Ricardo Alexandre

Inquietações

Dizem muitos que o Estado islâmico – Daesh - foi derrotado na Síria e no Iraque. São, de facto, indesmentíveis os ganhos militares, no terreno, das forças multinacionais lideradas pelos Estados Unidos, nomeadamente na região de Afrin, junto à fronteira com a Turquia. Para tal contaram com a ajuda decisiva do YPG, as unidades de proteção curdas, agora abandonada pelos mesmos ocidentais às mãos da ofensiva da Turquia de Erdogan, remetendo cada vez mais para as calendas o sonho de um Curdistão livre e soberano. Mas a aparente derrota do ISIS (Daesh) não livra o Médio Oriente do jihadismo militante e terrorista, nem da multiplicação de fações rivais, nem da vulnerabilidade económica estrutural, nem da interferência das potências regionais, como a citada Turquia, ou a Arábia Saudita de bin-Salman e o Irão de Rohani, cada qual a modernizar o respetivo país, mas sem deixar de prosseguir o registo de proxy war que, por estes tempos, vai atirando o Iémen para as trevas.

Na Síria, Assad, com ajuda decisiva da Rússia e, em certa medida, dos iranianos, está a vencer, logo numa posição negocial (quando as houver, as negociações) que não vai ser propriamente a de quem aceita um acordo imposto por forças exteriores vitoriosas; Damasco vai, quando muito, aceitar aquilo que lhe for proposto por Moscovo. O regime acaba de vencer a guerra em Ghouta Oriental, o maior sucesso militar desde a reconquista de Aleppo em 2016. Os grupos derrotados, do Jaysh al-Islam, financiado por sauditas ao Failaq al-Rahman, foram corridos para norte, junto à fronteira turca. A norte, Idlib vai ser a próxima, provavelmente a última, grande batalha em território sírio, na guerra civil que começou há sete anos como legítima aspiração de jovens de Deir-ez-Zor, na parte oriental do país, nas margens do Eufrates.

Será igualmente importante perceber até que ponto, a perda militar do Daesh não significará uma recomposição do grupo através de um processo de fragmentação estratégica e, sobretudo, uma recomposição, em termos de recuperação de influência, da própria al-Qaeda – através de movimentos regionais afiliados – para quem a questão do domínio territorial nunca foi marca identitária? O jihadismo mais contido em dimensões locais e regionais não deixa de ser positivo para os EUA e aliados, o que não quer dizer que esses grupos não estejam a ganhar força.

As opiniões públicas de muitos países que sonharam com uma primavera de direitos e liberdades e prosperidade, apresentam níveis de rejeição muito consideráveis em relação àqueles que os governam. A Tunísia vai sendo, mais a ocidente e apesar de tudo, uma exceção.
Um pouco por todo o Médio Oriente, uma profunda insatisfação grassa numa geração que foi crescendo habituada a um certo nível de bem-estar e serviços sociais, mas que se vê confrontada com menos oportunidades e proveitos económicos que os seus pais, os da geração do petróleo caro. Sem a ameaça do Daesh, que justifica(va) determinadas opções securitárias, a legitimidade dos regimes vai ser crescentemente posta em causa.

Com uma Rússia que, pela força, tenta reganhar espaço e marcar posição nas decisões políticas no seu desejado espaço de influência alargado, que lhe permita ser tratada como superpotência que, de acordo com indicadores económicos, já não o é; com os Estados Unidos da América reféns de uma liderança tão incapaz quanto errática, tão egocêntrica quanto misógina, tão imprevisível quanto irresponsável, e sobretudo demissionários do papel histórico de mediadores no conflito israelo-árabe após a proclamação de Jerusalém como capital do estado judaico; com uma Europa diplomaticamente ausente das grandes decisões na região; sem vontades conjuntas para uma espécie de Plano Marshall regional ou uma união económica do Médio Oriente, talvez reste a estes povos esperar o que ali possa chegar da Nova Rota da Seda, One Belt One Road, o plano chinês que visa aumentar a preponderância da China a nível global e que passa por um gigantesco projeto de infraestruturas que vai beber inspiração às antigas rotas comerciais entre a Ásia e a Europa. Em tudo na vida, há um preço a pagar. Mas para quem já pagou tanto e tão pouco teve…

A informação mais vista

+ Em Foco

Em 9 de abril de 1918, a ofensiva alemã varre a resistência portuguesa. O dossier que se segue lança um olhar sobre o antes, o durante e o depois.

    Em Cuba, os Castro passam o testemunho do poder, que mantiveram durante quase 60 anos.

    Porto Santo tem em curso um projeto para se transformar na primeira ilha do planeta livre de combustíveis fósseis.

    Uma caricatura do mundo em que vivemos.