Paulo Dentinho

O refugiado

Navegou, ou assim se supõe, durante vários meses. Não sabia muito bem onde estava, nem estaria mal nem bem - aliás, sobre isso ele nada consegue dizer. O certo certo é ter chegado num dia qualquer, num ano qualquer. Estava esgotado e mal conseguia articular um som que fosse. Alguém lhe bateu e ele berrou.

Os dias, meses e anos seguintes não foram fáceis. Teve de se adaptar a uma realidade que lhe era absolutamente desconhecida.


Apreendeu a língua e os costumes. Foi-se integrando o melhor que pode. Nem sempre foi fácil. Enfrentou a desconfiança e a rejeição de uns, a animosidade de outros. Sentiu sempre estar a viver um tempo emprestado num lugar emprestado.

Ocasionalmente, sentiu a solidariedade sob diversas formas, a mão amiga que não fica indiferente ao outro. Sim, ele sempre foi outro num mundo de outros. Todos diferentes, todos estruturalmente idênticos também, porque todos humanos. 

E foi num dia assim, cheio de humanismo, de amor pelo próximo, que também ele decidiu ser pai e trazer um outro refugiado para a vida. Porque somos todos refugiados num tempo do Tempo, seja por uma sempre desconhecida razão filosófica, por um sortilégio da natureza ou por uma qualquer graça de um Deus qualquer. 

E seja onde for onde estejamos, deveríamos ser sempre livres e iguais em dignidade e direitos.

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