Política
Greve geral alarga fosso entre Governo e sindicatos
O Governo “compreende a frustração dos portugueses” perante uma política de austeridade que “é penalizadora”, mas não admite qualquer inversão de rumo. Foi esta a posição assumida pelo ministro dos Assuntos Parlamentares no rescaldo da greve geral de quinta-feira. Ouvido pela RTP, Miguel Relvas vincou que, para o Executivo do PSD e do CDS-PP, “não há alternativa” a uma correção do “rumo que Portugal seguiu ao longo dos últimos anos”. CGTP e UGT discordam. Finda a paralisação, as centrais sindicais exigem que “o Governo mude o comportamento”.
Terminada a greve geral de 24 horas organizada pela CGTP e pela UGT, o Governo de Pedro Passos Coelho mantém intacta a sua cartografia política. Porque entende que “não há alternativa ao caminho” que está a ser seguido. Miguel Relvas respondeu assim, ontem à noite, aos apelos das centrais sindicais a uma mudança de rumo. Detidos frente ao Parlamento
Os sete manifestantes ontem detidos durante protestos na escadaria da Assembleia da República vão ser levados esta sexta-feira a tribunal, noticiou o Bom Dia Portugal.
Um grupo de manifestantes foi alvo de uma intervenção da polícia no termo da manifestação do dia da greve em Lisboa.
Várias pessoas deitaram por terra as barreiras erguidas pela PSP, tentando subir as escadas do Parlamento. As autoridades empurraram manifestantes e repórteres. Os incidentes causaram dois feridos ligeiros: um polícia e um jornalista.
O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, escusou-se a comentar os incidentes, assim como o impacto da paralisação. Já o ministro dos Assuntos Parlamentares afirmou à TVI que as situações de violência “não podem nem vão refletir aquilo que foi a greve geral”.
As centrais sindicais demarcaram-se. Carvalho da Silva vincava ontem que a CGTP “não teve nada a ver” com os confrontos, até porque “estas situações não favorecem os trabalhadores”. João Proença descreveu a greve como “um exemplo de civismo e responsabilidade” e reprovou “grupos que se aproveitam para tentar aparecer e provocar situações de conflitualidade”.
Em declarações à RTP, o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares afirmou que o Executivo até “deseja ouvir” os sindicatos. Mas fechou a porta a qualquer recuo na austeridade.
“Nós hoje sabemos que esta austeridade é penalizadora, que é muito difícil para alguns portugueses. Mas foi também por isso que, há pouco mais de dois meses, o Governo apresentou um plano de emergência social, para apoiar aqueles que mais necessitam e aqueles que são mais penalizados ao longo de todo este processo de recuperação do país”, sublinhou o governante.
Para se manifestar “profundamente convicto” de que “os portugueses também sabem que este caminho difícil é o caminho para a solução dos problemas a que chegámos e também a perspetiva que temos assumido, com muita clareza, de pedir mais sacrifícios àqueles que são os portugueses em melhores condições de poder responder”.
Depois de advogar a “justiça” das opções do Governo, Miguel Relvas frisou que o que se “exige a Portugal é que sejamos capazes de ultrapassar as dificuldades, sejamos capazes de gerar uma nova realidade e uma nova esperança no país e pôr a nossa economia a crescer”. “Enquanto não controlarmos a nossa dívida, enquanto não controlarmos a nossa despesa, não vamos ter a economia a crescer, não vamos poder combater o desemprego, que é a grande chaga com que nós somos hoje confrontados em Portugal e na Europa”, acrescentou.
O Governo, enfatizou ainda o ministro dos Assuntos Parlamentares, “tem cinco meses de mandato” e “tem assumido uma atitude e uma postura reformista, de alterar muitas das situações com que Portugal é hoje confrontado”: “Nós só teremos alternativa à situação delicada em que nos encontramos hoje se corrigirmos o caminho que seguimos ao longo dos últimos anos e os portugueses sabem disso. A austeridade tem que ser assumida como o caminho. E estas medidas reformistas, na Administração Central, na Administração Local e na Administração Regional, têm que ser vistas como caminho e a solução para o problema a que nós hoje chegámos”.
“O faz-de-conta da concertação social”
Enquanto as centrais sindicais instam o Executivo a pôr fim ao que dizem ser “o faz-de-conta da concertação social”, Miguel Relvas sustenta que tem sido dada “muita atenção” aos parceiros. “Nós queremos ouvir, sabemos ouvir e desejamos ouvir. Mas também sabemos que não temos alternativa às medidas que têm que ser tomadas. E o Governo tem tido uma grande participação na concertação social, tanto com os sindicatos como com os empresários”, arguiu o ministro no Telejornal.
