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Tempo III - Crónica : «Defoe No Corvo» Urbano Bettencourt

Tempo III - Crónica : «Defoe No Corvo»        Urbano Bettencourt
Defoe no Corvo

Para Pedro Javier Castañeda García


O escritor inglês chegou ao Corvo no início dos anos oitenta, a convite de Ricardo Ascensão, e pôde, com argúcia, observar os homens e a amplidão do mundo a partir de um espaço tão diminuto como esse. Em várias crónicas da época (com o título aqui aproveitado), disso nos deu conta o seu anfitrião, que acabaria, porém, a vida em terras de Espanha, entre os ferros e as chapas de um acidente de viação em que pereceram igualmente os escritores J. H. Santos Barros e Ivone Chinita.
Defoe deixou de imediato a Ilha. Não teve, por isso, oportunidade de informar-nos sobre o naufrágio do Tapestry, ocorrido logo após a queda do Muro de Berlim, quando o navio transportava a Orquestra de Balalaikas de Moscovo que se dirigia a Nova Iorque para celebrar musicalmente a nova Harmonia Universal.
Dois náufragos deram à costa no momento em que o Conselho de Anciãos, reunido no Outeiro, entoava o Coro dos Velhos do Corvo, composto em tempos imemoriais por um incerto Vasco Pereira da Costa, ali arribado em fuga aos cataclismos da sua própria ilha. E puseram-se a tocar melodias distantes em que o rumor das estepes se perdia no silêncio das grandes extensões do Oeste. Tocaram, tocaram durante uma tarde inteira, enquanto o Conselho, absorto como o jogador de xadrez do outro, discorria sobre o destino do queijo e das estrelas, sobre a imperceptível mas inexorável caminhada da sua ilha para ocidente e à razão de dois centímetros e meio por ano.
E nunca perceberam, os náufragos, que as arrastadas palmas com que três anciãos coroaram a sua actuação musical não eram mais do que uma simples manifestação de regozijo pelo fim desses estranhos sinais sonoros que tinham vindo perturbar-lhes a redonda quietação atlântica.


(em Que paisagem apagarás, 2010)

Urbano Bettencourt,natural da Piedade,Ilha do Pico. Vive em Ponta Delgada,Ilha de São Miguel. É Professor,ensaísta,poeta. Sua produção literária é profícua e de mérito reconhecido. Seu mais recente livro "África Frente e Verso (Letras LAVAdas,2012) traz a sua marca de escritor de grande sensibilidade na prosa e na poesia.

Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer