Plantação fictícia. Artista angolano evoca escravatura em Lisboa

por Inês Moreira dos Santos - RTP
Kiluanji Kia Henda/DR

Com a cultura intensiva da cana-de-açúcar e da exploração lucrativa desta matéria-prima, foi impulsionado o comércio transatlântico de escravos. No século XVII, quase 10 por cento da população em Portugal era de origem africana e Lisboa tornou-se um dos maiores portos de escravos do mundo. Nesta primavera, o Campo das Cebolas vai transformar-se numa plantação fictícia de 540 canas-de-açúcar, em memória e homenagem a todas as pessoas escravizadas na época colonial.

Poucas são as referências explícitas, monumentos ou memoriais em Portugal sobre o papel pioneiro dos portugueses no tráfico transatlântico de escravos. Mas a História fala por si, e pelos milhões de pessoas que foram retiradas das suas terras, mal-tratadas, vendidas e usadas como objetos, entre os séculos XV e XIX.

Para Portugal, como um dos impulsionadores do comércio de escravos, é um desafio ainda hoje abordar esta página da História.

O artista angolano Kiluanji Kia Henda veio para Portugal com a tarefa e o desafio de criar um memorial em homenagem às vítimas da escravatura: "Houve um silenciamento de séculos de violência e traumas", disse em entrevista ao Aljazeera.

"Plantação – Prosperidade e Pesadelo", foi o projeto escolhido para se tornar no futuro memorial do Campo das Cebolas, em Lisboa, que vai ser inaugurado nesta primavera.

Trata-se de uma plantação fictícia de 540 canas-de-açúcar com três metros de altura cada, feitas em alumínio preto e separadas por 1,5 metros entre si. No meio, existirá uma zona mais folgada da plantação com um anfiteatro semi-circular em betão, um ponto de encontro que também servirá para eventos culturais, como música, teatro, leituras ou diálogos académicos.

O projeto promovido pela Câmara Municipal de Lisboa e apresentado pela Djass-Associação de Afrodescendentes, pretende homenagear as vítimas da escravatura e, ao mesmo tempo, celebrar a sua abolição e o fim do tráfico de pessoas escravizadas.

Ainda não há data específica para a inauguração, mas o artista afirmou esta semana, através do Instagram, que já está "no processo de construção" e espera, por isso, que o projeto esteja "concluído em breve".

Na mesma publicação, Kia Henda escreveu que "foi uma grande honra conceber o Memorial das Vítimas da Escravatura em Lisboa, proposto pela DJASS - Associação Afrodescendente".
"Reconciliação com o passado"
O principal objetivo da edificação deste memorial "é prestar tributo à memória dos milhões de africanas e africanos escravizados por Portugal ao longo da sua História, nomeadamente entre os séculos XV e XIX", descreve o projeto na página oficial do Memorial da Escravatura.

É assim, "uma homenagem às vítimas e resistentes de ontem e de hoje, que pretende promover o reconhecimento histórico do papel de Portugal na Escravatura e no tráfico de pessoas escravizadas e evocar os legados desse longo período na sociedade portuguesa atual, desde a rica herança cultural africana às formas contemporâneas de opressão e discriminação".

O artista revelou, numa entrevista à Lusa, que idealizou uma plantação com 540 canas-de-açúcar fictícias, onde os visitantes poderiam sentar-se "para contemplar e refletir sobre o monumento, ou para apresentar eventos culturais".

Para Kiluanji Kia Henda a "reconciliação com o passado" da escravatura no império colonial português "só pode acontecer se primeiro forem reconhecidos os erros" desse "trágico período histórico", que remonta à época dos Descobrimentos.

Para o artista angolano, "o mais importante é a consciencialização das pessoas sobre essa parte da História de Portugal, de forma a não cair numa amnésia coletiva. Cabe ao Estado português a proteção dessa memória, e a sensibilização das pessoas para que seja respeitado" o monumento.

"O memorial vai confrontar-nos com um período histórico trágico e catastrófico que não pode cair no silêncio", admitiu o artista de 41 anos, sugerindo que outras iniciativas públicas deveriam avançar no sentido de projetar luz sobre o passado, nomeadamente no conteúdo dos manuais escolares, "porque os portugueses estiveram diretamente envolvidos no tráfico de escravos, e é preciso dizer e escrever manifestamente que foi errado".

"Não se pode fingir que não aconteceu nada. Portugal deve confrontar-se com a sua História, e acabar com as omissões e os subterfúgios sobre esta questão, elevando os sentimentos de amor ao próximo e de respeito", apelou, sublinhando que o trabalho que está a fazer com o monumento "é simbólico" e, na sua qualidade de artista, prestou-se a pensar e criar um projeto "que pudesse unir um propósito de reflexão e meditação".

Contudo, Kia Henda reconhece que mesmo a escravatura, como qualquer facto do passado, é importante para a construção do mundo dos dias de hoje, para a consciencialização dos erros que não se podem repetir.

