Mário Rui Cardoso

Merkel no seu labirinto

A fatura do fracasso nas negociações para a formação de um governo alemão foi apresentada ao chefe do FDP, Christian Lindner. Mas pode ser Angela Merkel a ter de pagar a conta.

Conexões germano-jamaicanas já deram um razoável tenista, Dustin Brown, e uma candidata a miss universo, Sharlene Rädlein, mas qualquer tentativa de gestação na política alemã é hoje muito incerta e os esforços para trazer à luz uma coligação Jamaica acabaram por abortar às cinco semanas. Sem surpresa. Desde o início parecia impossível juntar pontas hoje inconciliáveis na sociedade alemã. Não existe, atualmente, na Alemanha, um consenso social sobre questões como a imigração, as alterações climáticas ou a chamada energiewende – a transição para um mix energético mais amigo do planeta –, e isso acabou refletido, primeiro nas eleições de setembro, que deixaram um recorde de sete partidos representados no parlamento nacional, e agora no fracasso das negociações para uma nova coligação de governo.

Foi Christian Lindner, do FDP, quem decidiu retirar-se das negociações, preferindo ir para eleições, e por isso é fácil, como fizeram os outros parceiros de negociação, CDU, CSU e Verdes, atribuir-lhe a responsabilidade imediata por prolongar a indefinição política num país demasiado grande e demasiado importante para poder estar nessa indefinição por muito tempo. Mas também é verdade que podia ser o SPD a retirar Merkel deste atoleiro, negociando a reedição da “grande coligação” que governou nos últimos quatro anos, e recusou-se a fazê-lo. Também Martin Schultz disse que preferia eleições antecipadas.

Na verdade, percebe-se a atitude destes partidos, se atentarmos no que foram as suas experiências de coligação com Merkel, nos dois últimos governos. O FDP apresentou-se a eleições, em 2013, depois de ter estado coligado com a CDU/CSU, e nem sequer elegeu deputados, o que aconteceu pela primeira vez na história do partido. E o SPD teve, em setembro, um resultado eleitoral pouco mais do que medíocre. Agora, o FDP não quer voltar a alienar os eleitores que entretanto recuperou, nas eleições de setembro; e o SPD não quer ver-se sujeito à mesma irrelevância a que foram remetidos outros partidos socialistas europeus. Por isso, não admira que ambos prefiram agora distância de Merkel, ainda mais numa altura em que os alemães demonstraram que estão dispostos a votar de faca afiada, transferindo até o voto, se necessário, para forças populistas como a Alternativa para a Alemanha.

A chanceler também já disse que prefere eleições a ter de liderar um governo minoritário, instável, para mais inédito na Alemanha. E está confiante. Merkel assegura que a coligação CDU-CSU está forte e pronta a ir a votos. Mas será que a sua estrela se mantém? A chanceler é reconhecida pela habilidade política, que lhe permitiu completar três legislaturas em coligações alternadas com o SPD e o FDP. Foi especialmente hábil, nomeadamente, a tornar suas políticas oriundas dos partidos que a apoiaram nessas coligações. Mas vê-se agora face à intransigência desses partidos, e a ter de recuperar a CDU de resultados eleitorais em mínimos históricos, fruto da sua política de portas abertas aos refugiados.

Não se vislumbra ainda qualquer alternativa a Angela Merkel, mas começa a especular-se que este pode ser o princípio do fim da carreira política da chanceler. A Europa vai navegando à vista, enquanto aguarda pelo desenlace deste, como lhe chama a “Der Spiegel”, “momento Brexit” ou “momento Trump” que se vai vivendo na Alemanha. Vista, até setembro, como último reduto de estabilidade numa paisagem europeia em desagregação, a Alemanha surge agora fraturada e com a sua capacidade de liderança dos destinos europeus posta em dúvida. Emmanuel Macron apresentou a Merkel, em setembro, propostas de relançamento da União Europeia e da zona euro. O Reino Unido também contava com uma maioria de governo sólida, na Alemanha, para poder avançar na negociação do Brexit. Mas nada poderá evoluir sem que primeiro se aclarem as águas do Reno.

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