António José Teixeira

Cinco notas eleitorais

1. A grande derrota do PSD, a pior de sempre em autárquicas, mostra uma decadência preocupante, sobretudo nos maiores centros urbanos. Mostra um partido e uma liderança incapazes de responder ao novo ciclo político que o PS e os seus parceiros trouxeram. Mostra um partido fechado sobre si mesmo à espera de herdar o poder sem que faça por o merecer. Pedro Passos Coelho reconheceu o peso da derrota autárquica e as suas responsabilidades. Deixou entender que não concorrerá a novo mandato, mas não é de excluir que concorra a novo mandato. Com ele, com Luís Montenegro ou com Rui Rio, uma certeza: o caderno de encargos não é menos pesado do que a derrota autárquica.

2. O excelente resultado de Assunção Cristas em Lisboa deu-lhe galões que não tinha. Não teve adversários no congresso que a elegeu, mas soube enfrentar a rua e uma campanha exigente. O CDS mudou de página, de liderança, ganhou iniciativa. Ao contrário do PSD, percebeu rapidamente que o novo ciclo exigia novas respostas. Não cresceu muito, mas parece preparado para novos voos.

3. O Bloco de Esquerda ultrapassou esta etapa sem danos e com alguns ganhos. Não foram muito significativos, pois não foi desta que ganhou implantação autárquica relevante. A grande preocupação passou a ser o crescimento do PS.

4. Os comunistas conheceram uma derrota forte, a maior de sempre em autárquicas. Perderam autarquias para o PS em terrenos históricos, onde a sua implantação lhe garantia alicerces eleitorais. As fraquezas que ficaram a descoberto criam embaraços internos e externos. Os resultados não amaciam as hostes comunistas. Pelo contrário. É mais provável uma atitude mais agreste. Em Lisboa, ou em Almada, veremos que relação se constrói com o PS. A negociação do Orçamento do Estado é outra prova de força. O PCP participa numa solução política que viabiliza um governo do PS. Poderá ter-se arrependido, mas já não é possível voltar atrás. Que fazer daqui para a frente é uma interrogação de difícil resposta.

5. A grande vitória do PS e de António Costa revela uma elasticidade política que poucos previam. Cresceu à esquerda e à direita, o que demonstra que a sua posição central no sistema política se reforçou. A «geringonça» não esquerdizou o PS, como parecia à partida, deu-lhe uma combinação rara: conjugar compromissos europeus (nomeadamente a disciplina orçamental) com as reivindicações dos adversários da ortodoxia de Bruxelas, seus parceiros. Não é coisa pouca. E os resultados económicos são bons. Os resultados políticos de domingo deixam antever um horizonte optimista para os socialistas. E a perspectiva de uma maioria absoluta nas legislativas é perturbadora. À esquerda e à direita.

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