Trump versus Biden. O que esperar do debate desta noite?

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Jonathan Ernst - Reuters

O palco já está pronto para receber o primeiro debate entre o Presidente norte-americano, Donald Trump, e o candidato democrata à sua sucessão, Joe Biden. Após a revelação de uma fuga aos impostos por parte de Trump, não restam dúvidas de que este será um assunto quente no duelo desta noite.

O jornal The New York Times (NYT) começou a publicar no domingo uma investigação sobre as declarações fiscais do Presidente norte-americano, revelando que Donald Trump esteve dez em 15 anos sem pagar qualquer imposto, tendo pago apenas 750 dólares (645 euros) em impostos federais em 2016 e 2017.

A data escolhida pelo jornal norte-americano para a divulgação desta bomba tributária não foi uma decisão inocente, dado que veio agitar a campanha presidencial quando sobram cinco semanas até às eleições presidenciais e decorre o primeiro debate entre os dois candidatos.

Esta noite, Donald Trump, 45.º Presidente dos Estados Unidos, e o candidato presidencial democrata Joe Biden serão colocados frente a frente num palco na Universidade Case Western Reserve, em Cleveland, no Estado do Ohio. Entre os temas escolhidos pelo moderador do debate, Chris Wallace, estará o Supremo Tribunal, nomeadamente a polémica escolha de Trump para a substituição da icónica juíza Ruth Ginsburg, a evolução da pandemia da covid-19 no país, a economia norte-americana, a violência e racismo e a integridade da eleição.

Porém, o tópico mais aguardado passou agora a ser a folha de impostos de Donald Trump. Joe Biden já se apoderou deste relatório e está a usá-lo como uma arma para rebaixar o seu opositor, numa altura em que o candidato democrata mantém uma estável vantagem de oito a dez pontos percentuais na maioria das sondagens.

Trump, por sua vez, tem estado cada vez mais envolvido em polémicas, que vão desde a resposta à pandemia da covid-19, depois de o livro de Bob Woodward ter exposto um líder consciente da ameaça do novo coronavírus no primeiro mês da pandemia, mas que assumiu posições relaxadas num país com uma contabilidade negra de mais de 200 mil mortes, à ameaça do próprio Presidente de não aceitar os resultados das eleições na eventualidade de uma derrota para Joe Biden.

Num vídeo publicado na conta pessoal do Twitter, Biden salienta que o Presidente norte-americano paga menos impostos do que os cidadãos norte-americanos, como professores, bombeiros ou enfermeiros.


Biden criou ainda um “Trump tax calculator” que determina quanto cada pessoa pagou em impostos em 2017. “Paga mais ou menos impostos do que o nosso presidente “multimilionário”?”, questiona a página. “Furioso? Nós também”, responde a página depois de ser calculado o valor de impostos que cada cidadão paga a mais do que o presidente dos EUA. “Junte-se à nossa campanha para eleger Joe Biden e fazer com que ‘bilionários’ como Donald Trump paguem a sua parte justa”, apela a página.

Vários democratas estão também a usar o relatório do New York Times para ampliar as críticas de Biden. Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado, deixou uma mensagem no Twitter a desafiar os americanos: “Quem pagou mais impostos federais do que o Presidente Trump ponha a mão no ar”.
Trump poderá, realmente, sair prejudicado?
O montante irrisório da folha de impostos contraria a ideia de um homem de negócios bem-sucedido que fez da sua fortuna um argumento de campanha na corrida de 2016, já que a razão apresentada pelo seu departamento de finanças para evitar os impostos terá sido, segundo o NYT, o montante de perdas das suas empresa muito superior aos ganhos. “Em última análise, o Sr. Trump tem sido mais bem-sucedido a interpretar o papel de magnata dos negócios do que realmente a ser um na vida real”, escreve o jornal norte-americano.

No entanto, a resposta para a questão de como estas revelações podem realmente prejudicar a campanha presidencial permanece em aberto. A experiência diz que estes debates televisivos raramente alteram o curso de uma eleição nos EUA, atuando, mais rapidamente, como um catalisador para opiniões já existentes.

Houve uma preocupação, ainda que silenciosa, do lado dos assessores do presidente dos EUA, depois de analisarem os relatórios diários que mostram uma queda no apoio a Donald Trump após a divulgação dos seus impostos. Mas muitos dos seus conselheiros argumentam que o relatório do NYT não é suficiente para prejudicar a sua imagem à vista dos seus apoiantes de longa data.

“Sabemos que a maioria dos norte-americanos há muito tempo que tomou uma decisão sobre o presidente Trump, a favor ou contra ele, por isso, as revelações sobre os impostos não deverão afetar substancialmente as eleições”, disse Whit Ayres, especialista republicano em sondagens. “Dito isto, estas revelações podem desempenhar um papel ao dar a Joe Biden alguma munição para o debate”, acrescenta Ayres, citado pelo New York Times. Os consultores de Donald Trump admitem, porém, que o presidente terá de ter preparada uma resposta efetiva para o debate.

