Daniela Santiago

Beleza a quanto obrigas ou a história de uma dirigente política que temia mais as rugas que a vergonha

Duas embalagens de creme acabaram com a carreira de 24 anos, a de Cristina Cifuentes. O nome pode dizer pouco ou nada aos portugueses, refiro-me à mulher que liderou a maior Comunidade de Espanha, a da capital. Presidente do PP/ Madrid, do partido que governa o país, mulher de confiança de Mariano Rajoy, o Chefe do Executivo. Dois frascos de, passo a publicidade, Regenerist Tres Áreas de Cuidados Intensivos da Olay.

Acontece-nos a todas. Com a idade aparecem as rugas, desaparece a firmeza, desperta a flacidez. O que não acontece a todas é furtar cremes, em supermercados, para levar estimulantes de colagénio e elastina para casa e ser apanhada pelas câmaras de videovigilância. Ainda mais, sendo vice-presidente da Assembleia de Madrid. Desolador… e tudo isto, depois de se descobrir que o mestrado que dizia ter feito, na Universidade Juan Carlos I, é tão falso como qualquer imitação chinesa do creme que meteu no saco azul, a cor da carteira a tiracolo… que coincidência.

Ora, se o escândalo do mestrado não a fez cair, para desespero de Rajoy que lavou as mãos e também não teve a iniciativa que toda a oposição clamava, o tema dos cremes, oleoso, gorduroso, fê-la escorregar num instante. Na própria manhã em que o vídeo embaraçoso, gravado em 2011, foi revelado (Cristina Cifuentes, elegantérrima, de tailleur azul e sapatos de salto alto, mostra a carteira ao segurança nas traseiras do supermercado, tira os dois cremes, pega no telemóvel e seca as lágrimas), tudo resvalou. Numa conferência de imprensa, disse ser vítima de uma perseguição, que ultrapassa a política, uma campanha pessoal “dia e noite, por ar e por terra”. Daí a poucos dias, teria de enfrentar uma moção de censura na Assembleia de Madrid, pelo mestrado falso, mas já não chegou lá. Mesmo assim, teve de ser empurrada da liderança do PP/Madrid porque só se demitiu da Presidência da Comunidade e passaram quase 15 dias até, esta terça-feira, 8 de maio de 2018, anunciar que renuncia ao lugar de deputada no Parlamento Regional e abandona a política.

O PP respira de alívio. Ninguém diz nada. Nos bastidores, alguma imprensa, a oposição, comentam que foi do interior do próprio PP que saiu o vídeo que alguém guardava, religiosamente, há 7 anos. O escândalo do mestrado estava a durar tempo de mais e Cifuentes não se demitia. Os cremes não suavizaram o processo, adiantaram… juntaram mais rugas a uma figura que só fragilizava o partido.

Curioso, porque decidi escrever sobre este tema, hoje?

Acabei de assistir a um debate no Congresso, horas depois de outro no Senado, nas Câmaras Baixa e Alta das Cortes de Espanha, com a presença do Governo. Vários deputados e senadores do PSOE, Ciudadanos e Podemos, questionaram Mariano Rajoy sobre a responsabilidade política neste caso. Este e todos os outros, porque, como afirmam, “O Sr. Rajoy é Presidente do Governo, mas também é presidente do PP”.

O PP está enredado numa teia de casos de corrupção, processos judiciais em curso que envolvem centenas de antigos dirigentes do partido. O PP não é o único, há outros, mas neste caso é sobre o Partido Popular que escrevo. Já me referi aos outros, em artigos anteriores, Para não ser demasiado exaustiva, nem sequer vou referir o mega julgamento de corrupção, em que um Primeiro-Ministro teve de depor como testemunha (pela primeira vez na história de Espanha), que envolve Luis Bárcenas, antigo tesoureiro do PP e homem de confiança do Presidente do partido e do Governo. Também não vou perder tempo com o caso das Tarjetas Black que tem como protagonista Rodrigo Rato, antigo vice-presidente do PP, num desfalque de 15,5 milhões de euros entre 1999 e 2012. Também não quero fastidiar com o caso Gurtel, com 187 acusados, 74 deles políticos, exatamente no dia em que o Tribunal Supremo confirmou as penas de prisão, de 9 a 13 anos, para os cabecilhas de uma trama de financiamento ilegal do PP na Comunidade Valenciana. Com ironia, há pouco tempo, um jornalista espanhol dizia-me que as Cortes espanholas não seriam suficientes para sentar todos os antigos dirigentes políticos, acusados por corrupção em Espanha.

Vou cingir-me a Cristina Cifuentes, que chegou à liderança da Comunidade de Madrid porque foi substituir Ignacio González, detido por pertencer a uma rede de corrupção. Esperanza Aguirre, porta-voz do PP na capital, antecessora de González e de Cifuentes, também foi forçada a demitir-se por alegadas ligações ao mesmo processo, o chamado caso Púnica, que levou também à detenção de Francisco Granados, antigo número dois do PP na Comunidade de Madrid. Em causa, está a adjudicação de serviços públicos, no valor de 250 milhões de euros, em dois anos, em troca de pagamentos e comissões ilegais. Três dirigentes seguidos, do mesmo partido, no mesmo cargo, gerido pelo PP há duas décadas: três saídas desastrosas.

Estamos a falar de 2007 até hoje. São onze anos. Mariano Rajoy é Presidente do PP desde 2 de outubro de 2004. Diz que nunca soube de nada, não teve conhecimento, não se lembra. Cifuentes? “Fez o que devia de fazer” e nada mais adianta. Responsabilidade política? Toda a oposição questiona. Não há resposta. Curiosamente, também não há facas afiadas. Publicamente, é certo. Não há companheiros de partido ou da vida íntima a atiçar e atirar lenha para a fogueira. Curioso…

Nas ruas, anos e anos de casos de corrupção parecem começar agora a fazer mossa. A última sondagem do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), conhecida há 24 horas, revela um PP que se mantém à frente, nas intenções de voto, mas que perdeu nove pontos. Quase os mesmos que ganhou o Ciudadanos. A formação de Albert Rivera está a menos de dois pontos dos Populares. Disputam, claramente, o mesmo eleitorado, só os eleitores com mais de 65 anos continuam fiéis a Mariano Rajoy.

Alheio a tudo, o Presidente continua a assobiar para o lado.

Responsabilidades? A culpa é dos cremes. Cifuentes… caiu pelos cremes. Cremes que disfarçam a corrupção, mais que rugas e flacidez. São uma afronta, não há quem lhes resista.

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