Reino Unido proíbe venda de veículos de combustão a partir de 2030

O primeiro-ministro britânico adiantou em cinco anos a data prevista para a interdição de vendas de veículos novos equipados apenas com motores a gasolina ou a gasóleo. As críticas não demoraram.

Graça Andrade Ramos - RTP /
O primeiro-ministro britânico segura um carregador de carro elétrico durante uma visita à sede da Octopus Energy, a 5 de outubro de 2020 Reuters

Os mais economicistas pensam que a nova data não dá tempo para o preço dos automóveis elétricos descerem o suficiente para se tornarem comportáveis para a bolsa do consumidor médio britânico.

Os condutores consideram a decisão “estalinista”.

A Associação dos Condutores Britânicos chamou desde logo a atenção para a falta de uma rede viável de pontos de recarga.
Sob a nova estratégia, os motores híbridos ainda seriam permitidos, embora sem se saber até quando, um pormenor que parece ter sido ignorado por muitos analistas.
Nos comentários aos artigos dos jornais sobre a medida, alguns britânicos lembram que esta irá significar uma explosão das vendas de carros em segunda mão, já que só a venda de veículos não elétricos novos será proibida.

Outros perguntaram-se se a produção de veículos elétricos dentro de 10 anos será suficiente para responder à procura, e sugeriram que os custos serão tão “elevados” que só os “ricos” serão capazes de conduzir um carro próprio.

Outros ainda adiantam a hipótese de o objetivo real ser precisamente ditar o fim dos automóveis particulares, abrindo caminho ao aluguer de veículos autónomos, que não implicam estacionamento nem manutenção, a par da utilização do comboio para as deslocações a longas distâncias e da bicicleta ou motociclos elétricos para as mais curtas.

O executivo de Johnson justifica a opção com a “revolução industrial verde” que pretende implementar através do anunciado Plano de Dez Pontos, que irá "criar 250 mil postos de trabalho amigos do ambiente", enquanto "prepara o país para cumprir as metas de zero emissões carbono" dentro de 30 anos e o torna "líder" nas indústrias de escasso impacto ambiental, conforme referiram alguns dos ministros de Boris Johnson.

Ao abrigo deste Plano,  estão previstos investimentos de 12 mil milhões de libras na reconversão industrial do país, em alternativas elétricas, nucleares, ou de energias renováveis, entre outras, menos de um quinto do orçamentado para o projeto do comboio de alta velocidade, iniciado em setembro e que deverá custar 100 mil milhões de libras.

Os Trabalhistas fizeram notar que o Plano para a “revolução verde” apenas prevê na verdade quatro mil milhões de libras em novos investimentos, sendo que os restantes oito são iniciativas requentadas. E o Brexit?
Resistência é para já a palavra-chave, tanto para os construtores automóveis como para os defensores do meio-ambiente.

Estes vêm a medida como uma ofensiva de charme a uma nova Administração na Casa Branca, sob Joe Biden e Kamala Harris, mais crente nas alterações climáticas do que Donald Trump.

A intenção do primeiro-ministro britânico poderá ser mais enviar recados.

Um, aos construtores automóveis, que têm de decidir se mantêm ou não as suas fábricas em solo britânico num cenário pós-Brexit de aposta no meio-ambiente. Outro, a Bruxelas, como indicação de que um eventual acordo comercial com o bloco europeu está definitivamente posto de lado e que o Reino Unido está pronto a fazer o seu próprio caminho sozinho.
A União Europeia avisou esta semana Boris Jonhson de que faltam menos de 10 dias para terminar o prazo de conclusão das negociações.

Entre os construtores automóveis fazem-se contas à vida.

A Nissan, por exemplo, já disse que está preparada para responder ao desafio elétrico, mas não para um cenário de novos custos associados a tarifas e a demoras alfandegárias, caso o acordo comercial com Bruxelas não se conclua.

