Zimbabué. Partido no poder domina Assembleia Nacional

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Apoiantes do partido da oposição em protesto foram dispersados esta quarta-feira pela polícia e militares nas ruas de Harare
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Os resultados oficiais revelados esta quarta-feira indicam que a União Nacional Africana do Zimbabué-Frente Patriótica (ZANU-PF, na sigla em inglês) alcançou dois terços dos deputados na Assembleia Nacional, o que permitirá ao partido há 40 anos no poder fazer alterações ao documento constitucional. Também esta quarta-feira os observadores da União Europeia que estiveram presentes nas eleições gerais pela primeira vez desde 2002 denunciaram a “desigualdade de oportunidades” entre os candidatos à Presidência do país e situações de “intimidação” dos eleitores. Os protestos da oposição já resultaram em confrontos com a polícia e levaram os primeiros militares às ruas.

Segundo os últimos resultados oficiais, divulgados ao início da tarde pela Comissão Eleitoral, a ZANU-PF obteve mais de dois terços do total de deputados na Assembleia Nacional, somando 144 lugares, num total de 210 deputados. 

Já o principal partido de oposição, Movimento para a Mudança Democrática (MDC, na sigla em inglês), conta com 61 deputados. Nesta altura falta ainda apurar a cor partidária de três lugares no Parlamento.  

O partido no poder, liderado por Emmerson Mnangagwa, venceu nos círculos eleitorais rurais, enquanto o candidato do MDC, Nelson Chamisa, foi predominante nos centros urbanos, refere a agência Reuters.

A eleição realizada na segunda-feira foi a primeira sem a influência direta de Robert Mugabe ao fim de várias décadas. O antigo líder do ZANU-PF, agora com 94 anos, foi Chefe de Estado entre 1987 e 2017, tendo antes ocupado o cargo de primeiro-ministro da antiga Rodésia durante sete anos.   

No total, Mugabe liderou o país africano por praticamente quatro décadas desde a independência da antiga colónia britânica, em 1980. Em novembro do ano passado, foi obrigado a demitir-se na sequência de um golpe de Estado liderado pelos militares e pelo antigo aliado, Emmerson Mnangagwa, que é desde então Presidente interino daquele país.

Quanto ao resultado que vai ditar a eleição do próximo Chefe de Estado do Zimbabué, a Comissão Eleitoral ainda não apresentou quaisquer resultados. Esta quarta-feira, o órgão veio prometer que os resultados vão ser finalmente anunciados amanhã e que o atraso se deve a alegações de disputas sobre registos que não foram colocados fora das assembleias de voto.

Segundo o órgão responsável por monitorizar as eleições, uma em cada cinco assembleias de voto – ou seja, mais de duas mil assembleias de voto – não colocaram a contagem dos votos à porta desses centros, como é exigido pela lei. 
UE questiona eleição, Estados Unidos aguardam

Ao mesmo tempo que são conhecidos os primeiros resultados parlamentares da eleição realizada ao início da semana, os observadores da União Europeia - presentes num escrutínio no Zimbabué pela primeira vez desde 2002 – já vieram denunciar vários problemas durante o processo, desde logo o atraso na divulgação dos resultados da eleição presidencial.  

Elmar Brok, que lidera a representação da União Europeia a monitorizar estas eleições, acusou a Comissão Eleitoral do Zimbabué de parcialidade e colocar dúvidas sobre a demora na divulgação dos resultados.  

“Quanto mais tempo passar sem que conheçamos o resultado das eleições presidências, menos credibilidade esse resultado vai ter” notou o responsável, apelando às autoridades para que revelem os dados “o mais rapidamente possível”.  

“Os resultados das eleições presidenciais foram os primeiros a serem contados nas assembleias de voto, por isso continuo sem compreender porque é que vão ser os últimos a serem publicados”, acrescentou. Inicialmente, a divulgação destes resultados estava prevista para esta quarta-feira durante a manhã, mas esse anúncio acabou por ser adiado.  

Em comunicado, a União Europeia reconhece que o clima político no país “melhorou” e que a votação decorreu de forma pacífica, mas considera que houve “desigualdade entre os candidatos e intimidação de eleitores”, referindo ainda que a “falta de confiança no processo eleitoral minou o ambiente” que precedeu as eleições.

O documento fala ainda de “ligeiras intimidações, pressão e restrições” impostas sobre os eleitores no sentido de incentivar ao voto no “partido do poder”.   

“Os direitos políticos foram amplamente respeitados, mas registamos preocupações com o clima eleitoral e o uso indevido dos media”, disse Elmar Brok em conferência de imprensa a partir de Harare.

Do lado dos Estados Unidos, os observadores presentes naquele país são, pelo menos para já, menos conclusivos. A congressita Karen Bass referiu esta quarta-feira que a transparência destas eleições terá impacto na política norte-americana para o Zimbabué.  

O grupo de observadores norte-americanos apelou à divulgação “rápida e transparente” dos resultados da eleição presidencial.
Protestos nas ruas 

Se as eleições de segunda-feira decorreram de forma maioritariamente pacífica, os ânimos estão a aquecer nas ruas agora que a Comissão Eleitoral se alonga na divulgação dos resultados da eleição presidencial.  

Ao início da tarde, vários apoiantes de Nelson Chamisa, do MDC, bloquearam várias ruas na capital, Harare, e envolveram-se em confrontos com a polícia. Os manifestantes atiraram pedras contra as autoridades, que responderam com gás lacrimogéneo, conta a agência Reuters.  

Também segundo testemunhas da agência noticiosa, foram destacados soldados para as ruas de Harare, com vários militares e veículos blindados a dispersar apoiantes do partido de oposição. Outras testemunhas referem ter ouvido disparos após os confrontos e um helicóptero a sobrevoar a cidade. Pelo menos uma pessoa morreu durante os protestos, segundo testemunhou um fotógrafo da agência Reuters.

No Twitter, Nelson Chamisa assume-se como vencedor declarado das eleições. “Estou feliz pelo apoio que me deram como candidato presidencial. Ganhámos o voto popular. O voto ditou uma mudança total nesta eleição. Juntos vencemos esta eleição juntos. Não há manipulação de resultados que altere a vossa vontade”, escreveu na rede social.  


Quem também escolheu o Twitter para se expressar sobre os recentes acontecimentos foi o adversário, Emmerson Mnangagwa. 


"Neste momento decisivo, peço a todos que desistam de declarações provocatórias. Todos devemos demonstrar paciência e maturidade, agindo de uma forma que coloque as pessoas e a sua segurança em primeiro lugar”, sublinhou.  

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