Mário Rui Cardoso

Vemos, ouvimos e lemos. Mas podemos confiar?

O caso do inquérito a Mário Centeno, por causa de uns bilhetes para a bola, é paradigmático de uma paisagem informativa cada vez mais fixada no objetivo de fazer-se notar. É preciso sentido crítico, no mundo hipermediatizado em que vivemos.

O Centro Internet Segura lançou esta semana uma campanha com conselhos aos jovens para detetarem falsas notícias e para ajudá-los a fazerem uma leitura crítica dos conteúdos online. A campanha apela a que se esteja atento à origem de uma notícia que é partilhada na rede; a que se confirme se a mesma é abordada por um meio de referência; e a que se faça pesquisas complementares. Tudo ótimas sugestões, embora na parte que toca aos chamados "meios de referência" seja preciso algum cuidado porque, nos tempos que correm, até estes obrigam a olhar com cautela e caldos de galinha para aquilo que publicam.

Duas notas, ainda assim. Não são só os jovens que precisam de aprender a ter distanciamento e sentido crítico relativamente a tudo o que leem, veem, ouvem e partilham. E a questão não se coloca apenas com a internet e com as falsas notícias. Hoje é preciso uma atenção acrescida a tudo o que se publica. Nem sempre para saber se as notícias são verdadeiras ou falsas, mas algumas vezes, também, para perceber se elas fazem sentido e que sentido fazem. O jornalismo mudou muito, está mais rápido, imediato e competitivo. Está mais mercantil, mais marcado pela notícia que "vende". Os meios de comunicação desesperam por audiências e receitas, é um problema de sobrevivência. E, por isso, o critério que vai imperando, em muito do que se publica, é o do apelo imediato, o que fomenta ou tira partido de estados de alma. Sendo que o que cativa mais instantaneamente é o que apela mais imediatamente às emoções mais básicas das pessoas.

Hoje um jornal tem uma notícia de dois bilhetes oferecidos pelo presidente de um clube a um ministro e outra de um benefício fiscal concedido ao filho do presidente desse clube e publica logo. O jornal tem um "caso", basta juntar água a ferver. Não é evidente a ideia de que pode haver corrupção ou favor, mas há uma sugestão suficiente de marosca e, portanto, há um “caso”. E como há um "caso", vai tudo atrás: rádios, televisões, os outros jornais (até os de "referência"), sites e redes sociais. Não importa se a cedência de bilhetes a um ministro é normal, por razões de segurança. Isso não é verificado nem tido em conta, antes de publicar. Também não importa ir ver, antes de publicar, se o dito benefício fiscal não passa, afinal, de uma simples isenção automática de pagamento. Muito menos importa considerar, logo à partida, pouco provável que um ministro se venda por dois bilhetes para a bola. Só importa o "caso", a sugestão de marosca.

É um quadro em que sobra cada vez mais para os leitores, espetadores e ouvintes a missão de escrutinarem as notícias, um papel que os jornalistas vão tendo uma cada vez maior dificuldade em desempenhar, porque estão, mais do que ninguém, sujeitos à voragem informativa. Navegar sem bússola nestes mares revoltos é que é de todo desaconselhável, para não andar ao sabor do que vai sendo impingido, numa altura em que muito do que chega é mera desinformação, manipulação ou informação incompleta, mal trabalhada, que procura apenas fazer-se notar.

A iniciativa do Centro Internet Segura é, por isso, muito louvável, num tempo em que as próprias instituições – das quais se espera, por princípio, um maior discernimento e critério quando analisam informação – parecem, por vezes, também elas, precisar de reaprender essa noção básica segundo a qual é preciso olhar para as coisas com sentido crítico. Veja-se como o Ministério Público correu a abrir um processo que envolveu o ministro Centeno baseando-se no que leu nos jornais, e como teve de arquivar esse absurdo dias mais tarde, sujeitando-se à humilhação e ao desprestígio. O desnorte face à algazarra mediática é geral.

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