Teresa Nicolau

Eu é que nunca quis ser doutor

Havia um senhor no escritório do fundo, onde o meu pai trabalhava, que tinha uma secretária arrumada e um relógio de parede. Uma cadeira de pau e uns tinteiros feitos de ferro. Esse senhor era muito importante. Era um senhor que era de boas famílias e era doutor e isso era coisa que nunca queria ser. Podia ficar velha como ele e ficar fechada naquele lugar das estantes cinzentas e perfeitas, dos livros das contas, entre o deve e o haver, que a menina Alice e a sua irmã pegavam para desenhar cuidadosamente números de balanços e existências. Um dia, o senhor doutor desapareceu. E eu achei que só podia ser um segredo, isso de sair do mundo e permanecer no mesmo lugar. Porque ninguém me contava onde tinha ido, mas tudo estava arrumadinho e sem ninguém lhe mexer. Isso era ser doutor? E doutor, é que não queria ser.

No mundo em que vivia, o futuro tinha fins e preditos. Horizonte de ali mesmo, pertinho de casa, mesmo ao lado do campo da bola e antes de chegar à estação de comboio. Não se permitia a ir mais longe. E eu queria ser peixeira, como a menina Alice do mercado porque ela era a pessoa mais feliz que eu conhecia e tinha sempre um sorriso gritado de alegria e braços de dar sem suspiros. Queria ser peixeira porque as manhãs frescas e corridas em que a minha mãe me levava para o mercado, tinham o cheiro da fruta e peixes de olhos brilhantes. Ali, era pequenina e todos me davam beijos e danças e bananas e outras flores. Depois fui para a escola primária e acabou-se. E comecei a ler.

Desde 1974, que o nível de escolaridade do país subiu consideravelmente. Deixámos de ser um país de analfabetos (mas ainda existem), a minha geração teve mais acesso à universidade e o sonho de qualquer pai/mãe era poder colocar no/a filho/filha, o rótulo de doutor/a. Uma espécie de caminho para a felicidade. Passou a ser uma geração (em generalização, só para dramatizar um pouco mais) que exigia ser tratada com o devido grau académico, como se tivesse nascido assim. Umas teimas de manias e uns cartões de cargo estampado. Andou-se por uma via direta à ilusão, de que o emprego seria fácil (e foi, durante uns tempos). O nível de escolaridade acompanhou um crescimento civilizacional que só esta geração pode perceber. Entre uma democracia já nascida e a miséria que foi deixando as botas, fomos testemunhas de acontecimentos como a chegada da luz à aldeia dos avós e as viagens “low-cost” que nos levam a qualquer canto do mundo. Vinte anos depois de ter concluído a minha licenciatura, vê-se um país. A crescer. E os doutores, senhores únicos e distantes, deixaram de estar fechados em escritórios silenciosos.

Mas ainda falta muito. À conta desses vinte anos, faltam ainda mais cinquenta. Mais precisamente “48” (lembrando o documentário da realizadora Susana Sousa Dias sobre a tortura no tempo da ditadura do Estado Novo). Aqueles 48 anos que nos tiraram. A nós, povo inteiro, que só queria construir o país. E a verdadeira transição vai acontecer quando formos seres conscientes da sorte chamada Liberdade. Temo que a nova geração (e generalizo outra vez, para dramatizar ainda mais), mesmo com tantas dificuldades em ter trabalho digno e justo, não entenda o verdadeiro significado do Futuro. O Futuro que só acontece uma vez e que só é o que desejarmos. O medo, o medo é só uma forma de controlo dos que andam por aí a pensar em tudo menos no Futuro. Uma forma de dominarem esta geração cheia de vida e ideias, de maravilhas e iluminações. O medo é apenas uma armadilha. Para vos controlarem. A vós, geração magnífica, cheia de Futuro. Acreditem. A mim, quase que não deixavam. Eu, que nunca quis ser doutor.

Nota:
o Estado vai contratar cinco mil investigadores doutorados, pessoas da ciência e do pensamento. Pode ser que assim um destes dias a minha filha volte para casa. Assim se faz um país.

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