Instabilidade política ameaça "afundar" economia de Itália

| Política

A tensão entre o ministro do Interior, Matteo Salvini, à esquerda, e o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, à direita, perdura há vários meses.
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A terceira maior economia da zona euro foi severamente atingida pelo anúncio de moção de censura apresentado pela Liga, partido de extrema-direita, que até agora apoiava o Governo italiano.

Durante a manhã, a Bolsa de Milão perdia dois por cento, com o setor bancário a ser particularmente afetado, com o índice respetivo a cair 4.8 por cento.

A "descida da classificação de Itália pelas agências de 'rating'" é agora uma forte possibilidade, afirmou o professor universitário, Carlo Alberto Carnavale Maffe, à Agência France Press, AFP.

Outros especialistas admitiram à mesma agência que a instabilidade política pode "afundar" a economia italiana que, até final de junho de 2019, apresentava um crescimento nulo do Produto Interno Bruto.

A mais recente crise política italiana foi desencadeada esta quinta-feira pelo líder do partido de extrema-direita Liga, Matteo Salvini, até agora vice-presidente e ministro do Interior, ao anunciar o fim do apoio ao Governo liderado pelo primeiro-ministro, Giuseppe Conte. A ser votada favoravelmente, a moção de censura levará à queda do Governo de Conte, próximo do Movimento 5 Estrelas, M5E, que venceu as eleições em 2018.

Apesar de Itália ser conhecida por soluções técnicas de Governo originais, a queda do executivo deverá levar também a uma provável antecipação de eleições, ameaçando a apresentação do Orçamento italiano em outubro próximo.

Cenário que o atual Presidente da República italiana, Sergio Mattarella, quer evitar a todo o custo e que irá provocar cólera em Bruxelas.

A Itália evitou à justa um procedimento disciplinar europeu, devido ao seu enorme défice público. A Comissão Europeia tem pressionando Roma a reduzi-lo, tendo o Governo italiano aceitado reduzi-lo para 2,04 por cento em 2019, em vez dos 2,4 por cento projetados.

Salvini criticou Bruxelas e chegou mesmo a classificar o ministro da Economia, Giovanni Tria, como demasiado conciliador face à Comissão Europeia.

O ainda ministro do Interior de Itália avisou ainda que no próximo Orçamento de Estado, o défice não poderá ficar abaixo de 2 por cento, afirmando que "os dogmas de Bruxelas não são sagrados".

"Haverá certamente um confronto com a Europa que só pode ser feito por um Governo e um parlamento legitimados pelos italianos", disse, pedindo ao país que lhe dê uma "clara maioria".
As razões de Salvini
A coligação formada pelo Movimento 5 Estrelas, M5E, e pelo partido de extrema-direita Liga tem estado em convulsão interna há vários meses devido a divergências políticas em várias reformas de fundo.

Estas vão do sistema de Justiça à autonomia regional, passando pela coleta de impostos, pela redução do número de deputados e de senadores, ou pelos custos da revisão do salário mínimo.

Apoiado em sondagens que lhe dão a maioria, Salvini aproveitou mais um desacordo para dar um murro na mesa.

A Itália não pode continuar com os ‘nãos’, precisamos de ‘sins’, de desbloqueio, de construir, de trabalhar. Acabou, temos de ir a votos”, assegurou Matteo Salvini aos jornalistas.

As diferenças entre ambas as partes foram claramente expostas no colóquio desta quarta-feira, em Pescara, quando a Liga e o M5E votaram em sentido contrário sobre o futuro de um projeto ferroviário de alta velocidade que liga Lyon a Turim. A conclusão deste projeto, proposto há 20 anos, está prevista para 2025.

Inicialmente, os custos para foram estimados em 8,6 mil milhões de euros. No entanto, o ministro dos Transportes da Itália, Danilo Toninelli, membro do M5E, considerou que vão ser necessários mais de 20 mil milhões de euros para concluir o túnel de ligação entre a Itália e a França.

A União Europeia já se comprometeu a financiar até 40 por cento do custo total.

