Alexandre Brito

Cambridge Analytica, Facebook, redes, dados pessoais... descobriram só agora?

O que mais me impressiona sobre as notícias relacionadas com a Cambridge Analytica e o Facebook não é o facto de se terem apropriado de milhões de dados pessoais. O que impressiona, e dá até vontade de rir, de tão lamentável, é que os Governos e União Europeia parece que só agora acordaram para o assunto? Mas o que é que andaram a fazer?

Estão todos ofendidos. Prometem investigar. Querem respostas. Pretendem até, se possível, falar com o próprio Zuckerberg.

De repente acordaram. De repente perceberam que as redes sociais, e outros, guardam os nossos dados pessoais.

De repente perceberam que até os usam para vender publicidade.

De repente perceberam que essa informação serve um algoritmo que nos dá aquilo que queremos. Sim, a dose certa para alimentar o vício.

De repente perceberam como é que Donald Trump foi eleito.

De repente perceberam por que é o Brexit aconteceu.

De repente perceberam que milhões de pessoas foram manipuladas com "Fake News", ou factos alternativos, como preferirem.

De repente perceberam que há duas empresas - Google e Facebook - que têm um conhecimento e poder assustador para manipular milhões de pessoas. Se assim quiserem, ou forem enganadas nesse sentido. 

E de repente perceberam que elas navegam sem balizas. Sem fronteiras. Sem controlo.

A verdade é que tudo isto já se sabe há muito tempo. E o que foi feito? Pouco ou nada. 

É ridículo.

No caso das "Fake News" relacionadas com as presidenciais norte-americanas, Mark Zuckerberg demorou cerca de um ano a admitir que algo tinha acontecido. E mudou alguma coisa? Muito pouco.

Neste caso mais recente, a reação do dono do Facebook volta a ser reveladora do sentimento de impunidade que tem. “Cometemos erros, há mais para ser feito e temos de fazer isso”. E pouco depois: “Sei que vai demorar mais tempo do que desejávamos para resolver todos estes assuntos, mas prometo que vamos trabalhar e construir um melhor serviço no longo termo”.

Como? O que aconteceu, e provavelmente continua a acontecer, é o maior golpe na democracia com um impacto global sem precedentes. E o que diz o dono da plataforma onde isso aconteceu???

É pá, isto é muito chato, mas prometo que vamos trabalhar para que não aconteça tanto. 

Volto a dizer, nada disto é novo. Ganhou novos contornos, é verdade, mas só não via o que estava a acontecer quem não queria.

Eu próprio escrevi aqui, em abril de 2017, quase há um ano, sobre esta empresa, Cambridge Analytica, que com 68 likes no Facebook conseguia prever a sua orientação sexual. E alertei para as ligações ao Brexit.

Em novembro do mesmo ano lancei um outro artigo de opinião com o título "O que a Google e o Facebook sabem de si? Quer mesmo saber?". E sabem tanto.

Talvez este momento sirva como sinal de acordar para governos e instituições como a União Europeia. Senão, quando derem pelo problema... pode já ser tarde. 

A informação mais vista

+ Em Foco

Várias organizações de defesa dos Direitos Humanos exigem uma investigação rigorosa.

A morte do advogado foi conhecida há dois anos, no Natal, mas existem vários indícios de que a possa ter simulado.

Toda a informação sobre a União Europeia é agora agregada em conteúdos de serviço público. Notícias para acompanhar diariamente na página RTP Europa.

    Em cada uma destas reportagens ficaremos a conhecer as histórias de pessoas ou de projectos que, por alguma razão, inspiram ou surpreendem.