Vigilantes pró-Trump querem líderes universitários cobertos de alcatrão e penas

por RTP

São cenários que fazem lembrar cenas das páginas de Lucky Luke: criminosos enfiados num barril de alcatrão e depois cobertos de penas. Trata-se de uma prática usada contra prevaricadores de espécie vária quer na Europa feudal, quer depois nas colónias, inclusive a americana. E é neste sentido que vai o apelo de um grupo de “vigilantes” apoiantes de Donald Trump para castigar os líderes da Universidade do Texas onde se defende a ideia de “diversidade”. O panfleto fala de “captura” e “tortura”, sublinhando que é uma estratégia escorada nas maiorias do Senado, da Câmara dos Representantes e no novo inquilino da Casa Branca. Precisamente o mesmo Trump que se fez eleger com um discurso fraturante, xenófobo, racista e misógino.

As tensões raciais na América não são de agora. Não se manifestavam abertamente nos primórdios da coexistência de brancos e negros, com a compartimentação dos papéis em senhor e escravo, quadro a que escapavam situações pontuais de afro-americanos (o termo é de agora) que compravam a liberdade.

Seria com a conquista de direitos por parte da população negra que o statu quo entrou em conflito com a nova ordem social. Podemos chamar à discussão a emancipação dos escravos com a Guerra Civil, há 150 anos, curiosamente sob a liderança de Abraham Lincoln, um Presidente republicano.

A aceitação dos cidadãos negros (agora ditos afro-americanos) como iguais tem diferentes graus de legitimidade, não tanto em relação à lei mas mais à geografia. A mentalidade sulista, a bandeira confederada são em si sinais de uma segregação racial mais do que latente. De uma forma generalizada poderemos apontar a recente vaga de mortes de negros pela polícia ou a predominância dos afro-americanos na população prisional, num sinal de que o problema se espalhou já por todo o país.
Vigilantes sentem-se legitimados por Trump
O preconceito preencheu parte considerável do discurso que levaria Donald Trump à eleição como Presidente dos Estados Unidos. E é na esteira dessa eleição que um grupo de auto-proclamados “Vigilantes” entra agora em cena no Texas, precisamente um dos Estados Confederados que há século e meio contestaram a intenção dos republicanos de eliminar a escravatura.Apenas após fortes pressões Trump cortou com um apoio que logo à partida parecia ser-lhe mais prejudicial do que benéfico: o Ku Klux Klan.

Poderá numa primeira fase dar-se o caso de passar a ideia de multiplicação dos episódios racistas, quando na realidade se trata apenas de um cenário que não é novo mas que ganhou visibilidade no contexto destes dias pós-eleição de Trump.

Seja como for, o exemplo do panfleto que está a ser distribuído no Texas é ilustrativo de um sentimento que perpassou durante a campanha: a segregação está legitimada pelo escrutínio do povo. Na escolha do novo líder. (Querendo, podemos sublinhar que só tardiamente Trump cortou o laço de um apoio que logo à partida parecia ser-lhe mais prejudicial do que benéfico: o Ku Klux Klan.)

Trata-se de um panfleto de apoio ao Presidente Trump, onde se convocam esquadrões de vigilantes do Texas a perseguir, deter e torturar os líderes universitários que defendem “a porcaria da diversidade”, vista num argumentação muito própria como uma forma de “genocídio da população branca”.No panfleto surgem homens armados, com camuflados militares, com uma bandeira americana por trás e o título “Vigilantes do Estado do Texas” a toda a largura da foto.

Nos papéis espalhados pelo Estado do Texas, incluindo nas casas de banho das instalações do campus universitário, insta-se os partidários de Donald Trump a perseguir e torturar aqueles que defendem a ideia de diversidade na América. Acrescentam que se trata aqui de uma espécie de dever ao abrigo das mais altas instituições, agora que Trump foi eleito e os republicanos asseguraram a maioria tanto no Senado como nos Representantes.

Na face do panfleto surgem homens armados, camuflados ao estilo militar, com uma bandeira americana por trás e o título “Vigilantes do Estado do Texas” a toda a largura da foto.

Nas páginas seguintes está contido todo um programa do grupo: desde a ideia de infestar os rios da fronteira mexicana com cobras e piranhas para evitar a travessia de emigrantes ilegais, até ao uso de lixo nuclear “para ao menos esterilizar todos aqueles que tentarem passar” para território norte-americano.

A Universidade do Texas não tem dúvidas de que se trata de uma actividade criminosa e instruiu o departamento da polícia para avançar com uma investigação.