"O mundo moderno não existiria se não fosse pela escravidão”, afirmou a Aljazeera. "A modernidade que vemos aqui foi construída nas costas dos negros. É importante que haja consciência disso".
Campo das Cebolas: um mercado de escravos

A ideia inicial para a edificação deste Memorial da Escravatura era que ficasse instalado na Ribeira das Naus, mas acabou por ser escolhido o Campo das Cebolas por este, em tempos, ter sido um dos locais onde funcionava um mercado de escravos.

Ao apresentar o projeto, o artista propôs-se narrar "o vínculo histórico entre monocultura e escravidão, num monumento que trata da relação entre o excesso de riqueza e a exploração desumana da vida", num "lugar de memória, aberto à reflexão". Mas, com a instalação da "Plantação - Prosperidade e Pesadelo", Kia Henda pretende também resgatar a memória apagada da escravidão.

Para Kiluanji, levar a cabo este projeto "foi uma alegria, mas também uma grande responsabilidade".

"É uma responsabilidade muito pesada, porque sei que vai ter um impacto na sociedade quando for concretizado".

O artista angolano ressalva, contudo, que este processo ligado ao passado, não tem a ver com culpabilização: "O que se pede é empatia e reflexão porque o tráfico de pessoas continua a existir hoje, em todo o mundo, até mesmo na própria Europa".
Memorial da Escravatura

"O memorial representa simbolicamente uma plantação de luto pelas vítimas da escravatura. Será uma plantação metálica, estéril, com uma leitura vertical, que nos remete para um passado trágico, mas também para um futuro próspero", descreveu o artista, nascido em Luanda em 1979, e que em 2017 venceu o Prémio Frieze da feira londrina de arte.

Para o criador angolano, este monumento tem múltiplas dimensões: "Tem nele o luto e a dor, mas também aponta para a esperança em dias melhores. Há nele dor e tragédia, mas também há uma porta aberta para um futuro melhor".

"Plantação – Prosperidade e Pesadelo" foi criado como "convite à reflexão" num espaço que reproduz a atividade económica da produção da cana-de-açúcar – há cinco séculos um bem de luxo, originário do sul da Ásia, que os Descobrimentos consagraram como mercadoria, num mercado global. Plantações, companhias, entrepostos, refinarias, depósitos e lojas foram criados em vários pontos do mundo, numa rede alimentada por rotas comerciais ativas entre os séculos XVI e XIX, baseados no trabalho de escravos, que se generalizou no império português, e só viria a ser abolido no início do século XIX.

Recuando uns séculos na História de Portugal, foi durante a época colonial que a cana-de-açúcar, de origem indiana, se tornou numa das matérias-primas mais procuradas para a produção de açúcar e álcool e os escravos, como mão-de-obra barata, foram fundamentais para uma exploração e produção lucrativa. Conhecida também como o ouro branco, esta planta rica em sacarose esteve nas origens do tráfico compulsório de escravos.

Foi na Ilha da Madeira que se deu início à exploração da cana-de-açúcar, com escravos originários das Canárias, de Marrocos, da Mauritânia e da África subsaariana. E, à medida que a produção se foi tornando mais lucrativa e os negócios do açúcar e do álcool iam crescendo, era necessário ter mais mão-de-obra.

Os escravos, por isso, começaram a ser também levados para o continente americano, nomeadamente para o Brasil. Começou então o grande ciclo de comércio transatlântico, uma união histórica entre a Europa, África e o continente americano, através da "rota triangular".

Na mesma época, a sociedade colonial portuguesa servia-se também dos escravos negros para trabalhos domésticos e que os colonizadores não queriam fazer.

É preciso recordar que este tráfico de escravos foi crucial para o desenvolvimento e crescimento económico de Portugal e do Brasil.

Mas, como o artista frisou na apresentação do projeto, "ficam por contar os desencontros e os cortes que o desaparecimento de homens e mulheres causou no continente africano".

"Ficam por dizer as histórias de famílias destruídas pela separação e o trauma que o presente ainda carrega sobre homens e mulheres que navegam no desconforto da memória que lhes é dada".

Por esses motivos, um memorial em homenagem às pessoas escravizadas "deve referir essa história que não se consubstancia apenas na escravatura, mas num passado anterior a isso, num legado e num conjunto de perdas pessoais, familiares e das comunidades a que estas pessoas pertenciam".

Este memorial pretende, assim, sublinhar o caráter económico da escravatura, ao mesmo tempo que permite que a contemplação resulte da própria experiência do espaço, no "local em que está implantando, trazendo à luz o lugar da escravatura no crescimento de Lisboa e do mundo diaspórico pela sua ligação ao mar".

Henda Kia tem vindo a pesquisar os temas da memória colonial e os seus símbolos, e também os movimentos migratórios globais, e usa habitualmente a fotografia, o vídeo, a instalação e a `performance` nos seus trabalhos, apresentados já em Angola, Portugal, França, Itália, Alemanha, Polónia, Brasil, Estados Unidos, Austrália e China.
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