"Demasiados 'nãos' prejudicam a Itália, que precisa voltar a crescer e voltar a votar rapidamente. Quem perder tempo prejudica o país", referiu Salvini, num comunicado da Liga.

No rescaldo deste desacordo, Matteo Salvini dirigiu-se ao palácio Chigi, esta quinta-feira à noite, para conversar com o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte. Em causa estaria uma completa remodelação no Governo, sob pena de provocar eleições antecipadas e destruir a coligação.
"Levantem o rabo"
Salvini confirmou, esta sexta-feira, a entrega no Parlamento da moção de censura, o que irá forçar à interrupção das férias parlamentares.

O líder da Liga, que se considera próximo da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, e do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, disse que os deputados têm de "levantar o rabo" e regressar a Roma, para votar pela queda do Governo.

De acordo com as normas do Senado italiano, a moção da Liga deverá ser analisada a partir de segunda ou terça-feira próximas, e nunca por mais de dez dias, ou seja, até 20 de agosto.

Já que o Senado foi a Câmara que primeiro concedeu confiança ao atual chefe de Governo italiano, há 14 meses, caso aprove o texto da moção, a queda do executivo de Conte será automática, já que o voto da Câmara Baixa não será necessário.

Nesse caso, Giuseppe Conte deverá apresentar de imediato a sua demissão ao Presidente da República italiana, o qual irá desencadear um processo de consultas, por um período não superior a três dias, para avaliar a existência ou não de uma maioria parlamentar em torno de um eventual novo líder.

Em caso negativo, o Presidente dissolve o Parlamento e convoca novas eleições. A decisão deverá ser tomada até 26 de agosto, devendo o novo ato eleitoral realizar-se entre 45 a 70 dias, de acordo com a Constituição.

As próximas eleições
"É preciso devolver a palavra aos italianos. É uma escolha de coragem, de coerência, mas também de dignidade", afirmou, após uma sessão de selfies com apoiantes eufóricos, em Termoli, na Costa Adriática.

Salvini avisou também contra quaisquer manobras que visem o bloqueio do regresso às urnas.

"Espero que ninguém pense em enganar os italianos, tentando ganhar tempo e inventando um Governo que seria democraticamente inaceitável", reagiu, acrescentando estar alarmado com "discursos semelhantes" nesse sentido por parte do M5E e do Partido Democrático, atualmente na oposição.

"Espero que ninguém esteja a pensar num Governo M5E/PD, que seria inaceitável para a democracia", sublinhou.

Uma sondagem realizada a 31 de julho pelo instituto Ipsos, para o Corriere della Sera, e publicada na quinta-feira, prevê que nas próximas eleições gerais a Liga de Salvini obtenha 36 por cento dos votos alcançando mesmo 50,6 por cento em coligação com o partido de extrema-direita Irmãos de Itália (que teria 7,5 por cento) e o partido de Sílvio Berlusconi, Forza Italia (com 7,1 por cento).

Salvini já anunciou que se apresentará às eleições como candidato a primeiro-ministro.

Giuseppe Conte acusa-o por seu lado de acabar com a coligação para aproveitar a subida nas intenções eleitorais e desafiou-o quinta-feira à noite, a dar explicações ao Parlamento, já que em 14 meses de Governo a Liga obteve praticamente tudo o que exigiu.

Se nas eleições de 2018, a Liga obteve 17 por cento dos votos, nas recentes eleições europeias capitalizou os sucessivos fracassos do M5E e do seu líder, Luigi Di Maio, saltando para a liderança política, arrecadando 34 por cento dos votos.

Ainda assim, Di Maio assegurou que estão preparados para voltar às urnas.

"Estamos prontos, não nos importamos em ocupar cargos no Governo, nunca o fizemos", rematou.


Di Maio deixou igualmente duras críticas a Salvini, que só depois de "gozar férias" avançou para lançar o país em crise.

Tópicos:

Giuseppe Conte, Itália, Liga Norte, Luigi Di Maio, Matteo Salvini, Movimento 5 Estrelas, Sergio Mattarella,

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