Coletes amarelos. Paris mergulha em cenário de guerrilha urbana

por Carlos Santos Neves - RTP
Ao anoitecer havia notícia de mais de 260 detidos na capital francesa Stephane Mahe - Reuters

Cargas da polícia de choque, lançamento contínuo de gás lacrimogéneo, canhões de água, barricadas, montras partidas e carros em chamas. No culminar de duas semanas de protestos do movimento dos chamados “coletes amarelos”, contra o elevado custo de vida na França de Emmanuel Macron, Paris resvalou este sábado para um quadro de violência generalizada. Ao cair da noite, o número de detidos ultrapassava os 260.

“Chocado”. É este o adjetivo escolhido pelo primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, para resumir a forma como encara os acontecimentos deste sábado no coração de Paris, em redor do icónico Arco do Triunfo, na Avenida dos Campos Elísios, na Rivoli ou mesmo no Jardim das Tulherias.

Milhares de manifestantes confrontaram-se com a polícia, por vezes entre turistas apanhados pelo turbilhão. No Arco do Triunfo foi pintada a mensagem “os coletes amarelos vencerão”. Na Ópera, anotou a France Presse, surgiu a comparação entre Macron e Luís XVI, o rei executado na guilhotina em 1793.

Ao início da noite deste sábado, havia notícia de mais de 260 detidos e uma centena de feridos, entre os quais pelo menos 17 operacionais das forças de segurança. As autoridades mandaram também encerrar 19 estações de metro. Foram ainda fechadas as Galerias Lafayette e outros grandes espaços comerciais da cidade.

A violência foi testemunhada ao longo do dia pela correspondente da RTP em França, Rosário Salgueiro, que chegou a descreveu um quadro de “descontrolo total”.



“As forças de segurança não estão a conseguir conter a onda de violência e de destruição”, relatava ao anoitecer a jornalista.

A agência noticiosa francesa ouviu também vozes moderadas entre os manifestantes, como a de Dan Lodi, de 68 anos, que disse integrar “um movimento pacífico”, embora “desorganizado”. “Há sempre idiotas que vêm lutar, mas isso não é de todo representativo”, acrescentou.
Este é o terceiro fim de semana consecutivo de confrontos em Paris. Desde o início do movimento dos “coletes amarelos”, a 17 de novembro, morreram duas pessoas e centenas ficaram feridas.

Chantal, outra reformada de 61 anos ouvida pela AFP, deixou uma mensagem ao Presidente francês, Emmanuel Macron: “É preciso que ele desça do seu pedestal, que compreenda que o problema não é a taxa, é o poder de compra”.

Também a ministra francesa da Saúde, Agnès Buzyn, exortou os “coletes amarelos” a denunciarem grupos extremistas que, nas suas palavras, procurem apoderar-se dos protestos.

Em causa está um descontentamento em crescendo perante o nível da carga fiscal e o custo de vida em França, tendo por alvo a Presidência de Emmanuel Macron e o Governo por si nomeado, visto como pouco ou nada atento aos segmentos mais desfavorecidos da população francesa.

Na origem dos protestos esteve o aumento dos preços dos combustíveis, por via da taxa sobre produtos petrolíferos. Mas a vaga ampliou-se.


À margem do encerramento da cimeira do G20, em Buenos Aires, Emmanuel Macron reafirmou que “jamais” aceitará “a violência”.

“Nada justifica que as forças da ordem sejam atacadas, que as lojas sejam pilhadas, que transeuntes ou jornalistas sejam ameaçados, que o Arco do Triunfo seja manchado”, reagiu o Presidente francês.

Por seu turno, o primeiro-ministro decidiu cancelar a deslocação à Polónia para a COP24 – a conferência sobre as alterações climáticas. A partida de Edouard Philippe estava prevista para a tarde de domingo. A delegação francesa será liderada pelo ministro da Transição Ecológica, François de Rugy.

As autoridades referiam, nas últimas horas, cerca de 75 mil manifestantes em território francês, aquém dos números atingidos nas duas anteriores jornadas de luta. A contrastar com o que aconteceu em Paris, os protestos decorreram de forma ordeira noutras cidades de França.

O movimento terá já começado a inspirar outras potenciais vagas de protesto para lá das fronteiras francesas. Em Bruxelas, na noite de sexta-feira, foram incendiados dois veículos da polícia após uma manifestação de cerca de 300 “coletes amarelos”. E na Haia, perto de 120 manifestantes concentraram-se diante do Parlamento holandês.

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