Daniela Santiago

Mais um triste dia de sol

José Luís Juez franze o rosto quando olha para o céu. Este sol de novembro está tão forte que o obriga a semicerrar os olhos, cada vez que explora o horizonte à procura de uma nuvem. “Nem uma”, desabafa enquanto muda o cajado de mão, para limpar o suor com a direita. “Nem uma bendita nuvem, Lolita”, diz José à ovelha mais gorda do pequeno rebanho que lhe abre caminho, desorientada, em busca de algo que teima não crescer. “Maldito bom tempo”… dizemos nós. O pastor assente com a cabeça. “Se não gostasse tanto delas, já tinham ido para abate”. Em Toledo, são centenas, os animais que estão a ser vendidos ao desbarato. Não há pasto, nem dinheiro para pagar fardos. “A culpa é nossa”, lamenta, entre um suspiro, José Luís, enquanto a velocidade das ovelhas o obriga a deixar-nos para trás, desolados com a paisagem.

É a pior seca dos últimos 20 anos em Espanha. Há quem diga que é a mais grave das três últimas décadas. Estamos a deixar um mundo sem conserto aos nossos filhos e uma vida sem remédio aos filhos deles. Os nossos netos, sim, os nossos netos, poderão viver numa Península Ibérica desértica, em 2100. Já em 2100, mas afinal qual o espanto? Há décadas que não fazemos nada, apesar dos alertas, dos sinais alarmantes que o planeta nos envia. De acordo com um estudo do IPCC, o Painel Internacional de Especialistas sobre as Alterações Climáticas, daqui a pouco mais de 80 anos, Espanha vai ser um deserto. Em Múrcia e Almería, por exemplo, só chove entre 5% a 20% do que se evapora. O norte não está a salvo, dizem os investigadores, a aridez começa a atingir a Galiza. São quase 38 milhões de hectares ameaçados por uma desertificação iminente, ou seja, mais de 70% de todo o território espanhol.

Em Toledo, a 73 km de Madrid, mais de 15 mil habitantes não têm água nas torneiras das 9 da noite às 9 da manhã. Para além de estarem limitados a 200 litros/dia por habitante, são necessárias medidas adicionais em dez localidades da região. Quem não tem um poço no terreno, nem sequer consegue alimentar o gado ou regar os campos. Os prejuízos são difíceis de contabilizar… tudo “foi por água abaixo”, porque não há água. Nos dias que correm, até as expressões e ditados populares já precisam de reciclagem.

Em Portugal, pela televisão, oiço apelos nas escolas para que se poupe água. Há campanhas recentes a recordar que este é um bem finito, que há que preservá-lo. Agora? Pergunto eu. Só agora? Poderia questionar José Luís Juez que não tem comida para as ovelhas e compra água para beber. Apenas agora? Depois de três anos consecutivos com menos chuva do que o normal, principalmente a noroeste da Península. As barragens das bacias hidrográficas do Douro, do Tejo, do Minho… nunca tinham tido um nível tão baixo, se tivermos em conta os registos do Ministério da Agricultura a partir de 1990. Estão entre 25 e 38% da capacidade.

Em Guadalajara e Cuenca, as barragens de Buendía e Entrepeñas não excedem os 9% da capacidade. É desolador andar por lá. Em Espanha, há cerca de 500 povoações que foram “sacrificadas” para a construção de barragens, cerca de 1300 em todo o país. A descida das águas conduz-nos agora por uma “Atlântida” perdida, que emerge sem pudor, revelando a incúria do Homem. O “sacrifício” parece agora em vão. Em Buendía, exibe-se um verdadeiro museu a céu aberto. O Balneário “de la Isabela”, mandado construir por Fernando VII para “tratar a gota” e para regozijo da mulher, a rainha Isabel de Bragança, ergue-se como uma cidade fantasma. No século XIX, era conhecida como a “pequena Versailles”, pela quantidade de fontes e jardins viçosos. Diziam que as águas tinham poder curativo. Durante a Guerra Civil recebeu pessoas com deficiência mental. Em 1955, o regime de Franco inundou a zona para construir a barragem. Sessenta e dois anos depois, está ao alcance de todos os que não se importam de percorrer vinte minutos de terra batida, na serra entre Sacedón e Buendía, para descobrir dezenas de colunas que a água parece não ter afetado.

