Moby-Dick catalã ou mais uma história de obsessão

Que estranhos tempos estes, em que a razão e a ambição se confrontam sem olhar a meios ou a vítimas que a batalha vai largando pelo caminho.

Herman Melville descreveu-a divinamente no romance que todos conhecemos. Moby-Dick é muito mais do que uma aventura atrás de um cachalote enfurecido. A Baleia, como também ficou conhecida esta obra revolucionária de 1851, descreve-nos o fracasso de uma expedição liderada por raiva e ambição desmedidas.

A atualidade política na Catalunha transporta-me para as águas geladas e sedentas de vingança de Moby-Dick. Vejo um capitão, não é Ahab, a coxear pela falta da perna que o cachalote lhe roubou, mas está tão obcecado, quer tanto atingir o Governo e a Justiça de Espanha, que não consegue espantar “os demónios” que o atormentam, não se apercebe que toda a tripulação o segue e se precipita para um destino que só ele parece controlar.

Sinto o ambiente do Pequod, o navio que acaba destruído no fim do romance. É bem mais pequeno que a região mais rica de Espanha, a Catalunha, mas também aqui há alegria, motivação, esperança… novas amizades, partilha. Tudo muda… chega a instabilidade, o medo, surgem divisões e discussões, enquanto a ambição do comandante aumenta, cega, incontrolável.

Vejo tripulação a abandonar o navio. Artur Mas demite-se da presidência do Partido Democrata Catalão. Carles Mundó, antigo conselheiro da Justiça deixa a política. Neus Lloveras abandona a Presidência da Associação de Municípios pela Independência. Carme Forcadell anuncia que não se recandidata à presidência do Parlamento Catalão. São muitos. A maioria está ferida, já está sob medidas de coação, ainda vai ter de responder, em processos judiciais, pelos crimes de sedição, rebelião, peculato. Saltaram tarde para as águas revoltas e encontraram Moby-Dick. Quatro estão detidos. Pedem ao juiz para responder ao que antes recusaram. Voltam atrás, esclarecem que nunca quiseram avançar tanto, de forma unilateral, mas a água já os engoliu. Há outros quatro que não podem pisar o país onde nasceram. Basta senti-lo debaixo dos pés e serão engolidos pela maré.

Ao longe, sinto um capitão ambicioso. Não sei se luta contra “os seus fantasmas”, mas vejo-o com uma única obsessão.

Aqui, o narrador não foi Ismael, o único sobrevivente d´A Baleia. “Trate-me por Daniela”, e esta é apenas uma opinião.

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