Postal da Grande Guerra - Diário de Campanha do General Fernando Tamagnini

Em 1916, o General Tamagnini é elogiado pelo chamado "Milagre de Tancos", onde durante os meses de Verão cerca de 20 000 homens haviam recebido instrução militar.


No início de 1917, parte para França à frente do Corpo Expedicionário Português. CEP constituído por duas divisões, cada uma a 3 brigadas e cada brigada a 4 batalhões num total de 24 batalhões.
Tido por ser um “militarão”, sem se envolver em politiquices, era considerado por muitos um homem severo, disciplinado e frio. Mas quando lemos os seus diários surge um homem inteiramente diferente. Solidário com os seus homens, gaba a capacidade de sofrimento dos soldados, mas critica a falta de liderança de muitos oficiais. Foram 18 meses na frente que o tornaram um homem só, exasperado… 

Ilustração Portuguesa - Hemeroteca Municipal de Lisboa

O "Diário de Campanha do General Fernando Tamagnini" vai ser publicado este ano e provocará alguma polémica.

No Prefácio, do Tenente-General Mário de Oliveira Cardoso, lê-se:

“À medida que vamos lendo os relatos dos dias do Comandante do CEP, damos conta das suas angústias, resultantes da sua solidão e da falta de uma retaguarda (em Lisboa) que lhe desse orientação política e resposta às necessidades de uma guerra que não era conhecida na realidade, para a qual a preparação tinha sido insuficiente e que necessitava de uma sustentação que, de todo, não existia, bem como da divisão que grassava no contingente do CEP, em particular no seu corpo de oficiais, resultante da ausência de separação entre a atividade política partidária e a condição militar, o que é particularmente grave em operações.

As vivências do General Tamagnini constituem um exemplo (doloroso) do que pode acontecer quando a decisão de empenhar forças militares não for plenamente assumida pelos órgãos governamentais representativos do País.”

Fernando Tamagnini nasceu a 13 de Maio de 1856 em Tomar e morreu a 23 de Novembro de 1924 em Lisboa, aos 68 anos. 

Arquivo Histórico Militar

Estudou no Real Colégio Militar. Assenta praça no Regimento de Cavalaria 2. Integra a Guarda Municipal de Lisboa, comanda a Escola Regimental de Lisboa, a Escola de Repetição e a 5ª Divisão ("Milagre de Tancos") e a Divisão de Instrução. 
 
O Major-General João Vieira Borges refere:

"Durante os cerca de 18 meses de missão, marcados pela instabilidade política, económica e social que se vivia em Portugal e pela participação ativa dos militares nas sucessivas revoltas, num ambiente real de guerra civil “larvar”, o General Fernando Tamagnini, escolhido exatamente pelo facto de ser um disciplinador e um homem sério, afastado das manobras políticas, teve razões para não confiar nos portugueses e inclusivamente nos Aliados. 
 
Tamagnini foi um comandante do seu tempo, com as suas virtudes e defeitos, mas claramente usado pelo poder político (em especial pelos guerristas) de Lisboa. Era um militar respeitado e sério, sem ligações políticas, e com alguma ingenuidade relativamente às ações e comportamentos dos guerristas e mesmo dos ingleses. No entanto, as características de um general disciplinado e disciplinador, afastado das lides políticas, centralizador, respeitado e íntegro, não bastavam num Portugal dominado por uma guerra civil que extravasou para o teatro de operações os conflitos internos."

Citando os Diários do General Tamagnini:

"É preciso notar que a guerra actual é differentissima de todas as guerras passadas, e que pelos livros se podem estudar; empregam-se n’ella meios e systemas que só se aprendem aqui; e é evidente que homens, que estão há 3 annos mettidos n’ella, saibam mais que os palmipedes portuguezes conhecedores das guerras da Serra do Monsanto e outras congeneres em que as balas são de sabugueiro. O que elles não querem é que alguém lhes dê ordens ou os contrarie. Julgavam encontrar em mim um fantoche para assignar de cruz e carregar com as tolices que porventura fizessem, mas acharam-se enganados." (16 Maio '17 )

"Acho um grande disparate fazer aqui qualquer cousa que cheire a politica, e todos os meus esforços serão que esse bicho nefasto não se manifeste. […]mas, em quanto cá estiverem, são officiaes, e não deputados, e como taes teem de pôr a politica de parte." (31 de Maio '17 )

Arquivo Histórico Militar

"Chegou a um estado tão baixo o caracter portuguez, que sinto um desgosto profundo. Não se sabe quem são aquelles com quem se pode contar. Ambições, vaidades, e deslealdades, eis o que encontro em volta de mim, no desempenho do meu actual cargo! O meu patriotismo e o amor que ainda tenho á minha profissão, e o grande desejo de que a acção das nossas tropas n’esta tragica guerra, [rasurado] seja proveitosa ao nosso Exercito e ao nosso Paiz, animam-me a arrastar com tudo, e andar para deante. Acho-me completamente só, sem uma pessoa com quem possa trocar impressões e desabafar!" (8 de Agosto '17 )

"Vejo que de Lisboa não olham para nós como devem olhar; faltam officiaes, faltam soldados, faltam mulas e cavallos etç. Não nos falta de comer porque nos é fornecido pelos inglezes." (23 de Agosto '17)

"Pobre paiz e pobre povo, que tão bem se governava com um bocado de bom senso, com moralidade, energia e sem politicos. A principio ainda julguei que a nossa participação na guerra servisse d’alguma cousa, mas em Portugal só sabe que estamos em guerra a familia dos que cá estão, arriscando a pelle." (8 de Outubro '17)

Arquivo Histórico Militar

"Cada vez me convenço mais que a nossa vinda à guerra não tem a vantagem que podia e devia ter, unicamente por culpa dos governantes. Cheguei a ter esperanças, a principio, mas vou-me desenganando, com quanto mantenha a primitiva orientação no commando. Cada vez me encontro mais affastado do meu E. Maior; todos os dias difficuldades que me criam ou pretendem criar, e que vou vencendo, sem despropositar (por ora)." (15 de Outubro '17)

Ilustração Portuguesa - Hemeroteca Municipal de Lisboa

Já em 1918, a 12 de Março elogia:

"Que boa que é a nossa gente! Que bons soldados que seriam se houvesse officiais que se interessassem por elles os apreciassem e guiassem! Havendo o que ha, ainda assim fazem o que se vê; não calculo aonde chegariam bem conduzidos.

Passado dois dias volta a criticar:

"De Portugal não ha maneira de mandarem reforços para refrescar esta pobre gente que pode chegar a um ponto em que não dê nada. Os inglezes rendem as divisões passados uns mezes; a nós, atiraram-nos para aqui, e nem se lembram que na Flandres ha portuguezes com a vida em perigo constantemente, ao passo que ha figurões, que cá deviam estar, e passeiam pelas ruas de Lisboa, desdenhando ainda de nós.

Arquivo Histórico Militar