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S. Jorge – a ilha desconhecida Onésimo T.Almeida

S. Jorge – a ilha desconhecida   Onésimo T.Almeida
S. Jorge – a ilha desconhecida

Pensei, claro, escrever sobre S. Miguel, meu berço. Mas é já a mais conhecida ilha açoriana. Ainda entretive a ideia de falar de um seu lugar único, mágico, particularmente se em certa hora mágica, mas a magia evaporar-se-á se houver uma invasão de visitantes. Por isso escolho falar de S. Jorge. Sei que nunca atrairá massas de gente porque não tem praia (às vezes tem, na Fajã de S. João; mas não precisa pois ao longo da costa não faltam esplêndidas piscinas de basalto), nem cidades, nem gastronomia de se descrever em jornal e, para os cultos e letrados, foi a única ilha que Raul Brandão achou demasiado triste mesmo para o seu olhar de exímio pintor de palavras. Seu grande leitor, custa-me discordar. E, todavia, venho fazê-lo. Em sua defesa, reconheço que deve ter tido pouca sorte com o tempo. Na verdade, é a ilha mais sujeita a essa doença açoriana do nevoeiro que deixa o pobre turista sem sítio para ir porque a ilha acontece sobretudo nas alturas. Sim, as fajãs são deliciosas, claro, para quem leva tempo na bagagem. Não tempo climatérico, que esse é a preço de oiro e esquiva-se a quem quer que seja, mas tempo-de-ficar.

Já lá vão mil caracteres e ainda não falei no prodígio do dorso da ilha, culminando no Pico da Esperança, acima de mil metros de altitude, e de onde a ilha defronte é mais Pico. À ilharga fica-lhe o Faial, gatinha surrateira e mansa deitada aos pés do dono. Só isso daria para fazer de S. Jorge poiso obrigatório. Entre a serra do Topo e a ponta de Rosais, sobretudo com a tarde a cair-nos de esplendor sobre os olhos e as tonalidades de verde, azul e cinzento a estontearem-nos, é espectáculo inigualável. E, no entanto, nunca ali por cima me cruzo com ninguém, a não ser lavradores. E estrangeiros de vez em quando (depois queixamo-nos de eles nos usurparem o território!).

Para quem tem receio das alturas, há as fajãs, de alturas também, mas a descer.... Às dezenas. Uma, porém, ultrapassa de longe a competição: na costa Norte, que o poeta Carlos Faria dizia “rebentar de verde”, é inacessível a não ser a corajosos: uma hora e três quartos de descida a pé a partir da Serra do Topo, com regresso de uma hora via Fajã dos Cubres (há os aldrabões que fazem o percurso a partir desta, numa moto-4). Lá em baixo é o paraíso terreal à beira de água. Aluga-se um barquinho, por um euro, e passeia-se na lagoa (caldeira) de água salgada, nada-se naquela suavidade serena que esconde no fundo ameijoas deliciosas que (avisa-se!) muitas vezes só em réplica são servidas no único restaurante (um alpendre) local.

A S. Jorge não se vai para comer (compra-se o melhor queijo – Lourais), a não ser que se seja convidado para casa de um local (e isso não é nada difícil). Sim, ele há restaurantes espalhados pela ilha, mas não é por isso que lá se aporta. Na ilha come-se paisagem, bebe-se beleza a rodos e a bebedeira é de tons de verde, de azul de hortênsias, céu e mar, e o ruído é de vacas, para quem se quiser perder ao fim da tarde, lá bem no alto, para cima de Santo Amaro onde os leiteiros as ordenham. Com o sol a descair para a ponta de Rosais e o Pico a armar-se em vedeta mudando de cor a cada instante, quem quer saber de comer? Os mais esfomeados levam farnel e, se a sede assalta, pode sempre pedir-se aos lavradores uma lata de leite saída do bojo de uma vaca mais prazenteira.
Nenhum a nega.

Nota: O referido artigo foi publicado em primeira mão na Expresso-Revista, 13 de Julho de 2013.

Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer