Política, corrupção e silêncios…

Em quase um ano limitou-se a estar quieto, quase imóvel. Parecia adivinhar que a inércia lhe devolveria o poder, o domínio que, afinal, nunca deixou de ter, sentado na Moncloa. Mariano Rajoy parecia saber que a imobilidade lhe traria mais votos, que o maior partido da oposição ia autodestruir-se e “apoiá-lo” e que podia passar ao lado, como se nada fosse, de um dos maiores escândalos de corrupção que Espanha conheceu, exatamente dentro do partido que lidera.

Desconheço se consultou algum oráculo, se tomba para o lado do esoterismo, se tem sábios conselheiros ou algum dom de adivinhar o futuro, no entanto, tiro o chapéu ao líder do PP que, nos últimos 10 meses, sem fazer quase nada, conseguiu quase tudo. Mariano Rajoy está a poucos passos de formar um novo executivo. Os passos necessários para dizer ao Rei Felipe VI que está em condições para tentar uma nova investidura e ser eleito chefe do Governo de Espanha com a abstenção dos socialistas.

Curiosamente tudo coincide com o mega julgamento do chamado “caso Gürtel”, que senta no banco dos réus 37 pessoas, mais de metade antigos dirigentes, altos dirigentes, do PP, entre eles os últimos 3 ex. tesoureiros do partido, acusados de corrupção, numa gigantesca malha de tráfico de influências.

O Presidente Rajoy sempre disse que não sabia de nada. Em fevereiro de 2009 (quando o caso rebentou), tal como agora, assegura que o Partido Popular está a ser vítima de conspiração alheia. Como escreve o El País, “Rajoy não reconheceu nenhum erro, não admitiu o problema, nem atuou com rapidez contra a corrupção interna no PP. Preferiu o contra-ataque como defesa”.

Estranho é que os espanhóis não vejam o que Rajoy “não quer ver”. É certo que nos últimos anos perdeu 3 milhões de votos com os episódios de corrupção que brotam no partido, no entanto, o PP continua a ser o mais votado, cresceu de dezembro para junho e, tudo indica, que em terceiras eleições, somaria ainda mais votos.

Um estudo do CIS (Centro de Estudos Sociológicos) divulgado esta quarta-feira, a 26 dias de outra possível dissolução do Parlamento e convocação de terceiras eleições, revela que a falta de Governo é o quinto problema que tira o sono e cria ansiedade aos espanhóis: 11,6% dos inquiridos. No topo das preocupações

está o desemprego, com 71,6% e a corrupção com 36,6%. Contudo, inquéritos à parte, na prática não parece que seja assim.

Pedro Sánchez sempre fundamentou o “no es no” a Rajoy nos sucessivos casos de corrupção, aliás o Ciudadanos fazia o mesmo. Albert Rivera garantia que em nenhum caso iria apoiar Rajoy, mas os tempos mudam… e na política mudam ainda mais depressa.

Sánchez, que não conseguiu conquistar o eleitorado, mas sim os piores resultados de sempre para o PSOE, já saiu de cena. Foi, literalmente, empurrado para fora da liderança do partido que, 3 dias depois, já admitia uma abstenção a Rajoy. No PSOE, os antigos barões quiseram estancar a fuga do eleitorado, numa esquerda fraturada desde o fim do bipartidarismo, onde não existe um Ciudadanos que tanto se une a socialistas, como a populares, dizem, “a bem do interesse nacional”. Afastaram Sánchez, abriram caminho à Andaluza Susana Díaz, ainda poderão pagar um preço alto pela mudança brusca do discurso e da atitude face à continuidade de Rajoy no Governo de Espanha.

Neste momento, ironicamente, o PP já fala em condições. Os dirigentes populares dizem aos socialistas que não querem um Executivo minoritário a prazo, exigem garantias.

Que irónico é este Mundo. Como tudo muda rápido, no Mundo da Política.

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