Amor de morte, histórias de namorados para não adormecer

“Si te pego, te estropeo”. “Se te agarro, dou cabo de ti”, disse Diego Maradona ao jornalista da Cadena Cope, que o esperava à porta do hotel em Madrid. O antigo futebolista, ídolo de milhões de jovens, está na capital espanhola para assistir ao jogo Real Madrid – Nápoles (onde jogou), da Liga dos Campões. Trouxe a noiva para o embate de gigantes e para passar o dia dos namorados, mas poucas horas depois do fim do romântico dia 14, terá dito à “amada” o mesmo, ou pior, que disse ao repórter espanhol. A polícia e o SUMMA(INEM) foram chamados ao hotel. Ela acabou por não apresentar queixa. Fechou-se no quarto e no silêncio. Maradona deu mais um chuto na bola.

Outra coincidência nesta minha vida de repórter, correspondente da RTP, em Espanha. Há menos de 24 horas foi, exatamente, o tema da Violência de Género que me fez pedir uma equipa à produtora espanhola com que trabalho, pegar no microfone e sair para a rua.

Oito mulheres estão acampadas no centro da Puertadel Sol, na praça mais movimentada da capital espanhola, em greve de fome. Recolhem assinaturas para que o Parlamento as oiça. Pedem ajuda, lançam um grito de socorro, depois de anos de silêncio, bofetadas, insultos e humilhações. Todas elas foram vítimas de violência mas, ao contrário de 220 mulheres nos últimos 4 anos, continuam vivas.

Dormem numa pequena tenda de lona preta. À frente, no chão, amontoaram dezenas de sapatos manchados de vermelho. Todos sabemos que é tinta, mas todos sentimos que é sangue. Entre eles, há sapatinhos pequeninos. Calçado de criança. Morreram mais de 100 desde os anos 90, assassinados com as mães.

Glória Vázquez, presidente da Associação Velaluz, diz que o Governo deve abrir um gabinete de crise que promova um pacto de Estado para lutar contra a “Violência Machista”. Exige a presença de mulheres maltratadas na Subcomissão Parlamentar sobre o tema, que arranca esta semana no Congresso dos Deputados, tal como medidas que garantam a proteção adequada das vítimas e a introdução da figura do “feminicídio” na legislação espanhola. Desde o início de 2013 até hoje, morreram cerca de 220 mulheres em território espanhol, não é de mais repetir, e duas dezenas de crianças, 20 menores.

Escrevi sobre o tema, há mais de um ano. Foi a minha terceira crónica.

Quarenta crónicas depois, volto ao assunto, que me valeu críticas de alguns homens por escrever “Violência Machista”. Lamento, não fui eu que inventei a união destas duas palavras desagradáveis. A expressão é do Governo, é das autoridades de segurança, é da sociedade civil em Espanha. Aqui não existe a expressão “Violência Doméstica”. É Machista ou de Género. A todos os que vão “atacar-me” por voltar ao assunto, sublinho que há exceções. Todos sabemos que também há homens a passar por situações semelhantes. Ninguém o ignora. Neste caso, falo de mulheres e de criançasassassinadas. A média é assustadora. De três em três dias, uma mulher morre em Espanha, vítima de Violência de Género.

A noiva de Diego Armando Maradona não apresentou queixa. Passavam 20 minutos das 8 da manhã quando ligou para a receção do hotel a pedir ajuda. Dizia que estava a ser agredida. O diretor da unidade hoteleira em Mirasierra, a norte de Madrid, chamou a Polícia, a Emergência Médica, mas a noiva de Maradona terá feito o que muitas mulheres fazem. Calou-se. Não deixou que os técnicos de saúde a vissem, não permitiu que houvesse investigação judicial. Arranjou outra versão para os acontecimentos. Afinal, parece que estavam só a discutir, disse. É este o silêncio que mata. O da companheira de Maradona, o de todos nós que nos calamos, que ignoramos a dor de quem não sabe ou consegue reagir.

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