Beijo na boca sim, minuto de silêncio não!

Morreu ali mesmo ao lado, na Praça das Cortes. Num hotel que fica a metros da Escadaria dos Leões, no Congresso dos Deputados. Faltava pouco para a primeira sessão de controlo ao Governo de Mariano Rajoy começar.

O corpo ainda devia estar quente, o óbito acabara de ser declarado, quando Pablo Iglesias deu ordem aos parlamentares do Podemos para não ocuparem os lugares, não respeitarem o minuto de silêncio. E assim aconteceu, na mesma câmara onde em março, em plena sessão de investidura, Iglesias beijou na boca o líder de outro partido, enquanto Mariano Rajoy chupava furiosamente caramelos ao ouvir o discurso do então candidato a Presidente, Pedro Sanchéz.

Rita Barberá tinha 68 anos, 24 deles passados a gerir Valência, a terceira maior cidade de Espanha. A antiga “alcaldesa” do PP era, até há pouco mais de um ano, uma referência, a líder histórica do partido de Rajoy na região. Tudo mudou com a chamada operação Taula, um dos últimos casos de corrupção que abalaram Espanha e se transformaram num enorme fardo para os populares.

Em plena crise política, “viu-se obrigada” a entregar o cartão do partido, mas recusou abandonar o Senado onde, atualmente, integrava o grupo misto. Figura controversa, morreu de enfarte esta quarta-feira, menos de 48 horas depois de depor perante o Tribunal Supremo de Espanha, por alegado branqueamento de capitais.

Ora, Pablo Iglesias entendeu que nenhum dos seus deputados poderia participar numa homenagem política a alguém “com uma trajetória marcada pela corrupção”. Foi assim mesmo que, apressadamente, se justificou no Twitter. Fez o seu próprio julgamento, ordenou e saiu da sala. Os restantes partidos condenaram o líder do Podemos mas, nos corredores do Congresso, Iglesias fez questão de dizer aos jornalistas que estava “muito orgulhoso com a atitude”.

No Senado, onde Rita Barberá deveria comparecer pela manhã, como senadora, o grupo parlamentar do Podemos juntou-se ao minuto de silêncio, tal como o líder do Podemos nas Cortes de Valência. O mesmo aconteceu com os parceiros de coligação na Comunidade Valenciana, que se uniram à homenagem no Congresso, dizem, por “uma questão de respeito”, apesar da diferença “abismal” que os separava.

Depois de tudo o que já vi e ouvi nos últimos 14 meses, no Congresso Espanhol, limito-me a citar Philippe Ariès. “Esquecer-se da morte e dos mortos é prestar um péssimo serviço à vida e aos vivos”, mesmo que isso, acrescento eu, dê tempo de antena nas televisões e encha linhas nos jornais.

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