Daniela Santiago

Amor de morte, histórias de namorados para não adormecer

“Si te pego, te estropeo”. “Se te agarro, dou cabo de ti”, disse Diego Maradona ao jornalista da Cadena Cope, que o esperava à porta do hotel em Madrid. O antigo futebolista, ídolo de milhões de jovens, está na capital espanhola para assistir ao jogo Real Madrid – Nápoles (onde jogou), da Liga dos Campões. Trouxe a noiva para o embate de gigantes e para passar o dia dos namorados, mas poucas horas depois do fim do romântico dia 14, terá dito à “amada” o mesmo, ou pior, que disse ao repórter espanhol. A polícia e o SUMMA(INEM) foram chamados ao hotel. Ela acabou por não apresentar queixa. Fechou-se no quarto e no silêncio. Maradona deu mais um chuto na bola.

Outra coincidência nesta minha vida de repórter, correspondente da RTP, em Espanha. Há menos de 24 horas foi, exatamente, o tema da Violência de Género que me fez pedir uma equipa à produtora espanhola com que trabalho, pegar no microfone e sair para a rua.

Oito mulheres estão acampadas no centro da Puertadel Sol, na praça mais movimentada da capital espanhola, em greve de fome. Recolhem assinaturas para que o Parlamento as oiça. Pedem ajuda, lançam um grito de socorro, depois de anos de silêncio, bofetadas, insultos e humilhações. Todas elas foram vítimas de violência mas, ao contrário de 220 mulheres nos últimos 4 anos, continuam vivas.

Dormem numa pequena tenda de lona preta. À frente, no chão, amontoaram dezenas de sapatos manchados de vermelho. Todos sabemos que é tinta, mas todos sentimos que é sangue. Entre eles, há sapatinhos pequeninos. Calçado de criança. Morreram mais de 100 desde os anos 90, assassinados com as mães.

Glória Vázquez, presidente da Associação Velaluz, diz que o Governo deve abrir um gabinete de crise que promova um pacto de Estado para lutar contra a “Violência Machista”. Exige a presença de mulheres maltratadas na Subcomissão Parlamentar sobre o tema, que arranca esta semana no Congresso dos Deputados, tal como medidas que garantam a proteção adequada das vítimas e a introdução da figura do “feminicídio” na legislação espanhola. Desde o início de 2013 até hoje, morreram cerca de 220 mulheres em território espanhol, não é de mais repetir, e duas dezenas de crianças, 20 menores.

Escrevi sobre o tema, há mais de um ano. Foi a minha terceira crónica.

Quarenta crónicas depois, volto ao assunto, que me valeu críticas de alguns homens por escrever “Violência Machista”. Lamento, não fui eu que inventei a união destas duas palavras desagradáveis. A expressão é do Governo, é das autoridades de segurança, é da sociedade civil em Espanha. Aqui não existe a expressão “Violência Doméstica”. É Machista ou de Género. A todos os que vão “atacar-me” por voltar ao assunto, sublinho que há exceções. Todos sabemos que também há homens a passar por situações semelhantes. Ninguém o ignora. Neste caso, falo de mulheres e de criançasassassinadas. A média é assustadora. De três em três dias, uma mulher morre em Espanha, vítima de Violência de Género.

A noiva de Diego Armando Maradona não apresentou queixa. Passavam 20 minutos das 8 da manhã quando ligou para a receção do hotel a pedir ajuda. Dizia que estava a ser agredida. O diretor da unidade hoteleira em Mirasierra, a norte de Madrid, chamou a Polícia, a Emergência Médica, mas a noiva de Maradona terá feito o que muitas mulheres fazem. Calou-se. Não deixou que os técnicos de saúde a vissem, não permitiu que houvesse investigação judicial. Arranjou outra versão para os acontecimentos. Afinal, parece que estavam só a discutir, disse. É este o silêncio que mata. O da companheira de Maradona, o de todos nós que nos calamos, que ignoramos a dor de quem não sabe ou consegue reagir.

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