Tigray. Dois milhões de pessoas com necessidade urgente de alimentos

por Inês Geraldo - RTP
Região do Tigray está a ser devastada por um conflito armado Reuters

As Nações Unidas revelaram que mais de dois milhões de pessoas na região do Tigray estão numa situação de fome severa. Com um conflito armado a devastar partes da Etiópia, a agência de emergência alimentar da ONU pediu acesso a um corredor humanitário para levar comida às populações em necessidade.

Na primeira avaliação abrangente realizada pelo Programa Alimentar Mundial (WFP, na sigla inglesa) na região de Tigray, desde o princípio da guerra, mostra que pelo menos 37 por cento da população está em insegurança alimentar severa, o que quer dizer que muitas famílias não comeram pelo menos uma refeição durante um ou mais dias.Várias famílias têm feito esforços exaustivos para conseguir comer. Pelo menos 13 por cento das crianças de Tigray, com menos de cinco anos, e dois terços de mulheres grávidas estão em situação de malnutrição.

“Antes do conflito comíamos três vezes por dia mas agora comer uma vez só é muito difícil. Pedi comida à minha família mas também eles ficaram sem ela. Dormimos e esperamos não morrer entretanto”, relata Kiros, uma mãe solteira com seis filhos que vive nos arredores da capital da região, Mekelle, em declarações aos investigadores que levaram a cabo a avaliação.

Uma avaliação feita através de entrevistas realizadas em pelo menos 980 famílias, em lugares acessíveis na região de Tigray, entre meados de novembro e dezembro. Devido ao conflito armado, os investigadores não conseguiram ter acesso a muitas zonas, que não dispõem de ajuda humanitária.

Desde o fim da avaliação, a agência da ONU acredita que a situação em termos de fome se tornou ainda mais complicada por não haver ajuda humanitária para auxiliar as populações nas zonas mais afetadas pela guerra.

“O que esta avaliação confirma é que a população do norte da Etiópia precisa de assistência humanitária e necessitam dela agora. O Programa Alimentar Mundial está a fazer tudo o que consegue para levar comida e medicamentos nas zonas de conflito mas, se as hostilidades continuarem, temos de convencer todas as partes a fazerem um acordo para haver um corredor humanitário para ajudar muitos milhões que estão em situação de fome”, declarou Michael Dunford, diretor regional do leste africano.

Para além de Tigray, as regiões de Afar e Amhara também estão a ser severamente afetadas pelo conflito armado e a ONU estima que pelo menos nove milhões de pessoas tenham necessidades alimentares, um número nunca antes visto.

Nos últimos cinco meses, a fome mais do que duplicou na região de Amhara. Em Afar, onde há combates incessantes entre a Frente de Libertação do Povo de Tigray e forças leais ao primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, estima-se que pelo menos 28 por cento das crianças com menos de cinco anos sofram de malnutrição.
Conflito perdura desde novembro

O conflito armado começou em novembro de 2020 e, desde essa altura, tem sido difícil, tanto à ONU como a outras organizações humanitárias, chegar a pontos críticos, devido à falta de acessos e de telecomunicações.

A ONU acusou o Governo etíope de bloquear a chegada de comida às populações com necessidades, algo que o Executivo negou. Na última quarta-feira, a Cruz Vermelha anunciou que conseguiu fazer uma primeira entrega de medicamentos e produtos médicos a Mekelle, desde setembro último.

Os medicamentos são, no essencial, insulina para durar pelo menos um mês, depois de médicos na região terem alertado para a falta do medicamento.

Tedros Ghebreyesus, diretor da Organização Mundial da Saúde, fez recentemente acusações ao Governo de Abiy de impor “um inferno” em Tigray, negando o acesso às populações a entregas de produtos médicos.
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