Europa responde a Boris Johnson: não pagar as dívidas é declarar bancarrota

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O candidato a primeiro-ministro britânico veio a público sugerir que o Reino Unido pode pressionar a União Europeia para obter um acordo melhor para o Brexit. E o meio de pressão consistiria em reter os 44 mil milhões de euros em dívida. As reacções de Bruxelas são iradas.

Boris Johnson foi uma das figuras determinantes na agitação para o Reino Unido sair da União Europeia. Depois de, inesperadamente, o Brexit ter obtido maioria em referendo, Johnson foi nomeado pela sua correligionária do Partido Conservador, Theresa May, como chefe do Foreign Office, o equivalente ao MNE. Mas o cargo não faz o homem, e Johnson não se tornou mais diplomático por ser chefe da diplomacia: continuou a agitar contra todas as versões do acordo laboriosamente negociado entre May e a Europa.

Em consequência teve de renunciar ao seu Ministério e, depois, contribuiu substancialmente para que May tivesse de renunciar ao seu. Agora, Johnson é candidato ao lugar de May e dizem as sondagens que se arrisca a ganhá-lo. Nesse momento, ficará com a negociação nos braços e, supostamente, terá de obter um acordo melhor do que o recusado até agora.

Com a União Europeia a afirmar repetidamente que a negociação está fechada e que o acordo é para pegar ou largar, Johnson avançou com uma ideia para pressionar os interlocutores de Bruxelas a pensarem melhor: reter os 44 mil milhões em dívida por parte do Reino Unido, até que lhe seja oferecido um acordo ao seu gosto.

Uma das reacções surgiu na conta de Twitter do chefe dos Serviços Jurídicos do Conselho Europeu, Jean-Claude Piris: "Se o Reino Unido não pagasse as suas dívidas, isso implicaria um Brexit sem acordo e sem fase de transição". Mais concretamente, seria eliminado o período de dois anos em que é suposto o Reino Unido conservar pleno acesso ao mercado interno da União Europeia.

O ministro de Estado alemão para a Europa, Michael Roth, por seu lado, declarou à Reuters que não vê "qualquer disposição a reabrir as negociações", nem qualquer possibilidade de essa disposição ser alterada por meio de uma chantagem. E a palavra assassina não é sequer substituída por qualquer eufemismo: "A UE e os Estados membros não são chantageáveis".

Supondo que as reacções europeias fizessem parte do teatro de pressões e contra-pressões entre um e outro lado da Mancha, permanece ainda um simples cálculo aritmético que o colunista Markus Becker disseca em Der Spiegel: em termos estritamente contabilísticos, o Reino Unido perderia mais dinheiro retendo os 44 mil milhões do que em pagando-os. Na verdade, os subsídios que o Reino Unido deve receber da UE nos próximos anos seriam imediatamente congelados, o que levaria, segundo um alto funcionário da UE também citado em Der Spiegel, a deixar no Reino Unido muitas pontes construídas só até meio.

Cabe aqui um parêntesis sobre o cálculo da dívida: Johnson refere 44 mil milhões, mas a UE estima-a em 100 mil milhões. E não parece disposta a fazer-lhe um desconto no momento em que o putativo primeiro-ministro, eventualmente, recue na ameaça e se declare disposto a pagar - mas a pagar, apenas, 44 mil milhões.

À Reuters declarou, enfim, um responsável do Governo francês que um incumprimento britânico neste domínio "equivaleria a declarar a bancarrota do Estado, cujas consequências são bem conhecidas". E o economista britânico Mike Rake, igualmente citado em Der Spiegel, lembra as discussões recentes sobre os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha), para afirmar que uma insolvência britânica teria "consequências terrríveis" e que "vimos o que acontece com países que não pagam as suas dívidas".

Para alguns, a escalada verbal vai ainda mais longe. Guntram Wolff, director do think tank belga Bruegel, fala mesmo em "acto hostil" no caso de o Reino Unido adoptar a política sugerida por Johnson: "Se os britânicos não pagassem as suas dívidas, a UE veria isso como um acto hostil (...) A confiança ficaria tão danificada que durante anos não voltaria a haver negociações de parte a parte".

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