Teresa Nicolau

O interessante caminho do segredo

Quando cheguei, não tinha os pés no mesmo lugar. O que era de mim, estava apenas transportado, como carga a que só se exige movimento. Porque já não seria a mesma, nem um resto. À África que me descobriu, devo um tudo.

A natureza da solidão tem uma luz hipnotizante. Sei disso desde pequena. Da preferência, eram os filmes que me acompanhavam, nesses rasgos desconhecidos do mundo. O encantamento chegava a demorar até de madrugada, por imagens demasiado crescidas para a idade, mas o subtil gesto do silêncio entregava permissões de envelope fechado.

O segredo, nem era ter a TV ligada sem a mãe saber. Tinha a preparação, a paciente espera, a ansiosa emoção. Se nada fazia sentido, nem as ruas nem as pessoas nem os gritos nem as mortes nem as tristezas e as amarguras e a crueldade e a casa fria feita da garagem da velha rica que cheirava sempre a torradas com manteiga, havia sempre sentido nas semelhanças com as lágrimas de Dorothy e com as assustadoramente belas Áfricas de Rose. Dos filmes “The Wizard of Oz” (1939) e “The African Queen” (1951) guardo tantas mensagens.

Quando viajei para a Guiné Bissau, já tinha feito umas quantas chegadas a outros países africanos. Mas esta descoberta foi avassaladora. Não se demarcava por diferenças, mas por identidades e histórias e palavras e cores e aromas e ventos. E cinema. O cinema que vi antes de chegar e o Flora que tem o melhor dos abraços. Flora Gomes é um dos meus cineastas preferidos e tenho muitas saudades dele. Dele e das suas alegorias de um país sempre à procura. E da obra cinematográfica que nos dava o desencanto mas também as alegrias, as melhores das paisagens e das casas e das mulheres. O seu olhar tem cravada a sabedoria que se conta na beira da estrada ou no caminho. Entre apresentações e outras solenidades obrigatórias, surgiu o meu.

Uma ida aos Bijagós. A viagem com destino, que não tinha meio de ir. Os lugares dos jipes estavam ocupados. Restava uma carrinha de caixa aberta, com uns bancos de madeira e calor em frente. Lá fomos, agarrados aos bocados, entre cada um. E chegou, outra vez, essa luz. A da descoberta e da maravilha, da surpresa em queda. Atravessar a terra vermelha e cheia, e os pássaros negros e os aromas a doce. As lágrimas velozes. As mesmas da casa que era uma garagem com cozinha no quintal, junto ao tanque cheio de frio e de sabão.

Porque chorar é isto e mais do que apenas. Como se fosse o segredo do mundo. A experiência de iluminar a vida que ganha mapa e sentido. Quando se atravessa esta África, aprende-se um código novo. Que só se reconhece em quem também fez o mesmo caminho. De carrinha de caixa aberta ou de pé na pedra do Cabo que tem nome de Esperança ou na rua de Dakar de vestido amarelo. Um dia, volto à Guiné. E a abraçar o Flora.

Descoberto o segredo a cada silêncio e solidão, continua interessante este caminho.

NOTAS:

“The Wizard of Oz” (1939) realização de Victor Fleming
“The African Queen” (1951) realização de John Huston
“África, os Quatro Rios: A representação de África através da literatura de viagens europeia e norte-americana”, de António Pinto Ribeiro Ed.Afrontamento (2017)

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