António Esteves

A culpa? É nossa!

Não procurem mais. A culpa é nossa. Dos portugueses. Principalmente das classes média e baixa. Fomos nós, todos em conjunto, irmanados pela desgraça, que conseguimos levantar este país e levá-lo aos números actuais, que não sendo motivo para grandes euforias estão pelo menos a dar o sinal certo. Para cima. Upa, upa!

O país cresce. Pouco mas cresce. O desemprego baixa. É verdade que os empregos são cada vez piores e mais mal pagos, mas há cada vez menos gente no desemprego. E só quem nunca passou por isto é que pode não dar importância a este indicador, o da criação de empregos que tira as pessoas do desespero e da falta de oportunidades. Que as obriga a partir para destinos longínquos com empregos incertos. 


As contas públicas parecem equilibrar-se. De forma ainda muito pouco sustentável, mas parece que a coisa está agora menos periclitante.

A culpa é nossa, dos portugueses. Dos que tiveram os ordenados cortados e foram obrigados a fazer gestão financeira e a cortar nas despesas. Uma verdadeira reforma lá em casa que o Estado nunca fez no país. Quase não se cortaram privilégios nem se cercearam abusos. Abusaram de nós, do nosso esforço e da nossa paciência. Há muitos anos que é assim.

Nas casas espalhadas por esse país cortou-se nos luxos e nas evasões de fim de semana, cortou-se nas despesas com as aulas de música e com as explicações, nas despesas com roupa e alimentação, nas idas ao dentista e à farmácia. Houve gente a mais a viver em casas minúsculas. Filhos que voltaram para casa dos pais e pais que só encontraram conforto em casa dos filhos. Empilhados e sem confortos os portugueses tudo foram suportando, com queixume mas quase sem azedume. Anos a fio.

A culpa foi dos empresários deste país. Daqueles que não mandaram a toalha ao chão. Que continuaram a investir contra ventos e marés. Muitos dispensaram trabalhadores mas não fecharam. Procuraram outros destinos, outros mercados, outras oportunidades. Preocuparam-se e esforçaram-se, sabe Deus com que estado de ânimo e com que custos para a saúde e para os nervos. 

Enquanto alguns recorriam aos expedientes do costume, não pagando a quem compram ou falindo para abrir outra empresa ao lado, sempre bem aprumados e com carros topo de gama que davam para pagar muitas dívidas, estes empresários corajosos de quem prefiro falar continuaram com os olhos postos no futuro esmagados pelo peso das responsabilidades do presente. Sem tempo para as famílias e para o lazer. Agarraram-se à esperança e às suas competências.
Fomos nós, todos nós, os pobres, remediados e menos pobres, e os mais ricos também em muitos casos, os culpados do país estar agora com uma linha de esperança no horizonte apesar dos sinais evidentes de uma tempestade sempre à espreita.

Não procurem mais. A culpa é nossa. Dos portugueses. Principalmente das classes média e baixa. Fomos nós, todos em conjunto, irmanados pela desgraça, que conseguimos levantar este país. 

Preocupem-se antes em procurar todos os que são culpados pela nossa desgraça que dura há muitos anos, e se possível acelerem os processos judiciais, as investigações e as condenações. 

Não andem à procura dos culpados pelo sucesso, ainda que tímido, do país, que esses sabemos quem são. São os coitados dos portugueses honestos. Procurem antes os que andam a dar cabo disto tudo há muitos anos. Sempre os mesmos, numa roda viva de cargos, benesses e regalias. Algumas delas imorais. 

Não procurem louros, procurem soluções para o futuro porque o passado foi muito duro para todos nós, os portugueses que não desistem. Mesmo nos piores dias. Os que insistem em levar a vida da forma mais correcta, sem truques nem esquemas.

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