Teresa Nicolau

Ter os desgostos da vida desenhados nos pés

Tive a lembrança de olhar para as memórias dos pés, enquanto lia uma entrevista dada pelo artista Julião Sarmento. Não que sejam os pés coisa de dizer tudo das pessoas e pegar por ali a vida. Mas aos pés que cada pessoa olha, é avanço de verdade que a arte é a única que sabe. Sobre o que faz, diz Sarmento ser “um exercício de intimidade”.

O costume de olhar para os pés tem começo por umas estátuas carcomidas pelo tempo do jardim atrás do edifício da Câmara. Entre as sebes que se queriam labirintos de alices e as andorinhas de voos tão altos que só dava para as querer perseguir, os pés estavam ali, ao nível dos olhos e das mãos. E tocar os pés das estátuas passou a ser como entender os mimos e os choros, umas histórias secretas, que só por acaso, se ouviam por dentro. Dentro de uma menina de cabelos compridos que não os sabia pentear e que por isso a professora tanto ralhava nas manhãs da escola fria, tão assustadora como maravilhosa, onde a esquerda era lembrada pelas janelas da rua e a direita pela parede escura. E nunca mais me enganei.

Mal sabia ler, quando tentei perceber que estátuas eram aquelas. Ásperas e majestosas, entre a imortalidade de sem nome e os sinais de exposição permanente, as estátuas vieram para a sala de aula, para dizer da Primavera. Uma delas, era a Primavera. E a professora, que me ralhava todos os dias porque não penteava os longos cabelos loiros que a minha mãe tanto queria cortar e que o meu pai tanto queria deixar, a professora contou das estátuas que se faziam para dar a conhecer pessoas e as homenagear, entre os factos das Histórias e as histórias de imaginar. A Primavera era então uma pessoa que tinha pés gastos e sorriso dorido. Mesmo de flores a enfeitar e mãos entretidas a dar, a Primavera era pessoa de não ser feliz. Tinha sido. Mas já não era.

De poucas palavras ainda, porque só sabia ler desde o Natal, não conseguia encontrar a maneira certa de pensar sobre aquela pessoa de pés nus. Tive então de a encontrar num filme que deu RTP. Uma história de amor e um beijo no meio das ondas. E reparei nos pés de uma senhora que dizia que estava muito apaixonada e sabia disso porque tinha aprendido a ler nas legendas da televisão branca da Phillips que a minha tia tinha trazido à minha mãe da Alemanha Federal onde trabalhava e onde até havia barbies e chocolates que eram brancos, com recheio de morango que picava na língua. Nesses pés dessa senhora, descobri o que era uma felicidade porque eram assim de se ver e de não se ter vergonha. Mas a história até acabou muito mal, com uma guerra a começar e muitos aviões pelo ar.

E aquela senhora, linda e terrivelmente triste, que me fez chorar, ficou a ser a pessoa da minha Primavera, pelos seus pés que se mostravam. E todos nus. Ficou a ser um dos filmes da minha vida, sem saber como se chamava, esse da senhora linda triste. Como a minha Primavera.
Notas

  • O filme chama-se “From here to Eternity”, de 1953, realizado por Fred Zinnemann e protagonizado por Deborah Kerr e Burt Lancaster;
  • A entrevista a Julião Sarmento está no livro “Julião Sarmento: O Artista Como ele é: conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro”, numa edição Atelier-Museu Júlio Pomar, 2016.

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