António Esteves

Um imenso lodaçal

Quando olhamos para o imenso lamaçal que atolou durante tantos anos algumas áreas da governação, da política partidária, dos negócios, das empresas, do desporto e da justiça em Portugal, percebemos melhor porque há tantas pessoas sérias e competentes que andaram muitos anos a marcar passo, condicionadas nas suas oportunidades profissionais.

Os lóbis assumiram-se como perigosos grupos de interesses, com aparência séria e aveludada no trato mas com métodos mafiosos, que tudo condicionavam na sombra, afastando todos os que pudessem ser um problema para a estratégia de controlo e poder, promovendo pessoas incompetentes e sem qualidades, alcandoradas a talentos mais pela sua exposição mediática do que pelos seus atributos.

A sociedade portuguesa tem muitas teias urdidas durante muitos anos e as pessoas que as teceram estão dispostas a quase tudo, sempre na sombra, para manterem os estatutos alcançados, para garantirem que os lóbis continuam activos. São pessoas que não desistem de estratégias e maquinações que lhes garantam a manutenção deste estado de coisas, muitas vezes com o alto patrocínio de pessoas com muito poder. Quando uma parte do esquema é exposto avançam outros peões menos conhecidos, mas sempre com o mesmo objectivo: dominar e controlar. Aos poucos, vão sendo conhecidos muitos desses esquemas e a sociedade portuguesa começa a acordar, sempre muito surpreendida, para tudo o que foi acontecendo. Na verdade, todos sabiam mas não queriam acreditar.

Não faz sentido que se tome o todo pela parte poder, e não é possível concluir que governantes, gestores, empresários, gestores, dirigentes desportivos e agentes judiciais são todos farinha do mesmo saco, mas também não podemos ser ingénuos e acreditar que havendo oportunidade estes esquemas não vão continuar a repetir-se, muitas vezes com os mesmos protagonistas, alguns reabilitados pela justiça ou por desaparecimentos de cena estratégicos.

Enquanto alguns continuarem a tentar expor todos aqueles de quem não gostam, tentando proteger "os seus" - há agora uma especialidade muito em voga que é escrever artigos cirúrgicos enlameando algumas pessoas e esquecendo outras que tomaram atitudes condenáveis idênticas - não há solução para um país refém de tanto lodo e porcaria.

Parece que começam a soprar novos ventos, assim existam condições para que evoluam. Basta que aqueles que sempre remaram contra a maré não desistam, e não se intimidem com estes gangsters de bolso. Não é fácil, mas é o mais correcto.

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