Ricardo Alexandre

África made in China ou China made in África

Primeiro, as mudanças a Oriente. A China conseguiu tirar mais pessoas da pobreza, nomeadamente da pobreza extrema, do que qualquer país no mundo. 800 milhões, congratulava-se o presidente Xi Jinping, na cimeira dos G20 no ano passado, melhorando o rendimento disponível de 1.3 mil milhões, um feito sem precedentes na história da Humanidade, segundo o líder chinês.

O rendimento per capita quintuplicou entre 1990 e 2000, e o mesmo aconteceu entre 2000 e 2010, fazendo o país juntar-se ao lote dos países de rendimento médio. Em 1981, 890 milhões de pessoas viviam com menos de 1.90 dólares por dia (88% da população), em 2010 eram apenas (com o que de "apenas" os números vindos deste país possam ter) 150 milhões (11% da população).

Três quartos da redução da pobreza mundial entre 1990 e 2005 devem-se à China e só assim foi possível ao mundo cumprir os objectivos de desenvolvimento do milénio, nesta matéria, traçados pela ONU. Isto não pode ser dissociado da dimensão demográfica da nova super-potência, claro está, mas também da rápida expansão do mercado de trabalho, fruto do investimento estatal que passou por subsídios para a instalação de populações deslocadas de zonas rurais ou pela transformação radical dessas zonas. Tudo isto faz com que a mão-de-obra chinesa já não seja tão barata como era. É certo que o país ainda enfrenta problemas de pobreza consideráveis e uma profunda disparidade entre os rendimentos das populações urbanas (em média 29,831 yuan anuais, ou seja, cerca de 3800 euros... por ano!) e os das populações rurais (9,892 yuan, menos de 1300 euros anuais), mas para os padrões globais, a mão-de-obra chinesa já deixou de ser das mais baratas do mundo, sendo apenas 4% mais barata que a dos EUA de acordo com dados da Oxford Economics, divulgados no ano passado, quando a produtividade é tida em conta; isto é, na China os salários subiram mais rapidamente que a produtividade, enquanto que em países como os Estados Unidos e a Alemanha, os ganhos em produtividade (e os aumentos salariais modestos, quando os há, já agora) fazem o custo do trabalho permanecer mais baixo.

Mas as empresas chinesas já descobriram onde podem encontrar aquilo que sempre procuram (e não só os chineses): mão-de-obra barata. Temos então... África Made in China. Números que leio na edição em papel do East African (obrigado pelo souvenir, Pedro Matos) dão que pensar. A República Popular da China já é o maior parceiro comercial de África, ao nível dos investimentos, financiamento de infraestruturas e ajuda ao desenvolvimento. As trocas comerciais entre a China e o continente africano crescem a um ritmo de 20% ao ano desde o ano 2000, de acordo com números do relatório "dance of the Lions and Dragons", publicado no início do mês pela consultora Mckinsey.O investimento direto externo chinês em África cresceu ainda mais: a um ritmo médio anual de 40%.

Os três maiores investimentos do leste de África são total ou parcialmente financiados por Pequim: a barragem Grand Renaissance na Etiópia (mais de 4 mil milhões de dólares), a linha ferroviária Mombassa-Nairobi no Quénia (3.8 mil milhões) e a hidroelétrica karuma no Uganda (mais de 2 mil milhões).

Ouvíamos dizer há uns anos que os chineses investiam em África mas não criavam emprego porque levavam para África força laboral chinesa. Isso não é bem assim. Afirma a Mckinsey (não há estudos desinteressados, é certo) que há mais de dez mil empresas chinesas a operar em África, que já são responsáveis por doze por cento da produção industrial do continente, sendo que 89% dos empregados das empresas chinesas em África são... locais, isto é, cidadãos dos países onde os chineses investem.
O mundo está a assistir a uma grande transferência de empregos de manufatura de baixo custo da China para a África e isso vai ter um impacto global nas próximas décadas. China Made in Africa.

A informação mais vista

+ Em Foco

Em 260 episódios, o projeto chegou às mais diversas áreas: saúde, engenharias, astronomia, tecnologia, química, história, filosofia, desporto ou geografia.

Foi considerado o “pior dia do ano” em termos de fogos florestais, com a Proteção Civil a registar 443 ocorrências. Morreram 45 pessoas. Perto de 70 ficaram feridas. Passou um mês desde o 15 de outubro.

    Todos os anos as praias portuguesas são utilizadas por milhões de pessoas de diferentes nacionalidades e a relação ambiental com estes espaços não é a mais correta.

      Uma caricatura do mundo em que vivemos.