Chomsky vê nos republicanos a mais perigosa organização da história

por RTP

O pensador norte-americano Noam Chomsky assinala o passado 8 de Novembro, última eleição nos Estados Unidos, como a data a reter para os compêndios como um dos dias mais importantes da história. Sobre a decisão dos eleitores, de entregarem o poder total (Senado, Câmara dos Representantes e Supremo Tribunal) ao Partido Republicano, a leitura que Chomsky faz é a de um país (ou mundo) à beira do abismo que decidiu agir e deu um passo em frente.

Numa entrevista esta segunda-feira a propósito da eleição de Donald Trump, Noam Chomsky focou em particular a questão ambiental, que considera de suprema importância para a sobrevivência do planeta. Uma questão que lamentou tenha passado ao lado dos debates e da análise nos media quando se tratou de uma eleição coberta até à exaustão.

O linguista e filósofo norte-americano sublinhou que sendo esta uma das questões fundamentais do nosso tempo, o voto recaiu sobre o candidato que se prepara para colocar em lugares de decisão um conjunto de negacionistas que recusam o paradigma das alterações climáticas, amplamente confirmado nos dados recolhidos durante as últimas décadas.

Chomsky assinala que esta não é uma cartilha exclusiva de Donald Trump, já que durante as primárias republicanas os candidatos se afadigaram à vez a desmontar as teorias do aquecimento global. A questão agora, e esse o porquê da importância do 8 de Novembro de 2016, tem a ver com a tese negacionista do futuro Presidente americano, somada ao conluio da futura Administração com a classe empresarial em geral e a indústria dos combustíveis fósseis em particular.

A terça-feira eleitoral fora também a data escolhida pela Organização Meteorológica Mundial (na sigla original WMO, para World Meteorological Organization) para entregar na conferência internacional para as alterações climáticas de Marrocos (COP22) um relatório em que se comprovam as piores suspeitas e se constatam perigosos desenvolvimentos para o futuro próximo.

O estudo da WMO, sublinha Chomsky, aponta “os últimos cinco anos como os mais quentes da história desde que há registos”. O relatório refere ainda “a crescente subida dos níveis do mar, progressão que deverá ser acelerada face ao rápido degelo das calotas polares, em particular nos glaciares da Antártida”. Entretanto, “o gelo do Ártico caiu nos últimos anos para valores 28 por cento mais baixos do que a média das últimas três décadas”, afectando não apenas o nível das águas do mar como também a capacidade de arrefecimento do planeta com a reflecção dos raios solares através da acção do gelo.

Estes factores, somados, aumentam a factura do efeito de estufa e, consequentemente, do aquecimento global.

É neste cenário que Chomsky vê a decisão do eleitorado americano, de colocar Donald Trump à frente dos destinos do país nos próximos quatro anos, como um país à beira do abismo que decidiu agir e deu um passo em frente.

Este é para Noam Chomsky um prognóstico mais realista do que catastrofista, uma vez que Trump – como se não bastasse ter garantido o poder em todas as frentes: Supremo, Senado e Congresso – não escondeu a intenção de nesta fase de transição colocar os assuntos da EPA [agência americana para a protecção ambiental] nas mãos de “Myron Ebell, um proeminente negacionista das alterações climáticas” – o que na prática significa o seu desmantelamento, de acordo com Chomsky.

O seu conselheiro para a Energia, Harold Hamm, um bilionário da área dos combustíveis, já fez saber das suas expectativas sobre o que será a governação Trump no sector: relaxar as medidas de regulação, cortar os impostos para a indústria e incrementar a produção de combustíveis fósseis.

Para o filósofo americano, o rumo que parece estar já traçado na agenda de Donald Trump destes quatro anos em Washington – sem rédea ou chicote por parte do Senado, do Supremo ou do Congresso – afigura-se como um recuo face às negociações internacionais consubstanciadas no Acordo de Paris para o Clima, aprovado por 195 países que se comprometeram a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, numa derradeira tentativa para manter o aumento da temperatura média global abaixo.

Chomsky lamenta a falta de debate relativamente a estas matérias durante uma campanha que se estendeu durante meses e não tem dúvida em afirmar que, perante um quadro em que se juntam as intenções de Trump com o controle total dos lugares de decisão, o Partido Republicano é agora, ou será dentro de pouco mais de dois meses, “a mais perigosa organização da história”.

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