Por outro lado, há 22 anos que não havia um mês de outubro tão seco como o deste ano. Só em 1995, de acordo com a Aemet, a Agência Estatal de Meteorologia espanhola, choveu tão pouco. As centrais hidroelétricas estão a produzir menos de metade da energia que poderiam oferecer às populações, sem emissões de dióxido de carbono. Sendo assim, sobem as emissões poluentes, com o aumento do carvão e do gás natural, cerca de 30% cada, se compararmos com 2016.

Em Madrid, o céu azul imaculado das últimas semanas esconde um verdadeiro veneno para a saúde pública. Só em locais altos, ou quando se levanta voo ou aterra no aeroporto de Barajas, é possível ver a “boina”, o capacete de contaminação que cobre a capital espanhola. O intenso e imenso manto de poluição já ensombra províncias vizinhas como Toledo e Guadalajara. As altas concentrações de dióxido de nitrogénio e a total ausência de precipitação e de vento estão a preocupar as autoridades. Os ecologistas insistem nos apelos a novas medidas que limitem a circulação de viaturas na comunidade. Há vários dias que não se pode estacionar em determinadas zonas da cidade ou circular na M-30 a mais de 70 km/hora. Trata-se da via que circunda Madrid, uma das que recebe mais trânsito em toda a Espanha, uma média de 305 mil veículos por dia. As queixas de tonturas, enjoos, dores de cabeça, problemas respiratórios são cada vez mais frequentes. Há quem utilize máscara para andar ou circular de bicicleta, em Madrid. Trata-se de um gás muito tóxico, irritante para os pulmões, diminuindo também a resistência às infeções respiratórias.

As causas de tudo isto são complexas. É fácil atribuir culpa às alterações climáticas, afinal tem de haver sempre um responsável, para “lavar as mãos e a consciência”. No entanto, se é certo que a mudança no clima se está a fazer de forma mais rápida e abrupta do que era de esperar, o aquecimento global, as emissões de gases poluentes, os incêndios devastadores, a destruição e “adulteração” das florestas, o aumento da erosão nos solos, o uso e abuso da água, da natureza, do mundo deveriam, e muito, pesar nas nossas responsabilidades, porque a culpa é de todos.

Todos nós temos filhos, netos, sobrinhos, primos ou amigos. Se não temos uns, teremos outros… No entanto, todos nós somos, profundamente, egoístas.

É curioso, recordo-me de um livro que li na adolescência. Li dezenas e desde então, centenas, talvez milhares. Não foram muitos os que me marcaram, mas este permanece na memória como se tivesse lido o último parágrafo, a noite passada. Em “Uma vida mais longa”, John Wyndham, traça a perspetiva do que seria o Mundo e o Ser Humano, se este pudesse viver 200 ou 300 anos. Num livro de ficção científica, dos anos 50, Wyndham especula sobre a forma como a humanidade lidaria com esta longevidade. Uma das conclusões reflete, exatamente, uma maior preocupação com o mundo, com os recursos, com o corpo, com tudo o que nos rodeia. Se “eu viver mais” tenho de cuidar melhor “onde e como vou viver”.

No entanto, não é assim. O egoísmo do ser humano ultrapassa, na realidade, os cenários apocalípticos que um dos autores de ficção científica mais lidos de sempre conseguiu traçar. A vida é demasiado fugaz, escorre-nos pelos dedos, dá-nos preocupações a mais, para que se pense a longo prazo, mesmo que aqueles que mais amamos vivam nesse prazo longo…

O balido das ovelhas, ao longe, devolve-me à realidade. José Luís desaparece no horizonte. Passa um camião cisterna, no asfalto ainda quente, para a aldeia mais próxima. Faltam 2 horas para cortarem a água. O Mundo começou a ter outros tempos, tempos que não se compadecem com os nossos. Tempos que se fartaram da nossa indiferença… e que não comprometem apenas o futuro. Não é o amanhã que está comprometido. Somos todos nós.

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