser cultivado em países de África e ser uma industria fundamental para a economia local.

O maior problema, relata o Tobacco Atlas, é que com as populações africanas "em rápido crescimento e o aumento da expectativa de vida", o aumento no número de fumadores combinado com mais anos vividos com doenças associadas ao tabaco "provavelmente fará com que África sofra mais com futuras mortes e doenças relacionadas com tabagismo".
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