Inquietações

Dizem muitos que o Estado islâmico – Daesh - foi derrotado na Síria e no Iraque. São, de facto, indesmentíveis os ganhos militares, no terreno, das forças multinacionais lideradas pelos Estados Unidos, nomeadamente na região de Afrin, junto à fronteira com a Turquia. Para tal contaram com a ajuda decisiva do YPG, as unidades de proteção curdas, agora abandonada pelos mesmos ocidentais às mãos da ofensiva da Turquia de Erdogan, remetendo cada vez mais para as calendas o sonho de um Curdistão livre e soberano. Mas a aparente derrota do ISIS (Daesh) não livra o Médio Oriente do jihadismo militante e terrorista, nem da multiplicação de fações rivais, nem da vulnerabilidade económica estrutural, nem da interferência das potências regionais, como a citada Turquia, ou a Arábia Saudita de bin-Salman e o Irão de Rohani, cada qual a modernizar o respetivo país, mas sem deixar de prosseguir o registo de proxy war que, por estes tempos, vai atirando o Iémen para as trevas.

Na Síria, Assad, com ajuda decisiva da Rússia e, em certa medida, dos iranianos, está a vencer, logo numa posição negocial (quando as houver, as negociações) que não vai ser propriamente a de quem aceita um acordo imposto por forças exteriores vitoriosas; Damasco vai, quando muito, aceitar aquilo que lhe for proposto por Moscovo. O regime acaba de vencer a guerra em Ghouta Oriental, o maior sucesso militar desde a reconquista de Aleppo em 2016. Os grupos derrotados, do Jaysh al-Islam, financiado por sauditas ao Failaq al-Rahman, foram corridos para norte, junto à fronteira turca. A norte, Idlib vai ser a próxima, provavelmente a última, grande batalha em território sírio, na guerra civil que começou há sete anos como legítima aspiração de jovens de Deir-ez-Zor, na parte oriental do país, nas margens do Eufrates.

Será igualmente importante perceber até que ponto, a perda militar do Daesh não significará uma recomposição do grupo através de um processo de fragmentação estratégica e, sobretudo, uma recomposição, em termos de recuperação de influência, da própria al-Qaeda – através de movimentos regionais afiliados – para quem a questão do domínio territorial nunca foi marca identitária? O jihadismo mais contido em dimensões locais e regionais não deixa de ser positivo para os EUA e aliados, o que não quer dizer que esses grupos não estejam a ganhar força.

As opiniões públicas de muitos países que sonharam com uma primavera de direitos e liberdades e prosperidade, apresentam níveis de rejeição muito consideráveis em relação àqueles que os governam. A Tunísia vai sendo, mais a ocidente e apesar de tudo, uma exceção.
Um pouco por todo o Médio Oriente, uma profunda insatisfação grassa numa geração que foi crescendo habituada a um certo nível de bem-estar e serviços sociais, mas que se vê confrontada com menos oportunidades e proveitos económicos que os seus pais, os da geração do petróleo caro. Sem a ameaça do Daesh, que justifica(va) determinadas opções securitárias, a legitimidade dos regimes vai ser crescentemente posta em causa.

Com uma Rússia que, pela força, tenta reganhar espaço e marcar posição nas decisões políticas no seu desejado espaço de influência alargado, que lhe permita ser tratada como superpotência que, de acordo com indicadores económicos, já não o é; com os Estados Unidos da América reféns de uma liderança tão incapaz quanto errática, tão egocêntrica quanto misógina, tão imprevisível quanto irresponsável, e sobretudo demissionários do papel histórico de mediadores no conflito israelo-árabe após a proclamação de Jerusalém como capital do estado judaico; com uma Europa diplomaticamente ausente das grandes decisões na região; sem vontades conjuntas para uma espécie de Plano Marshall regional ou uma união económica do Médio Oriente, talvez reste a estes povos esperar o que ali possa chegar da Nova Rota da Seda, One Belt One Road, o plano chinês que visa aumentar a preponderância da China a nível global e que passa por um gigantesco projeto de infraestruturas que vai beber inspiração às antigas rotas comerciais entre a Ásia e a Europa. Em tudo na vida, há um preço a pagar. Mas para quem já pagou tanto e tão pouco teve…

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