Eduardo Ferraz da Rosa

Indiferenças Históricas e Demissões Actuais



“A indiferença cresce. (...) É esta mesma apatia que encontramos também na área política (...).

“Não se trata, para falar com propriedade, de ‘despolitização’; os partidos, as eleições, continuam a ‘interessar os cidadãos, mas do mesmo modo (e em menor medida, aliás) que as apostas nas corridas, a meteorologia do fim-de-semana ou os resultados desportivos. A política entrou na era do espectacular, liquidando a consciência rigorista e ideológica em benefício de uma curiosidade dispersa, captada por nada e por tudo.

“(...) A res publica encontra-se desvitalizada, as grandes questões ‘filosóficas’, económicas, políticas ou militares suscitam mais ou menos a mesma curiosidade desenvolta de um qualquer fait divers; todos os cumes se abatem pouco a pouco, arrastados pela vasta operação de neutralização e banalização sociais”:

– Foi assim que um pensador francês actual (nascido em 1944, professor de Filosofia na Universidade de Grenoble e Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro em 2013) –, numa análise às sociedades ocidentais e à emergente civilização “pós-moderna” ou “hiper-moderna” – elencou algumas características da era do vazio, título onde compendiou tipificações das contemporâneas formações socio-históricas.

O tema é vigente e merece ser revisto a partir de tudo o que nos cerca e bate à porta, para mais face à constatável deriva diária das nossas comunidades profundamente marcadas não só por bloqueios viscerais face à possibilidade da sua própria auto-consciencialização crítica – a única que poderia levar à procura de modelos e valores alternativos daqueles que ora as condicionam, regem e determinam de modo hegemónico, e que as conduzem a estados de sujeição, vassalagem e não-reconhecimento (isto é, de total alienação subjectiva e objectiva) –, de tal modo que até as percepções antropológico-críticas do antigo niilismo trágico (clássico interrogador da condição humana e de todas as discrepantes e contingentes formas de saber e existência (fossem como radical protesto libertador ou evolutivas superações de Consciência possível, Razão e Moral), se revelam elanguescidas e metamorfoseadas em insignificantes figuras de apatia frívola, sonambulismo larvar, anomia face aos riscos, negação das alteridades e fugas ao pensamento e à acção, “a despeito das realidades catastróficas largamente exibidas e comentadas”!

– Formas, afinal, de incompetências sistemáticas, preguiças de zelo patriótico, ausência de elites e de lideranças esclarecidas, ignorâncias e menoridades em série, com recorrentes indiferenças seculares e históricas demissões cívicas, culturais e político-institucionais, agora “democraticamente” próximas dos provinciais arranjos pré-eleitorais que se seguem e das sub-repticiamente tentadas “diplomacias de pé de orelha”...

E tudo aquilo, repita-se, poderia ser dito e aplicado igualmente a propósito das presentes teses in abstracto, com foguetes políticos e foguetões de ciência à mistura (à maneira da

Guiana, ou de alguns dos seus congéneres e co-implicados consórcios, aparelhos e complexos técnicos, tecnológicos e militares?), com outros, alternativos e novos interesses geoestratégicos sobre o ar e os mares dos Açores e da Base das Lajes, ao aparente serviço (inocente ou intencionalmente neutralizante por telecomando?) de agências e agendas muito pouco claras, pouco debatidas e nada legitimadas, a nível regional e nacional também!