“Nós sabemos que este é um tempo difícil e este tempo difícil exige concertação, exige serenidade, mas também todos sabemos que exige trabalho. Nós não vamos ultrapassar a situação a que chegámos sem muito trabalho”, insistiu.
Em flanco cada vez mais distante, os dirigentes das centrais sindicais consideram que a greve geral deveria levar o Governo a alterar “o comportamento na negociação coletiva, com sacrifícios equitativamente distribuídos”. Numa conferência de imprensa partilhada com Carvalho da Silva, ao final do dia de quinta-feira, o secretário-geral da UGT, João Proença, fazia questão de assinalar que, embora “uma democracia assente no voto periódico dos cidadãos”, não pode haver uma “ditadura da maioria”.
“O Governo de hoje é posso, quero e mando. Faz uma reestruturação no setor dos transportes sem dialogar com os sindicatos. Trata o setor empresarial do Estado como se pudesse dispor livremente. Quer alterar a legislação laboral. Não é aceitável esta situação”, frisou João Proença.
“Nova greve geral” é cenário em cima da mesa
Ambos os dirigentes sindicais leram a paralisação como um “êxito”, tendo mesmo “superado” a adesão à greve geral do ano passado. Ao mesmo tempo, acusaram o Governo de ter procedido a uma “manipulação” de números – ao final da manhã de ontem, o Executivo apontava para uma adesão de 3,6 por cento na Administração Pública, um balanço que seria atualizado para dez por cento pelas 18h00.
O secretário-geral da CGTP recusou, por outro lado, falar de uma “greve de funcionários públicos”: “Foi registada uma forte adesão no parque industrial de Palmela, na Corticeira Amorim, na Centralcer, na atividade portuária. Isto é a pequena dimensão da adesão do setor privado”.
Carvalho da Silva denunciaria ainda as práticas salariais do setor privado, ao afirmar que “antes os empresários diziam que o bom, o justo, era salários de base mais baixos e jogar com a remuneração variável” e que “agora, em nome da crise, estão a cortar isso tudo”. “Em média”, apontou o líder da Intersindical, “os trabalhadores do setor privado perdem mais de 25 por cento da sua retribuição”.
Carvalho da Silva e João Proença não descartam convocar mais uma paralisação. “Se o Governo nos empurrar, fazemos uma nova greve geral para defender a luta dos trabalhadores, mas não queremos a luta pela luta, queremos negociação”, propugnou o secretário-geral da UGT, acrescentando que a greve abriu “espaço à procura de uma maior unidade na ação”. O que, nas palavras de Carvalho da Silva, acontecerá com “conteúdos concretos”.
Os sete manifestantes ontem detidos durante protestos na escadaria da Assembleia da República vão ser levados esta sexta-feira a tribunal, noticiou o Bom Dia Portugal.
Um grupo de manifestantes foi alvo de uma intervenção da polícia no termo da manifestação do dia da greve em Lisboa.
Várias pessoas deitaram por terra as barreiras erguidas pela PSP, tentando subir as escadas do Parlamento. As autoridades empurraram manifestantes e repórteres. Os incidentes causaram dois feridos ligeiros: um polícia e um jornalista.
O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, escusou-se a comentar os incidentes, assim como o impacto da paralisação. Já o ministro dos Assuntos Parlamentares afirmou à TVI que as situações de violência “não podem nem vão refletir aquilo que foi a greve geral”.
As centrais sindicais demarcaram-se. Carvalho da Silva vincava ontem que a CGTP “não teve nada a ver” com os confrontos, até porque “estas situações não favorecem os trabalhadores”. João Proença descreveu a greve como “um exemplo de civismo e responsabilidade” e reprovou “grupos que se aproveitam para tentar aparecer e provocar situações de conflitualidade”.
Em declarações à RTP, o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares afirmou que o Executivo até “deseja ouvir” os sindicatos. Mas fechou a porta a qualquer recuo na austeridade.
“Nós hoje sabemos que esta austeridade é penalizadora, que é muito difícil para alguns portugueses. Mas foi também por isso que, há pouco mais de dois meses, o Governo apresentou um plano de emergência social, para apoiar aqueles que mais necessitam e aqueles que são mais penalizados ao longo de todo este processo de recuperação do país”, sublinhou o governante.
