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Mindelact 2021

Mindelact 2021

Foto: www.mindelact.org



Mindelact 2021 editorial

Tanto a dor que mais aflige como a alegria que mais alenta acontecem nos momentos em que sabemos que o nosso presente poderia ser diferente.

Num ano em que Cabo Verde e o mundo conviveram com perdas irreparáveis enquanto vislumbraram a aurora a se desenhar no horizonte, somos lembrados, de forma particularmente aguda, do valor único de cada momento que já passamos e que ansiamos poder passar nos muitos ou poucos preciosos dias que nos restam nesta vida que mais do que nunca temos a consciência de ser um improviso sem guião.

Sabemos que o nosso presente poderia ser diferente. Sabemos que poderíamos não estar a chorar a dor da partida de tanta gente querida. Mas a nossa histórica resiliência também nos mostra que ter a consciência de que as coisas poderiam ser diferentes nos obriga a ter esperança – não uma esperança cega, ingénua ou irrealista, mas uma esperança que nos chama a assumir a nossa responsabilidade histórica e nacional, coletiva e pessoal, de garantir que as perdas do nosso percurso não tenham sido em vão.

Depois de, em 2020, termos teimado em resistir à conjuntura mundial e insistido em manter a chama da arte viva com o festival possível, em 2021, mais uma vez colocamos, no meio de luto e no meio de luta, o Mindelact que todos conhecem nos palcos do Mindelo e da Praia, dando corpo a uma esperança que é tudo menos abstrata.

Sem essa teimosa e agridoce esperança nossa e dos nossos parceiros, o que há um ano parecia impossível sê-lo-ia, de facto: fazermos um festival de 10 dias com artistas de três continentes a colocar em cena 30 espetáculos num total de 40 apresentações em duas ilhas; termos seis estreias mundiais, incluindo uma na Praia que presta homenagem justamente àquele que melhor nos ensinou a materializar a esperança, Amílcar Cabral; marcarmos o 30º aniversário da icónica companhia de dança cabo-verdiana Raiz di Polon, que apresenta, nesta edição, uma reinterpretação da peça divisora de águas “CV Matrix 46”; e acolhermos artistas vindos de 14 países diferentes e de várias ilhas de Cabo Verde, representando um amplo leque de linguagens em que se sobressaem a inovação, a contemporaneidade e o caráter experimental de muitas das propostas, todas as quais, no entanto, partilham a missão de abrir mentes, iniciar debates sobre temas importantes da atualidade, e despoletar a transformação de e reflexão sobre mentalidades – todos eles ingredientes indispensáveis na operacionalização da esperança. Retomaremos a extensão Mindelact na Praia, levando à capital do país uma programação fortíssima repartida entre três palcos. E, o mais importante, esforçar-nos-emos para que a materialização da nossa esperança seja digna das pessoas que lutaram ao nosso lado e que nos alimentaram com a sua convicção de que o presente pode ser diferente quando a nossa própria crença não bastava. Para essas, o nosso humilde e eterno agradecimento.


Essa é para ti, Sams.

In: www.mindelact.org

Apoio: RDP África