António Esteves

Parem de morrer, por favor

Com o actor João Ricardo estive apenas uma vez, no circo, e pareceu-me o tipo simples e bem disposto que todos os meus amigos que o conheciam descreviam. Com o Pedro Rolo Duarte cruzava-me regularmente, mais recentemente aqui na RTP e durante vários anos por aí, mais de noite que de dia. Não sendo amigos íntimos sempre me dispensou a simpatia afável das pessoas que estão de bem consigo próprias, com aquele sorriso largo e envolvente que nos acariciava nos dias mais agrestes, com aquele timbre suave mas firme na voz, com aquele olhar tranquilo e curioso de um príncipe da palavra que sempre nos acompanhou nos últimos anos, na rádio, na televisão, nos jornais e nas revistas, e que tínhamos prazer em acompanhar pela extraordinária capacidade de nos transmitir sabedoria com simplicidade.

Ambos tinham apenas 53 anos e uma imensa vida pela frente. Tinham família, sonhos e projectos. Tinham amigos e gente que lhes encontrava qualidades raras na maior parte dos seres humanos.

A morte precoce destes dois seres extraordinários e que tinham ainda tanto para dar veio trazer-me à memória um artigo que escrevi em fevereiro do ano passado, que intitulei "Morrem-me pessoas todos os dias". Um artigo que agora reproduzo abaixo, porque traduz a minha forma de lidar com a morte, e que já tinha revisto há poucos dias quando a minha filha Maria, com 6 anos, depois da morte da bisavó Isabel, apareceu em lágrimas, do nada, com um pedido lancinante: "Pai, eu quero nunca morrer!" Saiu-me uma pequena resposta, sem pensar muito: "Maria, nós temos de pensar em viver bem todos os dias e não pensar na morte porque isso só vai acontecer quando já fores muito velhinha".

É mentira. E ela sabe isso todos os dias quando percebe que morreu alguém que afinal ainda não era velhinho. Mas não vou desistir de continuar a convencê-la de que a melhor forma de não morrermos nunca é vivermos agora, mais para os outros do que para nós, sem desistirmos dos sentimentos mais nobres e de nos dedicarmos às coisas mais importantes da vida, que não são coisas. São a família, os amigos, os sonhos e os projectos que adiamos todos os dias. Parem de morrer, por favor! Parem de morrer todos os dias, sempre que se dedicam a minudências que nada acrescentam à vossa felicidade. O tempo é escasso e precioso, e como vimos nos casos mais recentes, pode faltar de um momento para o outro. Desperdiçá-lo? Nem pensar.

Morrem-me pessoas todos os dias
(artigo publicado a 5 de Fevereiro de 2016)

Quando era miúdo não tinha medo do escuro, não tinha medo de filmes de terror, não tinha medo "do velho que vem aí se não comeres", nem do papão. Tinha medo da morte. Era uma realidade longínqua que nunca tinha suportado, mas a ideia de ausência permanente deixava-me angustiado de tal forma que foi das primeiras coisas que me levaram a passar noites em claro ou mal dormidas.

Depois começaram a morrer-me pessoas. O meu colega Vítor foi dos primeiros, ou pelo menos o primeiro que não era "uma estrelinha no céu". O rapaz que ontem tinha estado ali, mas que naquela manhã já não acordou e a quem todos gozávamos por se vestir "à seminarista"- foi das primeiras crianças que vi a usar gravata na escola ainda no ciclo preparatório - e por falar com pronúncia de "bijeu". Acho que nunca mais gozei com ninguém desde essa altura pelas diferenças de comportamento, culturais ou de gosto próprio em relação às indumentárias.

Estivemos semanas a digerir a injustiça do nosso comportamento de crianças em idade parva, quando humilhar os outros parecia ser a forma de expiarmos as nossas próprias fraquezas. O Vítor morreu-nos naquela manhã e deixou-nos a terrível certeza em relação a uma suspeita que todos alimentávamos. Ao contrário do que nos diziam as pessoas não morriam velhinhas. Morriam em qualquer idade. E as crianças também morriam.

Depois morreu-me um dos melhores amigos de sempre, daqueles que nos faziam acreditar que éramos imortais. O Orlando. Era tão livre a pensar e a fazer que se tornou insuportável pensar que ficaria preso para sempre naquela campa fria do cemitério que conhecíamos tão bem desde miúdos. A referência geográfica limite da nossa infância. Ir para lá do cemitério era ir para o estrangeiro. O Orlando nunca mais iria a lado nenhum connosco e isso doeu-nos muito. Acabou por nos unir a todos em redor das suas loucas histórias e insolências escolares.

Há uns anos morreram-me os meus avós. Pessoas que adorava e que fazem parte das minhas melhores memórias de infância. Uma dor insuportável que aparece sempre colada às pessoas insubstituíveis no nosso coração. Pessoas para quem eu tinha sempre razão e os meus pais não - coisa maravilhosa na infância -, pessoas sempre carinhosas comigo que eu só via no máximo três vezes por ano. Não há nada que substitua uma festa no rosto dada pela mão sedosa dos avós, mesmo que estejam sulcadas por rugas profundas que atestam uma vida de muitas dificuldades.

Agora, muitos anos mais tarde, começam a morrer-me as pessoas com quem trabalhei, com quem aprendi, que me habituei a admirar e a citar como bons exemplos desta profissão que ao contrário do que dizem é mesmo a mais velha do mundo. Morreram-me o Fernando de Sousa, o Etiano Branco, o José António Salvador, o Jorge Pena, o João Ferro e muitos outros (recentemente morreu a minha querida Ana Franqueira e a querida e doce “Avó” Isabel).

Muitos deles morreram sem que se cumprisse uma coisa tão simples como almoçarmos ou jantarmos sem hora marcada para o fim, para actualizarmos conversas adiadas e cumprirmos velhas promessas. Salvou-se o Jorge Pena com quem partilhei umas belas doses de ameijoas e um branco fresquinho com vista para o rio na margem de Alcochete. A Xana nunca soube em vida que tínhamos violado a proibição de consumo alcoólico, como se fosse o último desejo de um condenado. Quando lhe contei ela sorriu com saudades dessa teimosia saudável que não resistiu ao bicho nos pulmões.

As pessoas morrem-nos todos os dias e com elas morre um pouco de nós. Que nos acorde a urgência de vivermos e cumprirmos as nossas pequenas promessas. A de cumprirmos os rituais simples da amizade será uma das mais prioritárias.

A informação mais vista

+ Em Foco

A Redação da RTP votou sobre as figuras e acontecimentos mais destacados, a nível nacional e internacional. Veja aqui as escolhas.

    O embaixador russo em Lisboa afirma, em entrevista à RTP, que as declarações e decisões de Donald Trump sobre Jerusalém podem incendiar todo o Médio Oriente.

    Rui Rosinha, bombeiro de Castanheira de Pêra, sofreu queimaduras de terceiro grau e esteve dez horas à espera de ser internado. Foi operado 14 vezes e regressou a casa ao fim de seis meses.

    Uma caricatura do mundo em que vivemos.