A maldição de Puigdemont

Morreram dois procuradores, numa semana, e um terceiro magistrado está hospitalizado, em estado grave. Todos tinham em mãos processos contra a causa independentista, o Governo de Carles Puigdemont e o referendo de 1 de outubro. Qual jura, qual praga como a de Tutankamon? São, com toda a certeza, coincidências, mas tal como nas escavações no Egipto, no Vale dos Reis, pela equipa financiada por Lord Carnarvon, um dos primeiros a morrer, tombado pela dita “maldição”, também na Catalunha parece que “a má sorte ataca aqueles que perturbam a causa… dos separatistas ou dos nacionalistas”.

Em menos de um mês o azar fez das dele.

18 de novembro: José Manuel Maza, 66 anos, Procurador-Geral do Estado espanhol, o principal rosto contra o “processo independentista” e o Governo de Carles Puigdemont morre, de forma repentina, em Buenos Aires. Sente-se indisposto na Assembleia de Ministérios Públicos Ibero-americanos, morre num hospital particular, pouco depois, devido a uma infeção generalizada;

27 de novembro: José Romero de Tejada, 69 anos, Procurador Superior da Catalunha, o magistrado que liderou a ofensiva jurídica contra o referendo de 1 de outubro, morre em Barcelona, com uma pneumonia fulminante;

12 de dezembro: José Ramírez Sunyer, 70 anos, magistrado responsável pela investigação aos suspeitos que terão organizado a consulta popular de 1 de outubro, é hospitalizado em estado grave. Está a ser submetido a vários exames, já foi substituído por outro juiz.

Nas redes sociais abriram-se guerras impiedosas com comentários sobre a morte de Maza e de Romero de Tejada. Entre mensagens de pesar e apoio às famílias, somam-se textos que celebram a morte dos magistrados. Em Barcelona, a Polícia Nacional deteve um jovem de 19 anos que festejou o momento e ameaçou outros dirigentes do Governo central, na internet, por alegado crime de incitamento ao ódio, injúrias e ameaças. Um dirigente do Podemos da Catalunha foi expulso do partido por ter publicado a fotografia de um brinde com champanhe, ao desaparecimento “de um repressor”, o Procurador-Geral Maza.

O ódio que se destila nas redes sociais, infelizmente, caminha pelas ruas de Espanha e vai fazendo vítimas. Víctor Laínez, por exemplo, morreu esta terça-feira, 12 de dezembro de 2017, friso 2017, por usar suspensórios com a bandeira de Espanha. É verdade, leu bem, assassinado à pancada, com várias lesões cerebrais, por usar suspensórios com as cores da bandeira de Espanha. Tinha 55 anos, era natural de Terrassa, foi vítima de um homem de 33 anos que antes, de acordo com a imprensa espanhola, lhe tinha chamado “fascista” e “franquista”.

Esta sim é uma maldição. O ódio que cresceu entre vizinhos, entre amigos, entre familiares, a raiva que mina a relação entre gentes de um mesmo país, que incita à violência, que grita “a por ellos”, “vão-se a eles”, numa luta que os políticos, eleitos democraticamente pelo povo, “dignos” representantes dos eleitores, foram totalmente incapazes de evitar e resolver. É essa a maldição da Catalunha e não é de agora. Há responsáveis neste processo e têm nomes. Todos eles.

Na reta final da campanha eleitoral, a uma semana das eleições antecipadas, as primeiras convocadas através da aplicação do artigo 155, com a autonomia da Catalunha suspensa, ninguém se atreve a dizer o que vai acontecer dia 22. Qual será o cenário político, a geometria do Parlamento catalão, a hipótese de governabilidade na região ou o futuro, velho ou novo, Presidente da Generalitat.

Em Madrid, no Palácio da Moncloa, sede do Executivo, Mariano Rajoy está a ser governado pela preocupação e pela incerteza. As sondagens não apontam para uma vitória clara dos partidos constitucionalistas e, mesmo que isso aconteça, a política de pactos entre o Ciudadanos, os Socialistas Catalães e os Populares promete ser difícil. Há quem antecipe outras conjunturas, como a repetição de eleições, caso o dia 22 de dezembro desperte com uma solução inviável, incapaz de criar consensos e gerir a Generalitat, em que seja impossível investir um Presidente dentro do prazo que a lei prevê.

De Puigdemont, a fazer campanha a partir da Bélgica, por videoconferência; de Oriol Junqueras, em campanha nas redes sociais a partir da cela na prisão de Estremera; de Inês Arrimadas do Ciudadanos, que se posiciona como a candidata mais votada, nas sondagens (que muito erram em Espanha), lado a lado com Puigdemont; de Miquel Iceta, que vai contrariando o Secretário-Geral Socialista ou de Xavier García Albiol, que não consegue arrancar votos para o PP na Catalunha, nada direi.

Tal como aconteceu desde o primeiro dia, espero estar na região para continuar a acompanhar todo o processo, como Jornalista, a relatar acontecimentos e não a dar opinião.

Quanto às coincidências de que vos dei conta e ao ódio que se passeia neste país, infelizmente tal como em muitos outros, respondo-vos com uma frase em castelhano: Yo no creo en brujas, pero que las hay… las hay. É uma expressão gasta, mas tudo isto desgasta. Tudo isto acaba por ser uma maldição.

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