António Esteves

Isto não é o Sporting!

Não concordo com os que dizem que Bruno de Carvalho tem muitos defeitos mas que fez muito pelo Sporting. Porque na verdade, quando sair, vai deixar o clube pior do que o encontrou, admitindo nós que ainda vai restar seja o que for. De que vale a ideia de que Bruno de Carvalho conseguiu equilibrar as contas de um clube que estava asfixiado financeiramente, o que de facto aconteceu, se no dia de hoje a SAD está à beira de uma falência que parece inevitável muito em breve?

Os mandatos avaliam-se da mesma forma que as maratonas, no fim e depois de toda a prova percorrida. Eu posso partir para uma maratona, entrar a mata cavalos, ir por aí fora, e liderar os primeiros 20 quilómetros, contrariando todas as opiniões que me dizem para abrandar e gerir o esforço para terminar pelo menos numa boa posição. Ao quilómetro 21 rebento fisicamente e abandono. Sou um bom atleta? Não me parece. Com os dirigentes é o mesmo.

No caso de Bruno de Carvalho há poucos méritos que sejam do próprio. No caso das contas, por exemplo, havia já um trabalho feito previamente que foi aproveitado e que agora foi desbaratado. O clube está a perder valor à medida que as horas passam. Há um risco grande rescisões em massa, de forma amigável, perdendo-se contratos de venda de jogadores e a possibilidade de adquirir novos activos. Há quedas abruptas na bolsa, críticas de investidores e abandonos de patrocinadores. Há suspeitas de corrupção no andebol e eventualmente no futebol. Mesmo que não soubesse e não esteja envolvido nestes casos, Bruno de Carvalho escolheu as pessoas que alegadamente estão envolvidas nestes esquemas. É o líder máximo, é o responsável. Simples.

Construiu o pavilhão João Rocha, sim, mas com o apoio e o empenho dos sócios, e mais uma vez falamos de um projecto que já estava previsto mas que na verdade nunca mais saía do papel. Precisava do tal empurrão que o presidente leonino soube dar.

Nas modalidades amadoras, excluindo as suspeitas no andebol que terão contribuído para um melhor desempenho desportivo, é verdade que as equipas ficaram mais competitivas, mas também é verdade que Bruno de Carvalho beneficiou de um excelente trabalho feito pela equipa liderada por Vicente de Moura que acabou por bater com a porta no ano passado, e antes por Mário Patrício, o actual presidente da Junta de Freguesia do Parque das Nações e putativo candidato à presidência. Bruno de Carvalho fez coisas boas? Fez. Estranho seria que não tenha alcançado alguns feitos em 5 anos, mas sempre maltratou publicamente alguns dos principais responsáveis por esses feitos - que só se conseguem em equipa - e alguns acabaram mesmo por abandonar o barco.

Em relação às claques, agora tão diabolizadas, há um ponto importante. As claques não são criminosas, há é muitos criminosos que se infiltram e usam as claques para negócios menos claros e que em seu nome cometem atitudes ignóbeis e injustificáveis como é o caso do ataque à Academia de Alcochete. Vivi na pele, em família, alguns dos efeitos nefastos desse ataque. O meu filho Lourenço tem quase 9 anos, tem uma paixão intensa pelo Sporting e começou a ir ao estádio aos 3 anos pela mão do avô. Não consegue escolher entre Ronaldo e Rui Patrício como ídolo preferido, e tem uma grande adoração por Bruno Fernandes e por Bas Dost. No dia dos acontecimentos, emocionado pelo que viu na televisão - fiz questão que visse -, com a voz embargada mas com vergonha de chorar, perguntou-me: "como é que isto é possível, pai?" Não lhe consegui responder. Ele teve dificuldades em dormir. Mas os efeitos nefastos de meia centena de energúmenos que atacam bons profissionais e pessoas de família não faz das claques organizações criminosas. Os clubes têm é de encontrar soluções para um relacionamento saudável, não permitindo infiltrações criminosas, e muito menos usá-las para proteger jogadores ou dirigentes, e muito menos intimidá-los.

Vitor Ferreira, em tempos vice-presidente de Bruno de Carvalho, diz que o presidente leonino quis pagar às claques em dinheiro. Em nome de quê? Investigue-se!

Mas as claques estão sempre lá, seja onde for, faça chuva ou faça sol, a puxarem pelas equipas até ao último minuto e motivando muitas vezes a equipa até nas derrotas. Não se diabolizem as claques, controle-se o fenómeno para que seja saudável e um orgulho para os clubes. Não havendo condições devem ser ilegalizadas.

Falando do Sporting, termino de forma igual a um artigo que escrevi recentemente: " A actual situação é culpa do próprio Bruno de Carvalho. Legitimado e reforçado pelos resultados eleitorais, e pela última Assembleia-geral, nada faria prever que o presidente do Sporting criasse este vendaval sem precedentes no futebol profissional do clube, colocando em causa toda uma época futebolística que ainda não terminou.

O Sporting precisa de um líder e não de um caudilho. De alguém que pense primeiro nos interesses e objectivos do clube e só depois nas suas ambições pessoais. De alguém que saiba formar uma equipa forte de gestão, que saiba delegar poderes e definir metas e objectivos para cada um dos elementos da direcção. De uma pessoa com um projecto, uma ideia de futuro e uma noção clara da importância de representar um clube com os pergaminhos dos leões. Que seja respeitado e que obrigue a que se respeite o clube, sem recorrer ao insulto, à difamação ou à intriga. De alguém que saiba definir prioridades imediatas e estabelecer metas de médio e longo prazo, assentes numa estrutura estável, profissional e competente, sem ansiedades estéreis." Isto é válido para todos os clubes, a diferença é que no Sporting está uma pessoa que parece disposta a tudo para ficar. Amanhã pode ser tarde demais para um clube centenários com uma história que nada tem a ver com os tempos mais recentes. Os adeptos de outros clubes não se riam, porque não me parece que nos próximos tempos haja motivos para isso. A palavra agora é da Justiça!

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