Daniela Santiago

Vacinar ou não vacinar, não há questão

Infelizmente, não estamos a falar de Hamlet, esta tragédia não se passa no reino da Dinamarca e, dificilmente, seria imaginada por Shakespeare, há mais de 410 anos, quando surtos de epidemias dizimavam povoações inteiras.

Quem não leu nada sobre a peste negra, a varíola, a tuberculose ou, mais recentemente, a gripe espanhola ou a poliomielite? Morria-se sozinho. Abandonado. Quantos partiram à espera de uma vacina, uma cura para o SIDA? Quantos de nós pedimos uma descoberta para o combate à malária? Todos sonhamos com um milagre para o cancro.

Então? O que se passa? Se existe algo que nos protege e que protege quem mais amamos e cujo a vida depende, por completo, de nós, sem poder de decisão, por que razão não o fazemos? Por que motivo, com que direito, colocamos em risco a vida dos outros? Desde quando opiniões, mal fundamentadas, que inundam as redes sociais, devem prevalecer sobre avanços da medicina, séculos de estudos científicos?

Há uns meses, um dos meus vizinhos, aqui em Madrid, veio pedir-me um favor especial. Estava em pânico. A filha queria vacinar o neto contra a meningite meningocócica, proteger o bebé de uma doença que pode ser fatal, mas o stock estava esgotado e a lista de espera nas farmácias de Madrid era enorme, podia ultrapassar um ano. Pediu-me ajuda. Perguntou se podia comprar-lhe a vacina em Portugal. Duas semanas depois, entreguei-lhe as duas doses recomendadas pelo Plano Nacional de Vacinação de Espanha, de uma vacina que não é comparticipada e ronda os 100 euros/ cada. O menino foi vacinado no dia seguinte e o avô respirou de alívio.

Não quero, nem tenciono de maneira alguma, criticar que opta por não imunizar os filhos, proteger, reduzir a possibilidade de contraírem uma doença para a qual já existe uma vacina. Lamento, profundamente, que tenha sido necessário, mais uma vez, pela enésima vez, perder-se uma vida, uma vida tão jovem, para que o debate se instale de forma definitiva e se faça algo. De acordo com as informações que existem, este caso nem terá a ver com opções ditas naturalistas ou defensores do movimento anti-vacinas. Aos pais, nada que possa escrever pode aliviar uma dor tão profunda e eterna. Que grande tristeza. Os meus sentimentos.

Aos que defendem que a natureza se encarrega de imunizar os filhos, que não acreditam na eficácia das vacinas, que desconfiam dos “Governos” por facultarem vacinas, peço que “ergam as mãos para o céu”, para a “mãe natureza”, para onde quiserem e agradeçam não estar em luto. Não terem perdido o que de mais valioso conseguiram na vida por receio de “danos colaterais”.

Todos temos o direito a uma opinião. O direito a uma escolha pertence a todos e a cada um de nós, mas não podemos esquecer que esse direito termina quando começa o direito à vida, à saúde dos outros e, entre os outros, estão também os nossos filhos. Quando um pai decide não vacinar uma criança, está a colocar em causa a vida dos outros, mas também a vida do próprio filho, que não pode escolher. Não estamos a falar de opções religiosas, educativas, culturais. “Ah… não vou batizar, se quiser um dia ele opta por isso”. “Para já, não vai para a música, quando tiver 10 anos logo se vê, se gosta.” “Se quiser furar as orelhas, que o faça ela!”. Não, não estamos a falar disto. Não, quando acontecer, se acontecer, pode não existir nada, repito nada, a fazer para salvar o seu filho, ou o meu.

Trata-se de um retrocesso civilizacional. Sabem o que aconteceu, por exemplo, aos dois médicos que associaram as vacinas a casos de autismo? O britânico Andrew Wakefield foi proibido de exercer medicina e o norte-americano Jeff Bradstreet ter-se-á suicidado. Entretanto, só em Portugal, há 15 mil crianças por vacinar. Qual o fundamento? Qual a explicação? Não sei.

Será que Maurice Hilleman, conhecido por ter desenvolvido mais de 40 vacinas, entre elas a do sarampo, referido como o cientista que mais vidas salvou no século XX, é um embuste ou dedicou a vida a uma farsa? Criou “armas biológicas para os Governos”, como se pode ler em algumas páginas na internet, em vez de vacinas que evitaram a morte a milhões e milhões de pessoas? Os avanços, durante séculos, da medicina, da biotecnologia molecular, os estudos imunológicos e epidemiológicos, não serviram de nada?

Agora é um “Ai Jesus”. O assunto vai ser debatido no Parlamento e já há um abaixo-assinado a exigir vacinação obrigatória, devido a uma doença que estava dada como eliminada em Portugal, mas que mata 15 pessoas por hora em todo o mundo.

Regressando ao início deste artigo, apenas uma opinião e única e exclusivamente uma opinião, troco o dramaturgo britânico Shakespeare por um filósofo francês da mesma época… Descartes: “Penso, logo vacino”.

A informação mais vista

+ Em Foco

Houve aldeias ceifadas e vidas destruídas. O medo viveu ao lado de histórias de heroísmo. Contamos as estórias que agora preenchem dezenas de aldeias esquecidas, muitas pintadas a cinza.

    O incêndio de Pedrógão Grande provocou a morte de 64 pessoas e deixou mais de 200 pessoas feridas. Revisitamos os últimos dias com fotografias e imagens aéreas captadas com recurso a um drone.

      É uma tragédia sem precedentes que vai marcar para sempre o país. O incêndio de Pedrógão Grande fez 64 mortos mais de duas centenas de feridos. Há dezenas de deslocados.

      Nodeirinho é a aldeia mártir do incêndio de Pedrógão Grande. É uma aldeia em ruínas, repleta de casas queimadas e telhados no chão. Um cenário de desolação e dor.