John Kasich, o ex-governador republicano de Ohio que apoiou a candidatura de Biden, considera que as revelações poderão afetar os eleitores operários que ainda não decidiram o seu voto. “Essas pessoas estão a lutar para ganhar a vida e vão descobrir que este incrível magnata pagou 750 dólares? Eu não quero saber quais são as suas desculpas”, disse Kasich à CNN. “Não vai prejudicar totalmente a opinião daquelas pessoas que eram totalmente a favor dele. Eles vão continuar a votar nele. Mas é sobre aquelas pessoas que estão no limbo”, acrescenta.

O Presidente dos EUA já respondeu às acusações, com argumentos contraditórios que vão desde assegurar que “são notícias falsas”, ao mesmo tempo que diz que as informações foram obtidas “ilegalmente”. "Eu pago muito. A história é totalmente falsa", disse Trump. “Não me tratam bem, tratam-me muito mal. Há pessoas no IRS que me tratam mesmo muito mal, mas estão a ser auditados”, disse ainda o presidente.

“A Fake News Media, assim como nas eleições de 2016, está a trazer à tona os meus impostos e outras coisas absurdas com informações obtidas ilegalmente e apenas com más intenções”, escreveu Trump na sua rede social Twitter. "Eu paguei muitos milhões de dólares em impostos, mas tinha direito, como toda agente, à amortização e créditos fiscais”, acrescentou.

Depois, numa tentativa de desvio das atenções das suas contas, Donald Trump começou a atacar o seu rival no Twitter: “Joe Biden acaba de anunciar que não vai concordar com um teste de drogas. Eu pergunto-me porquê”.

A vice-diretora da campanha de Biden, Kate Bedingfield, respondeu à acusação de Trump: “O vice-presidente Biden pretende dar respostas ao debate em palavras. Se o presidente pensa que o seu melhor argumento é baseado na urina, ele pode ficar com ele. Não esperaríamos nada mais de Donald Trump, que desperdiçou a oportunidade de proteger a vida de 200 mil norte-americanos quando não fez nenhum plano para travar a Covid-19”.
Ataques pessoais: a estratégia de eleição de Trump
Atrás de Biden nas sondagens, Trump está esperançoso de que o debate desta terça-feira possa ser a sua boia salva-vidas de última hora para os seus esforços de reeleição. Embora os seus assessores reconheçam que restam poucas opiniões a mudar, dado que os norte-americanos começaram a votar mais cedo, têm esperança de que um forte desemprenho neste debate possa motivar os apoiantes de Trump e, por sua vez, diminuir o entusiamo dos democratas.

Para o frente a frente desta noite, não se espera nada menos do que a estratégia que Trump já mostrou ser a sua preferida: ataques pessoais. O próprio Presidente norte-americano não escondeu o seu desejo de provocar Biden, ao lançar ataques pessoais ao próprio candidato e à sua família, incluindo o seu filho, Hunter Biden. Uma intensa inquisição ao passado do democrata também é esperada, com questões que irão desde os antigos incidentes de plágio às alegações mais recentes de má conduta sexual. Ataques à saúde mental de Biden estão também entre os temas prediletos da ala conspiratória republicana. Trump várias vezes descreveu Biden como um candidato anémico, sem capacidade mental para desempenhar a dura tarefa de ser Presidente dos Estados Unidos.

Trump tem, por isso, baixado cada vez mais a fasquia para Biden e os críticos veem isso como uma mais-valia para Biden, que vê a sua tarefa de transmitir uma boa imagem mais facilitada.

Tal como Hillary Clinton e os seus principais opositores podem asseverar, Trump tem o poder de ser uma presença desestabilizadora e imprevisível no palco, o que poderá vir a atrapalhar Biden.

O caminho a seguir pelo candidato democrata será, por isso, garantir um desempenho seguro e estável, de forma a convencer um número suficiente de norte-americanos de que consegue liderar a Casa Branca. Biden precisa, por isso, de dispersar as preocupações relativamente à sua idade – dado que será o presidente mais velho a tomar posse, com 78 anos em janeiro – e, por sua vez, vivacidade mental, assim como evitar os lapsos verbais que o têm atormentado ao longo da sua carreira política.

O frente a frente desta terça-feira, que será transmitido em Portugal durante a madrugada de quarta-feira, é o primeiro de três debates. Ao todo, Biden e Trump estarão em disputa por 90 minutos.

O confronto seguinte está agendado para 15 de outubro, em Miami, Florida, e o final para 22 de outubro, em Nashville, Tennessee.
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