A marca japonesa emprega 7.000 pessoas na sua fábrica automóvel de Sunderland, a maior do país, e prometeu em março expandir as suas operações para construir ali os modelos Qashqai, além dos Leaf. Isso foi quando ainda acreditava na possibilidade de um Brexit com acordo.

Mas, se a saída da União Europeia se der “sem qualquer acordo substancial, obviamente não será uma questão de Sunderland ou não Sunderland, obviamente a nossa empresa no Reino Unido não será sustentável, e acabou-se”, referiu Ashwani Gupta, Diretor de Operações da Nissan, em entrevista à Agência Reuters esta quarta-feira.

Ashwani desmentiu rumores de que a Nissan, assim como a Toyota, que tem duas fábricas no Reino Unido, pensa pedir compensações ao Governo britânico em caso de um Brexit sem acordo. Mas não irá hesitar em fechar tudo se o investimento deixar de ser rentável.

A Honda Motor, que fabrica os seus Civic em Swindon no sul de Inglaterra, já anunciou em 2019 o encerramento da sua única fábrica no país, e o consequente despedimento de 3.500 pessoas, devido ao Brexit.
Subsídios ou reconversão
A decisão de mudar exclusivamente para a venda de veículos novos híbridos ou exclusivamente elétricos, agora anunciada para 2030, poderá significar tanto a machadada final no setor automóvel britânico, como uma separação de águas em benefício dos construtores que apostem unicamente no verde.

Para já, a maioria dos CEO das construtoras contesta a estratégia. Oliver Zipse, da BMW, que produz uma linha inteira de veículos elétricos, questionou a sensatez da medida, uma vez que “o efeito irá ser de que muitos dos condutores não terão meios para continuar a ter carro”. Um rombo, naturalmente, nas contas da área de produção de veículos novos.
A necessidade de subsídios governamentais para apoiar tanto a indústria automóvel a produzir alternativas elétricas mais baratas como os consumidores a mudarem para o elétrico já está a ser equacionada.

Para Mike Hawes, presidente do Conselho de Administração da Sociedade de Construtores e Comerciantes de Motores, a nova meta irá criar um enorme desafio difícil de resolver.

“Os construtores investiram milhares de milhões para produzir veículos que já estão a ajudar milhares de condutores a mudar para as zero” emissões, lembrou. Antecipar a reconversão do mercado para custos acessíveis não vai ser pera doce.

A alternativa poderá ser diminuir e muito a produção de veículos novos e apostar na reconversão e reutilização dos já em circulação. Ou esperar por subsídios governamentais.
Plano de Dez Pontos
O pacote dos 12 mil milhões de libras da “revolução verde” de Boris Johnson irá, em parte, apoiar precisamente a reconversão das fábricas das Midlands para veículos elétricos, apostar em tecnologia sustentável como o desenvolvimento e produção em massa de baterias e criar uma rede de estações de recarga.

Inclui ainda a construção de novas centrais elétricas nucleares de pequena escala, a instalação de milhares de turbinas em apoio à indústria recém-criada das quintas de vento no norte do Reino Unido, e o desenvolvimento de tecnologias de hidrogénio capazes de até ao fim da década fornecer energia limpa a pequenas cidades.

Investimentos de cinco mil milhões de libras noutros transportes, quase metade das quais em novas pistas para bicicletas, e o restante em autocarros e em vias para pedestres, a plantação de mais de 30 mil hectares de árvores anualmente e a instalação de sistemas de aquecimento em 600 mil casas todos os anos até 2028, estão incluídos também no Plano.

Resta saber se o dinheiro dará para tudo.

Boris Johnson mostrou-se confiante apesar do revés da pandemia. “O meu Plano de Dez Pontos irá criar, apoiar e proteger centenas de milhares de empregos verdes, ao mesmo tempo que avança a passos largos para as zero emissões em 2050”, afirmou o primeiro-ministro britânico com o seu característico otimismo.