P53, agente duplo

por Sérgio Alexandre - RTP

Ao longo dos últimos 40 anos, a proteína P53 vem sendo considerada como a principal ferramenta do organismo no combate aos tumores. Uma nova investigação, conduzida na Fundação Champalimaud, alega que a P53 é capaz de se virar contra o doente, o que poderá implicar uma reformulação das estratégias de tratamento.

O estudo inovador, hoje publicado na Nucleic Acids Research, da Universidade de Oxford, defende que, em determinadas condições, a P53 funciona como um agente duplo, isto é, passa de adversário a aliado do tumor, ajudando-o a crescer e a resistir ao tratamento.

Isso acontece quando, num ambiente de hipoxia (défice de oxigénio) em tumores sólidos (compactos), a P53 sofre uma alteração molecular que a leva a desistir da sua missão original – a luta contra as células cancerígenas - e a “passar para o outro lado da barricada”. Nessa altura, assume a função de colaborador na propagação das células doentes e acaba por ter um papel fundamental na resistência ao tratamento, porque as áreas menos oxigenadas do tumor apresentam elevados índices de resistência à quimioterapia e à radioterapia.

A conclusão a que chegou a equipa liderada por Rajan Gogna, da Fundação Champalimaud, em colaboração com investigadores de várias instituições internacionais, representa algo que a comunidade científica nunca tinha considerado, até agora.

O impacte desta descoberta poderá implicar uma significativa alteração na abordagem terapêutica, já que o tratamento convencional é desenhado tendo em conta que a P53, quando não sofre mutação, desempenha sempre um papel favorável à recuperação do paciente. “Demonstramos que não é esse o caso”, assegura Rajan Gogna. Esteja na sua condição natural ou tendo sofrido mutação, “a P53 deve ser vista como um fator contribuidor para um mau desfecho”. Mais importante do que verificar a presença desta proteína num tumor sólido é “confirmar se existem áreas tumorais com hipoxia. Nesse caso, será necessário adotar estratégias de tratamento diferentes e mais agressivas” para combater a doença, explica o cientista.

Estas conclusões resultam de uma investigação efetuada em tecidos manipulados em ambiente laboratorial, mas Rajan Gogna estima que “em três a cinco anos”, a comunidade científica terá sido capaz de testar estas novas hipóteses em modelos animais de tumores sólidos. E, apesar de ser impossível impedir a atividade da P53 nas células tumorais, “estamos a tentar descobrir estratégias que inibam a interação” com os fatores de indução de hipoxia (HIF, na sigla em inglês), que são os responsáveis pela mutação maligna da proteína, revela o investigador da Champalimaud.

Gogna afirma ainda que a aplicação prática desta “grande descoberta feita em Portugal” não se circunscreve necessariamente à área do cancro. Por exemplo, no enfarte do miocárdio ou no tecido cerebral afetado por AVC também existem tecidos com défice de oxigenação. Só que, nestes casos, a hipoxia funciona em benefício do paciente, porque conduz à angiogénese (criação de novos vasos sanguíneos) na área atingida.

Até agora, a comunidade médica pensava que a presença da P53 nessas regiões pouco oxigenadas é prejudicial à recuperação dos tecidos afetados mas, “na verdade, ajuda os HIF na angiogénese e na função protetora” contra essas doenças.