Para se manifestar “profundamente convicto” de que “os portugueses também sabem que este caminho difícil é o caminho para a solução dos problemas a que chegámos e também a perspetiva que temos assumido, com muita clareza, de pedir mais sacrifícios àqueles que são os portugueses em melhores condições de poder responder”.
Depois de advogar a “justiça” das opções do Governo, Miguel Relvas frisou que o que se “exige a Portugal é que sejamos capazes de ultrapassar as dificuldades, sejamos capazes de gerar uma nova realidade e uma nova esperança no país e pôr a nossa economia a crescer”. “Enquanto não controlarmos a nossa dívida, enquanto não controlarmos a nossa despesa, não vamos ter a economia a crescer, não vamos poder combater o desemprego, que é a grande chaga com que nós somos hoje confrontados em Portugal e na Europa”, acrescentou.
O Governo, enfatizou ainda o ministro dos Assuntos Parlamentares, “tem cinco meses de mandato” e “tem assumido uma atitude e uma postura reformista, de alterar muitas das situações com que Portugal é hoje confrontado”: “Nós só teremos alternativa à situação delicada em que nos encontramos hoje se corrigirmos o caminho que seguimos ao longo dos últimos anos e os portugueses sabem disso. A austeridade tem que ser assumida como o caminho. E estas medidas reformistas, na Administração Central, na Administração Local e na Administração Regional, têm que ser vistas como caminho e a solução para o problema a que nós hoje chegámos”.
“O faz-de-conta da concertação social”
Enquanto as centrais sindicais instam o Executivo a pôr fim ao que dizem ser “o faz-de-conta da concertação social”, Miguel Relvas sustenta que tem sido dada “muita atenção” aos parceiros. “Nós queremos ouvir, sabemos ouvir e desejamos ouvir. Mas também sabemos que não temos alternativa às medidas que têm que ser tomadas. E o Governo tem tido uma grande participação na concertação social, tanto com os sindicatos como com os empresários”, arguiu o ministro no Telejornal.
“Nós sabemos que este é um tempo difícil e este tempo difícil exige concertação, exige serenidade, mas também todos sabemos que exige trabalho. Nós não vamos ultrapassar a situação a que chegámos sem muito trabalho”, insistiu.
Em flanco cada vez mais distante, os dirigentes das centrais sindicais consideram que a greve geral deveria levar o Governo a alterar “o comportamento na negociação coletiva, com sacrifícios equitativamente distribuídos”. Numa conferência de imprensa partilhada com Carvalho da Silva, ao final do dia de quinta-feira, o secretário-geral da UGT, João Proença, fazia questão de assinalar que, embora “uma democracia assente no voto periódico dos cidadãos”, não pode haver uma “ditadura da maioria”.
“O Governo de hoje é posso, quero e mando. Faz uma reestruturação no setor dos transportes sem dialogar com os sindicatos. Trata o setor empresarial do Estado como se pudesse dispor livremente. Quer alterar a legislação laboral. Não é aceitável esta situação”, frisou João Proença.
“Nova greve geral” é cenário em cima da mesa
Ambos os dirigentes sindicais leram a paralisação como um “êxito”, tendo mesmo “superado” a adesão à greve geral do ano passado. Ao mesmo tempo, acusaram o Governo de ter procedido a uma “manipulação” de números – ao final da manhã de ontem, o Executivo apontava para uma adesão de 3,6 por cento na Administração Pública, um balanço que seria atualizado para dez por cento pelas 18h00.
O secretário-geral da CGTP recusou, por outro lado, falar de uma “greve de funcionários públicos”: “Foi registada uma forte adesão no parque industrial de Palmela, na Corticeira Amorim, na Centralcer, na atividade portuária. Isto é a pequena dimensão da adesão do setor privado”.
Carvalho da Silva denunciaria ainda as práticas salariais do setor privado, ao afirmar que “antes os empresários diziam que o bom, o justo, era salários de base mais baixos e jogar com a remuneração variável” e que “agora, em nome da crise, estão a cortar isso tudo”. “Em média”, apontou o líder da Intersindical, “os trabalhadores do setor privado perdem mais de 25 por cento da sua retribuição”.
Carvalho da Silva e João Proença não descartam convocar mais uma paralisação. “Se o Governo nos empurrar, fazemos uma nova greve geral para defender a luta dos trabalhadores, mas não queremos a luta pela luta, queremos negociação”, propugnou o secretário-geral da UGT, acrescentando que a greve abriu “espaço à procura de uma maior unidade na ação”. O que, nas palavras de Carvalho da Silva, acontecerá com “conteúdos concretos”.